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O tombo internacional provocado pelo coronavírus

O tombo internacional provocado pelo coronavírus

17 de março de 2020 - 11:25:37
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Marcelo Rech

Poucos atores, sobretudo não estatais, conseguiram em tão pouco tempo o que o coronavírus está conseguindo em todo o mundo. Há um processo de transformação política e econômica em curso. Custos humanos e financeiros estão sendo medidos de uma forma quase peculiar. O tombo não será pequeno. Não há imunidade capaz de frear o que vem pela frente e que vai durar uns bons quatro meses, pelo menos.

Isso, considerando que o coronavírus tem uma letalidade muito baixa. Menos de 3% das pessoas infectadas chega ao óbito. A dengue no Distrito Federal, por exemplo, está matando muito mais e rápido. É preciso, portanto, aliar a racionalidade com a prevenção para evitar-se o caos. E os exemplos precisam vir de cima, das autoridades, todas!

A Europa se tornou o epicentro do problema e está obrigada, agora, a lidar com um tema penoso: o fechamento de suas fronteiras. As ondas migratórias provocadas pelos conflitos na Síria e no norte da África, colocaram o tema na agenda da União Europeia, mas a liderança alemã impediu que ações extremadas fossem implementadas. Houve um não categórico à xenofobia.

Agora, esta alternativa parece ser a aposta mais forte para isolar o coronavírus e reduzir o impacto econômico da pandemia. Voos estão sendo cancelados e os poucos que ainda operam, estão vazios. O comércio internacional se vê afetado por completo. A China, por exemplo, responsável por 10% da produção global, a reduziu em 40%. O país produz cerca de 20% de todos os bens manufaturados do mundo.

Portanto, o mundo já sente a falta de chips de computador e peças, utilizados na produção de iPhones e carros, entre outras coisas, claro. No Brasil, quase 50% das empresas já registra problemas com os seus estoques. Nos Estados Unidos, este índice supera os 75%. Todos os setores e áreas estão sendo afetados.

Um deles, o de Defesa, registra até o momento, o maior número de eventos cancelados, o que significa negócios milionários que deixarão de ser fechados. O primeiro deles, a DIMDEX 2020, importante feira naval que seria realizada no Qatar, não tem data para acontecer. Na América do Sul, teríamos em Santiago, Chile, a Feira Internacional do Ar e Espaço (FIDAE), entre 31 de março e 5 de abril. Também cancelada. Em abril, no Rio de Janeiro, aconteceria a LAAD Security, entre os dias 14 e 16. Não teremos mais. Por enquanto, a Mostra BID Brasil, que promove a Base Industrial de Defesa, está mantida para agosto em Brasília.

Esses são alguns eventos de âmbito internacional afetados pela expansão do coronavírus. Os prejuízos não estão apenas nos negócios que deixam de ser fechados, mas em toda a cadeia impactada direta ou indiretamente por eles. Estamos falando de voos, hotéis, turismo, compras.

Um dos setores econômicos mundiais mais fortes, o futebol, não escapa. Na Europa, as grandes ligas foram suspensas e a Eurocopa, transferida para 2021. Na América do Sul, a confederação regional já suspendeu a Taça Libertadores e deverá paralizar também a Sul-Americana, além de ter passado para o ano que vem a edição da Copa América que seria realizada em junho na Argentina e Colômbia. Esses torneios são bancados por grandes e milionários patrocínios. Reagendar tudo isso, principalmente quando não se sabe se o pico ainda está por vir, não será uma tarefa simples.

Por fim, o impacto na saúde pública. Os países mais desenvolvidos não têm condições de lidar com o atendimento em massa. Não há leitos nos hospitais e muito menos, profissionais preparados para atender grandes contingentes. O que dirá nos países menos desenvolvidos onde até mesmo água potável é artigo de luxo. Talvez seja momento de revermos as convenções para que haja uma cooperação internacional verdadeiramente ágil. A burocracia deve ser vencida pela racionalidade, senão, como já assinalado, será mesmo o caos.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.