Opinião

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O Irã e a `comunidade internacional´

O Irã e a `comunidade internacional´

Marcelo Rech

Em 19 de maio de 2010, o então ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Celso Amorim, falou sobre a Declaração de Teerã em palestra para a turma 2009-2010 do Instituto Rio Branco.

Segundo ele, a expressão “comunidade internacional” costuma ser empregada como coletivo para um pequeno grupo de países ocidentais, membros permanentes do Conselho de Segurança. “Quando os Estados Unidos, a França e o Reino Unido adotam uma posição comum, esta fica sendo a vontade da “comunidade internacional”, afirmou.

Isso ilustra bem o processo de “demonização” do Irã em relação ao resto do mundo.

Como o próprio chanceler lembrou à época do acordo viabilizado por Brasil e Turquia, perdeu-se uma grande oportunidade com a Declaração de Teerã.

Isso se deu justamente porque a “comunidade internacional” não tem o menor interesse numa solução negociada.

Além disso, usam o Irã para fazer política interna. É o que ocorre neste momento nos Estados Unidos, por exemplo.

As sanções econômicas ilegítimas aprovadas à margem do Conselho de Segurança da ONU vitimam apenas a população iraniana.

Os países da “comunidade internacional” não reconhecem o direito do Irã em enriquecer urânio, embora o país seja signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP).

Recorde-se que enriquecer urânio e ter um Programa Nuclear, não está proibido pelo TNP nem pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Agora, um inspetor da AIEA diz com todas as letras que o Irã está disposto a colaborar e que nos dias 21 e 22 de fevereiro, a agência retornará a Teerã.

No entanto, a “comunidade internacional” segue pressionando para que o Irã seja “contido”.

Israel possui armas nucleares e não presta contas disso.

Há uma ética hipócrita nessa discussão.

Os países nucleares assumiram o compromisso pelo desarmamento, mas quando foi que se sentaram para tratar do assunto?

Quando o então chanceler Celso Amorim discutiu o assunto com a Secretária de Estado Hilary Clinton, comentou-lhe sobre a carta enviada por Barack Obama ao presidente Lula.

Clinton calou. Ela não sabia de carta nenhuma. Ficou claro que a Casa Branca pensava uma coisa e o Departamento de Estado, outra.

O pecado cometido por Brasil e Turquia foi lograr um acordo nos termos “exigidos” pelo presidente norte-americano quando a “comunidade internacional” já preparava as sanções.

Nos próximos dias, estarei em Teerã. Como me disse um experiente diplomata brasileiro, “a imprensa norte-americana é imbecil, a européia é estúpida”.

Não acredito em tudo que veiculam.

Vou ao Irã para tentar retratar um país que ousou desafiar a “comunidade internacional” e que é uma potência científico-tecnológica com grande potencial econômico-comercial.

Vou ao Irã movido não apenas pelo enorme interesse brasileiro em investir ali, mas também pelo interesse cada vez maior do Oriente Médio, de apostar no Brasil.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e Contra-insurgência. E-mail: inforel@inforel.org

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