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01/02/2006

Política

O marinheiro Popeye e a política brasileira

Ucho Haddad

Certamente alguém irá duvidar do título acima, mas nada é tão apropriado para o caos político-eleitoreiro que está sendo impingido ao povo brasileiro. Quem, de uma forma ou de outra, gravita no universo da política, percebe, a cada novo dia, que largar tal vício é quase impossível.

É verdade que muitas vezes, por conta do que estamos vivendo, dá uma vontade louca de largar tudo e sumir no mundo, mas o fato é que aquele que um dia arriscou a escrever sobre política jamais irá se recuperar de tão grave mal.

Mesmo assim, existem momentos em que escribas psicopatas, como este que firma este emaranhado de letras, buscam alternativas para ser ver longe da política, mesmo que por parcos instantes. Há dias, abusando do ócio sabático, optei por deleitar-me na vagabundagem que um desenho animado sempre proporciona.

Diante da telinha, a mesma que NOTICIA mensalão, operação tapa-buraco, Valérios, Delúbios e Valdemares, corrigi a postura para seguir os passos de Popeye, o estabanado marinheiro ianque que apronta pelo mundo afora.

Certo de que aqueles momentos seriam de relaxamento total – até porque a política jamais foi tão enfadonha e imunda como nos dias de hoje – deparei-me com uma disputa presidencial entre Popeye e seu inimigo Brutus.

Depois de alguns segundos de desalento pleno, optei por enfrentar mais uma prova de fogo. Enquanto Popeye e Brutus trocavam farpas nos palanques, tentei, entre uma promessa e outra, descobrir qual político se adequava mais ao perfil de cada um dos personagens daquele desenho animado.

De chofre, como qualquer um faria, imaginei que Lula poderia ocupar o lugar de Brutus, obviamente pela similaridade da barba. No decorrer da imaginária e criativa disputa presidencial, pude perceber que qualquer político brasileiro caberia na fantasia de um ou de outro “candidato”.

Quem acompanha as barafundas patrocinadas por Popeye, logo percebe que Lula é a materialização do marinheiro que tem em Olívia Palito a sua paixão maior e obcecada. Popeye, a exemplo de Lula, sempre está em algum porto, bem longe de sua casa, aprontando alguma confusão que os telespectadores já conhecem.

Com o desenrolar do curto, porém interessante, episódio televisivo, descobri que a política brasileira é tão pífia e vergonhosa que jamais mereceria o esforço criativo de quem faz histórias em quadrinhos ou desenhos animados.

Tentar enveredar por tal seara seria achincalhar o talento dos que encantam crianças e adultos ao retratar as mazelas do cotidiano de forma tão verdadeira quanto bem humorada.

Mesmo que as silhuetas de Lula e Popeye se contraponham, ambos se alimentam de um suplemento alimentar que faz da verdade mentirosa e interna de cada um a mais vergonhosa mentira que alguém pode ser obrigado a encarar.

Popeye, ao empurrar goela abaixo o seu turbinado espinafre, age exatamente como Lula, que a cada nova manhã mergulha numa lata de populismo barato, tendo como guarnição o vitupério oficial que açoita o eleitor brasileiro.

É verdade que uma colherada de espinafre virtual ou uma dose exagerada de acerto político não atrapalha tanto, mas acreditar que Lula e Popeye, cada um ao seu modo, são reedições mal feitas de Sassá Mutema já é demais.

No auge de sua fama, Popeye foi responsável por um aumento de 30% no consumo de espinafre, ao passo que Lula, enquanto os desacertos ainda adormeciam nas coxias do poder, conquistava índices de aprovação consideráveis, porém não duradouros, como acontece com o milagroso e inexplicável efeito da verdura do marujo do Tio Sam.

Hoje, com a eficiência do imaginário espinafre de Popeye sendo objeto de dúvidas, ao mesmo tempo em que a popularidade de Lula já produz galhofas e esfregar de mãos adversárias, o melhor a se fazer é mudar de canal ou tirar um bom e justíssimo sono, sempre lembrando que a mídia, que certamente fará do nosso repouso um pesadelo indescritível e conhecido, trará amanhã o que jamais gostaríamos de ler, ver ou ouvir.

Se Popeye tem no espinafre a sua maior predileção e fonte de força e inspiração, Lula faz o mesmo com aquela água que passarinho não bebe e com a perseguição ditatorial que adveio das intifadas moscovitas que ganharam notoriedade com o advento da Revolução Bolchevique.

O nosso presidente – afinal foi eleito de maneira legítima e pela maioria – terá que se valer de muita mentira enlatada para não ser espinafrado ainda mais pela opinião pública, que já não agüenta mais o tom de voz presidencial.

No contraponto, Popeye poderia telefonar para o Planalto e pedir autorização para fazer das hilárias confusões lulianas o tema de suas próximas aparições televisivas, até porque, ninguém tem sido mais criativo em termos de besteirol do que o torneiro que se deixou transfigurar por um terno bem cortado e uma faixa verde-loura e abrilhantada.

Pelo sim ou pelo não, bom mesmo é ficar com as mentirosas trapalhadas de Popeye, que, diga-se de passagem, não causam efeito colateral algum, a não ser algumas gargalhadas, vez por outra arrancadas à força.

De mais a mais, para finalizar, o marinho Popeye, nos últimos tempos, tem sido muito mais honesto e verdadeiro que o presidente Lula. Afinal, sem tapar buraco algum, ele é um candidato declarado.

Popeye para presidente e o meu desenho animado de volta.

Ucho Haddad, 47, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira [www.wanderleynogueira.com.br], do ABC Digital [www.digitalabc.com.br] e do Sanatório da Imprensa [www.sanatoriodaimprensa.com.br].

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