Opinião

Colômbia
12/12/2014
EUA
12/12/2014

Diplomacia

O processo de Paz na Colômbia e o papel do Brasil

Marcelo Rech, especial de Medellín, Colômbia

Visto desde o exterior, tem-se a impressão que o processo de paz na Colômbia é unanimidade entre os colombianos. Não o é. Além de setores conservadores, há gente comum que não acredita que a paz será efetivamente alcançada. Um dos maiores críticos tem sido o ex-presidente Álvaro Uribe hoje senador e uma das principais vozes de oposição ao governo.

Há ainda entre a população aqueles que desconfiam dos verdadeiros interesses das FARC em firmar um acordo de paz e muitos que não aceitam o fato de ver lideranças desta organização ocupando altos postos políticos no Congresso do país.

Juan Manuel Santos foi ministro de Defesa quando a Colômbia aplicou os principais golpes contra as FARC eliminando sua cúpula.

Reeleito, ele quer ser o presidente que fez a paz no país, que desnarcotizou a imagem da Colômbia no mundo. Antes mesmo do processo produzir resultados concretos, tem buscado o respaldo necessário para o pós-conflito.

As Forças Armadas terão de ser reduzidas e utilizadas em outras frentes. Haverá milhares de desmobilizados entre militares e guerrilheiros. A Colômbia não pode dar-se ao luxo de ver essa mão-de-obra altamente qualificada sendo absorvida, por exemplo, pelo crime organizado.

Além disso, há quem considere o processo inoportuno e mal desenhado. Um processo que pode até resultar num documento firmado pelo governo com as guerrilhas, mas impotente para pôr fim de fato ao conflito.

Na semana passada em Santiago, Chile, o Secretário-Geral da OEA, José Miguel Insulza disse-me que toda a região deve empenhar-se em respaldar o processo, mas sempre restarão aqueles que não vão aceitar depor as armas e abandonar os negócios do narcotráfico. Ele não acredita que as FARC terão fim.

Brasil

O Brasil sempre teve uma postura cautelosa em relação ao conflito interno e às relações da esquerda com as FARC e o ELN. No início do governo Lula, as duas organizações participaram como convidadas especiais, das três edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre (RS).

Inclusive, o então prefeito Tarso Genro e o ex-governador Olívio Dutra, ambos do PT, publicaram nos respectivos diários oficiais do município e do Estado, decretos concedendo status diplomático aos representantes destas organizações.

Essa empatia e aproximação entre as FARC e o ELN com os partidos de esquerda no Brasil, agora no poder, sempre suscitou muitas dúvidas no governo colombiano. Nunca houve confiança absoluta e o Brasil foi ficando à margem do processo.

Os discursos oficiais sustentavam que o Brasil não iria qualificar as FARC como uma organização narcoterrorista por acreditar que isso contaminaria um eventual papel que o país pudesse vir a jogar se um diálogo de paz fosse estabelecido.

Desde 2012, governo e FARC discutem um acordo em Havana. O Brasil não foi chamado. O rechaço também não foi apenas do governo. As FARC não escondem a mágoa com o governo Lula que trabalhou para que a Embraer vendesse o Super Tucano, um avião de ataque leve, para a Colômbia combater os grupos marginais.

Agora, a participação do Brasil num possível diálogo com o ELN somente será possível se houver um convite explícito do governo colombiano. Além disso, o Brasil não dialoga com as guerrilhas, pelo menos formalmente. O governo colombiano terá de negociar com todos os atores se o Brasil deve ou não participar e que papel deverá desempenhar.

De acordo com o governo brasileiro, não há clareza quanto a isso de parte dos colombianos. Não se sabe ao certo se a presença do Brasil será requerida.

Pelo que pude perceber, no governo colombiano, a figura do assessor internacional Marco Aurélio Garcia tão próximo à presidente da República é algo que incomoda e alimenta desconfianças. Pesa contra ele o papel de ideólogo do Foro de São Paulo.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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