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O vergonhoso apagão aéreo no país do Aerolula

O vergonhoso apagão aéreo no país do Aerolula

Marcelo Rech

Há cerca de sete dias, o Brasil enfrenta o pior apagão aéreo de sua história. Humilhação, desrespeito, descaso, indiferença, incompetência e cumplicidade, unem o governo federal e a voracidade das empresas aéreas por lucros.

A obsessiva determinação do governo em fazer superávit primário, revela que há pelo menos três anos – desde 2003 já se advertia para um possível colapso no sistema de tráfego aéreo – o quadro que se desenhava era de uma crise no tráfego e na segurança dos vôos.

Enquanto isso, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, para quem todos os escândalos de corrupção no governo eram desconhecidos, se mantém informado a respeito do caos, confortavelmente instalado numa praia privada da Marinha, no litoral baiano.

Ele não teve dificuldades para deixar a capital e descansar com a família e amigos na Bahia. Não enfrentou filas nem qualquer estresse para deslocar-se até a Base Aérea de Brasília rumo ao que considera “um merecido descanso”.

Antes, irritou-se ao tomar conhecimento de que o país estava refém dos controladores de vôo, principalmente de Brasília. Por quê? Porque eles decidiram trabalhar dentro das regras internacionais de segurança. Ou seja, corríamos risco permanente de morte e não sabíamos.

Para variar, a Aeronáutica decide pelo aquartelamento da categoria e lava as mãos em relação à sua responsabilidade pelo vergonhoso apagão.

Com ameaças de corte marcial, manteve os controladores por jornadas desumanas à frente do controle de aviões comerciais, pouco importando se isso poderia ou não resultar em mais acidentes, como o que vitimou 154 pessoas no final de setembro.

O ministro da Defesa, Waldir Pires, por sua vez, nada sabia sobre a rotina dos controladores de vôo. Medidas foram anunciadas, mas nenhuma delas contribui para a solução imediata do sistema.

O que dizer da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que autorizou as companhias a aumentarem o número de vôos? Desconhece a Anac a capacidade do espaço aéreo brasileiro? Pouco provável. A exemplo das demais agências reguladoras está mais para o papel de advogada do setor privado.

Se as filas e o caos desaparecerem dos aeroportos nos próximos dias, os passageiros podem ter uma certeza: voltamos a voar no limite da segurança.

Num país sério, o governo teria de prestar contas dos cortes realizados. Enquanto o presidente fala em crescimento econômico de 5% e os petistas se digladiam por mais cargos nos últimos quatro anos da era Lula, o país anda para trás com suas rodovias entregues à leniência das autoridades.

As aerovias não suportam o aumento do tráfego e a iminência de acidentes é nítida. Mas as empresas aéreas continuam investindo na compra de aviões modernos e o número de passageiros que tradicionalmente utilizavam os ônibus, não para de crescer.

Essa é a imagem que o Brasil projeta no exterior: a de um país marcadamente incapaz de sustentar sua infra-estrutura.
Durante o período eleitoral, fomos submetidos ao enxovalhe de mentiras sobre um país que certamente não é o Brasil, onde tudo funciona maravilhosamente. Os hospitais mais parecem hotéis e as estradas, pistas de Fórmula 1.

As escolas públicas, as universidades federais, os serviços públicos. Tudo funciona tão bem que é como se estivessem num piloto automático.

Há que se aguardar pela manifestação do Ministério Público em relação a verdade dos fatos. Estamos em perigo constante porque o governo decidiu cortar verbas de setores estratégicos. Investe em obras superfaturadas nos aeroportos, mas ignora os recursos humanos, exceto os recursos humanos dos companheiros.

A máquina estatal inchou com o aparelhamento do Estado e só falta o presidente e seus asseclas, virem a público condenarem o preconceito e a discriminação contra o torneiro mecânico. Lula venceu duas eleições e até onde se sabe, de forma legítima, com a maioria dos votos dos brasileiros.

Ele foi eleito porque o povo condenou os modelos políticos sustentados pela direita. Se fez mais, não fez nada além da obrigação. Os governantes são eleitos para realizarem o que prometem e devem ser apeados do poder quando usam os cargos em benefício próprio ou são incapazes de controlar a corrupção nas próprias fuças.

Já deu o que tinha que dar essa conversa fiada de que Lula é vítima. A direita perdeu porque foi incapaz, enquanto governo, de promover transformações sociais e estruturais, e como oposição, de mostrar ao país que uma quadrilha assalta o erário. Telhado de vidro, discurso contido, ou como dizem os brasileiros mais humildes, tudo farinha do mesmo saco!

A crise do tráfego aéreo apenas desnuda o que já se sabia há tempos e passou da hora das autoridades assumirem suas responsabilidades.

Também é hora do ministro da Defesa dizer de maneira bem clara que ocupa um mandato tampão e que pouco ou nada entende sobre os temas abrigados em seu ministério.

Do presidente, o mínimo que se espera é o exemplo. Talvez lhe falte humildade para reconhecer que nem metade do povo brasileiro está de acordo com suas ações (basta ver os números do TSE em relação ao contingente eleitoral, os votos brancos, nulos e a quantidade de gente que se absteve de escolher entre dois candidatos que não representavam nada de novo).

Não pode ser o comandante-em-chefe, o primeiro a entregar aos subordinados, a solução de uma crise que é empurrada com a barriga por civis e militares.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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