Opinião

Forças Armadas
15/02/2011
Forças Armadas
21/02/2011

O Levante

O Levante

Joanisval Brito Gonçalves

É surpreendente o que está acontecendo no mundo islâmico… As manifestações por democracia, iniciadas nos países árabes chegaram ao Irã fundamentalista…

E agora, no Norte da África, parece ser a vez de Muammar Kadafi, que há mais de quatro décadas dirige a Líbia com mão de ferro… É incrível como o regime autoritário e antiocidental da Líbia (em que pese a distensão dos últimos anos) se veja afrontado por manifestações legitimamente democráticas! Parece um anseio que vem realmente de dentro da sociedade, das ruas, da população do país! É endógeno, tudo leva a crer!

A essas manifestações por mudança chamarei do “O Levante” (não gosto do termo onda revolucionária). O Levante é algo sem precedentes nessa parte do globo! Será que a democracia realmente chegará aos mundos árabe e islâmico? Ou, sendo mais pessimista, seria apenas uma mudança de cadeiras?

Difícil responder a tais perguntas acompanhando os acontecimentos à distância, em tempo real, e sem informações precisas sobre o que realmente ali está a acontecer. Mas se trata, no mínimo, de um exercício desafiador para um analista internacional, explicar a conjuntura. O único risco é que esta análise mostre-se errônea e sem fundamentos em pouco tempo. Mas esse é o desafio do analista, que não é onisciente.

Parece, de fato, que o Oriente Médio e o Norte da África não serão os mesmos depois d’O Levante – naturalmente, tampouco será o sistema internacional.

Ventos da modernidade… clamor por reformas… apelo por mais democracia (?)… fim de regimes autoritários… Tudo acontecendo nessa parte fascinante do mundo, em diversos países, sunitas e xiitas, Estados laicos e teocráticos, pró e antiocidentais, regimes autoritários tradicionais e outros que se teriam estabelecido após “revoluções populares”… Tudo ao mesmo tempo e agora! E com motivações que o têm em comum basicamente a insatisfação com a ordem vigente e o clamor por reformas!

Realmente, é interessantíssimo como o Levante é endógeno, partindo do seio da sociedade desses países, impulsionado pela juventude e com a aquiescência dos mais experientes… E o Ocidente, no processo todo, é a referência, o modelo em que se espelhar e não o inimigo a ser combatido. São por valores que encontram parâmetro no mundo ocidental (democracia, liberdade, igualdade) que as pessoas se insuflam e exigem reformas de seus governantes.

Não se vê protestos contra os Estados Unidos ou Israel, nada de stars and stripes ou da estrela de Davi sendo queimadas. As bandeiras nas ruas são as nacionais, símbolo importante do caráter político e laico d’O Levante. Nada de choque de civilizações, muito pelo contrário!

Isso que acontece hoje no mundo islâmico, esse movimento endógeno por reformas e por mais democracia, assemelha-se ao que aconteceu nos países socialistas do Leste Europeu e na União Soviética há duas décadas!

Não se pode deixar de fazer o paralelo: motivação relacionada à crise doméstica daqueles regimes, protestos por mais liberdade, não-interferência das potências ocidentais (de fato, estupor, apatia e surpresa por parte dos governos do Ocidente!).

E governos autoritários derrubados pela força das ruas, estruturas de dominação estabelecidas por décadas e cuja aparente fortaleza nada mais era que um castelo de cartas que não resistiu ao vento da liberdade.

O destino dos povos do Leste Europeu foi definitivamente alterado naqueles dias! E salvo por alguns loucos anacrônicos (geralmente que não viveram “do lado de lá da Cortina de Ferro”) ainda defensores de uma ideologia falida e que, felizmente, ficou nos estertores do século XX (à exceção de alguns nichos de atraso cada vez mais raros pelo globo), ninguém mais cogita o retorno daquele modelo.

O Leste Europeu está hoje em melhor situação econômica, política e social do que há vinte anos. Oxalá essas mudanças também possam chegar ao mundo árabe e muçulmano.

Podemos estar diante de um momento histórico sem precedentes, em que a democracia chega àquela parte do mundo, com todas as conseqüências dessas transformações.

E o mais fascinante é que, se der certo O Levante, em alguns anos poderemos nos ver diante de regimes democráticos e modernos na região, laicos, pondo abaixo qualquer argumento falacioso de que a democracia e o Islã seriam incompatíveis. E o mundo estará, indiscutivelmente, melhor.

 

Joanisval Brito Gonçalves é Consultor Legislativo do Senado Federal para Relações Exteriores e Defesa Nacional e Consultor da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional (CCAI). Doutor em Relações Internacionais, professor e conferencista, tem publicações no Brasil e no exterior na área, com destaque para os livros Atividade de Inteligência e Legislação Correlata (Niterói: Impetus, 2009), Políticos e Espiões: o controle da Atividade de Inteligência (Niterói: Impetus, 2010), Tribunal de Nuremberg, 1945-1946 – A Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional (Rio de Janeiro: Renovar, 2ª edição, 2004) e Relações Internacionais: Teoria e História (Brasília: Senado Federal, 2009). Os conceitos e opiniões aqui emitidos são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente as posições de entidades às quais esteja eventualmente vinculado. E-mail para contato: joanisval@gmail.com. Website: www.joanisval.com.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *