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O Legado do Coronel

O Legado do Coronel

Joanisval Gonçalves

Nesses últimos dias, o que mais se viu foram matérias e editoriais ovacionando Hugo Chávez ou com um rosário de críticas e ofensas ao líder morto. Isso, associado à histeria coletiva que se presenciou por ocasião do velório, faz dos funerais do líder venezuelano um acontecimento que muito demorará a ser esquecido…

Sem dúvida, Hugo Chávez Frías foi uma das figuras mais marcantes da América Latina nos últimos cem anos. Em termos de carisma junto a seu povo, poderia ser facilmente comparável a Vargas, Fidel e Perón. Chávez assumiu o poder na Venezuela prometendo mudanças… Cumpriu a palavra!

A Venezuela de hoje é bem diferente daquela de quinze anos. E isso, efetivamente, foi obra do tenente-coronel vermelho.

Como nenhum outro líder do continente, Chávez soube usar a mídia, e o que há de mais moderno em termos de comunicação, para projetar sua influência dentro e fora da Venezuela. Desde o primeiro momento, mostrou-se hábil diante das câmeras… era um comunicador nato. E esse talento para transmitir sua mensagem logo alcançou o grande meio de comunicação do século XXI: a internet. Difícil encontrar governante com maior capacidade de uso de ferramentas como o twitter ou outras redes sociais. Também teve êxito como nenhum outro nas chamadas “frases de efeito”: inesquecível, por exemplo, aquele grito que se tornou a palavra de ordem contra a Área de Livre Comércio das Américas, a ALCA: “Alca, Alca, Alcarajo!”… De igual projeção foi a cena na Assembleia-Geral ONU, quando comentou o cheiro de enxofre por ocasião da passagem, pouco antes, do Presidente George W. Bush…

Para a Venezuela, Chávez deixou um país mais violento e vitimado pela corrupção, com uma classe média reduzida e uma população muito dependente do Estado, estagnação política, e uma crise econômica que pode gerar muito caos nos próximos anos. De fato, o tenente-coronel perdeu importantíssima janela de oportunidade, resultante do aumento do preço do petróleo, de levar desenvolvimento a seu país. Infelizmente, a Venezuela continua pobre e seu grande e belo povo vitimado pela incompetência das lideranças… Para piorar, Chávez conseguiu implantar uma ditadura personalista em um dos poucos países da América do Sul com tradição de democracia sem grandes rupturas institucionais. Nesse campo, o legado do regime chavista se assemelha a de muitos outros regimes autoritários, infelizmente.

Em termos de política externa, o finado líder venezuelano soube, como ninguém, firmar-se como liderança… Extremamente competente em apresentar sua imagem com baluarte das esquerdas no século XXI, líder comprometido com uma ideologia (por ele mesmo concebida) e referência para outros governantes latino-americanos, não seria exagero dizer que Hugo Chávez teve êxito ao se mostrar como sucessor político de Fidel Castro no continente. Em termos reais de projeção de poder, o discípulo superou o mestre. Claro que a posição de Castro como o maior líder do continente nos últimos cem anos dificilmente será questionada, mas Chávez conseguiu fazer o que Fidel nunca alcançou de maneira efetiva: projetar sua influência a outros países e levar seus discípulos e/ou aliados ao poder: Bolívia e Equador são apenas dois exemplos. A influência do venezuelano projetou-se aos mais distantes rincões da América Latina: Honduras, Nicarágua, Bolívia, Equador, Peru, Argentina, Uruguai, Paraguai, Cuba e, até mesmo, no Brasil. E, nesse sentido, o comandante bolivariano conseguiu eclipsar a liderança brasileira (ou as pretensões de liderança) no continente. Com a subserviência e inabilidade de nossos sucessivos governos em fazer do Brasil um ator verdadeiramente influente na região, Chávez conseguiu colocar a Venezuela em destaque, com muitas nações do continente começando a gravitar politicamente em torno da potência venezuelana.

Ainda no que concerne à política externa, Chávez teve êxito também em projetar-se para além do continente americano. Com alianças com os chamados “Estados-pária”, destacadamente Irã e Coréia do Norte, o tenente-coronel conseguiu inserir a Venezuela no chamado “Eixo do Mal”, expressão criada pelo país tido declaradamente como o grande inimigo do bolivarianismo, os EUA (na concepção de Chávez a potência imperialista causadora de todos os males da humanidade, inclusive da doença que o levaria à morte), apesar de nunca ter deixado a posição de principal parceiro comercial. E o paradoxo do antagonismo político e da dependência econômica se estendeu ao principal aliado dos EUA na região, a Colômbia, com quem a Venezuela quase chegou (ou ao menos era o que o coronel quis fazer crer) às vias de fato… Ademais, nessa projeção para além do continente, Hugo Chávez aproximou-se de grandes potências interessadas em aumentar sua influência nas Américas, notadamente Rússia e China. Chávez mostrou-se muito habilidoso nessas empreitadas…

Qual o legado do tenente-coronel, afinal? Para a Venezuela, a manutenção do atraso e um país órfão de seu senhor, no qual os sucessores de Chávez (que não têm a mínima parcela de seu carisma) logo podem enveredar para uma luta fratricida pelo poder… Não creio que a oposição terá competência e habilidade para chegar ao poder, ao menos em um cenário de médio prazo. Ao que parece, a disputa se dará entre os grupos de Maduro (que sai na vantagem por ter sido o Delfim, sucessor escolhido e indicado expressamente pelo grande líder) e de Cabello. Apesar de ser o Delfim, convém lembrar que Maduro tem origem no movimento sindical, enquanto Cabello vem da caserna. E, nos meses vindouros, os militares terão papel de extrema importância na decisão sobre os destinos da Venezuela… Governante nenhum se sustentará sem o apoio dos quartéis. Resta saber quem conquistará a lealdade das Forças Armadas.

Na América Latina e no mundo, Hugo Chávez também deixa um vazio em termos de liderança regional. Goste-se dele ou não, difícil discordar do fato de que o tenente-coronel de fala eloquente e sorriso simpático marcou um período, que talvez no futuro venham a ser conhecido como “a Era Chávez”. Poucos governantes podem entrar para História como alguém que deixou órfãos entre seus pares de outras nações. Chávez conseguiu fazê-lo. Menos ainda poderão ter seu nome associado a uma ideologia… Por mais incoerentes e sem fundamento que sejam essas ideias, também constarão dos livros escolares do futuro as expressões “bolivarianismo” e “chavismo”, como fenômenos de massa deste início de milênio e que ultrapassaram as fronteiras da Venezuela.

Dificilmente o “chavismo” e o “bolivarianismo” sobreviverão a seu criador. Os ícones dessas duas ideologias agora estão no passado. E o futuro, como sempre acontece quando saem de cenas homens da expressão do tenente-coronel, mostra-se imprevisível, mas com fortes sinais de crise e conflito. Ao menos na Venezuela e entre grupos de esquerda do continente, o luto continuará por mais algum tempo. E quando passar restará o culto ao homem que, de um ilustre desconhecido dos tempos da caserna, tornou-se a cara de um continente, o guia de um povo, e ícone de uma causa. Chávez morreu! Viva Chávez!

Joanisval Gonçalves é advogado, professor universitário, e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília

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