Brasília, 23 de fevereiro de 2020 - 00h50
O risco de legitimar as ações dos Estados Unidos no mundo

O risco de legitimar as ações dos Estados Unidos no mundo

13 de janeiro de 2020 - 17:12:38
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Marcelo Rech

Não há nada de errado em aliar-se aos mais fortes, assim como não podemos ignorar a importância de se estender a mão aos mais fracos. O que define uma Política Exterior, não são os países com os quais mantemos relações, mas a forma como elas se dão.

O Brasil ainda não se deu conta do seu tamanho político, social e econômico e suas alianças são firmadas graças à identidade ideológica que encontramos pela frente. Foi assim durante os governos de esquerda e tem sido assim desde janeiro de 2019.

Apesar do presidente Jair Bolsonaro assegurar que poria fim à política externa ideológica dos governos de esquerda, o que se percebe é uma guinada à direita, com o alinhamento automático aos Estados Unidos e Israel. É algo que nos coloca no radar de uma série de problemas que não se apresentarão agora, mas no longo prazo.

Em 2019, os Estados Unidos não endossaram o ingresso do Brasil na OCDE, embargaram a importação de carne e ameaçaram taxar o aço e alumínio brasileiros. Donald Trump leva muito a sério a sua obsessão pela “América first”. Nos colocamos como um ator periférico quando deveríamos ser protagonistas.

Talvez, os Estados Unidos estejam agindo desta forma porque o Brasil reviu sua posição em relação à China. Washington costuma impor preços altos àqueles que não jogam de acordo com a sua cartilha. E isso é do jogo político. O problema não são como os Estados Unidos agem, mas como nós atuamos e reagimos.

Na crise Irã – Estados Unidos – Iraque, o Brasil simplesmente não deveria envolver-se. Não nos diz respeito. Além disso, os Estados Unidos não necessitam da legitimação nenhuma. Quando decidem agir, pouco importa o que pensam os outros. Trump não consultou seus aliados europeus, por exemplo, na hora em que autorizou o assassinato do general Suleimani e mais três importantes líderes xiitas.

A China não se pronunciou. Pequim sabe que não tem nada a ganhar envolvendo-se neste imbróglio. Isso para citarmos um ator central. A postura chinesa permite que o país siga transitando entre todos.

Na América do Sul, o principal aliado dos Estados Unidos, a Colômbia, país que mais recebe recursos, incluindo militares, ignorou o episódio e tudo bem. A esmagadora maioria dos aliados de Washington na região, ignoraram a operação.

A nota emitida pelo Itamaraty foi, no melhor dos cenários, desnecessária. Caso o Brasil não se pronunciasse, não haveria cobrança. De nenhum dos lados. Por outro lado, há um risco ernome para o país que decide legitimar as ações dos Estados Unidos no mundo. Riscos que não são apenas econômicos, mas políticos e até militares.

Marcelo Rech, é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.