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O voo do Chile

O voo do Chile

19 de dezembro de 2017
por: InfoRel
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Marcos Magalhães - 

Quem desce em Santiago, nesse final de 2017, logo se vê cercado, no caminho para a capital chilena, por um grande canteiro de obras. Ali está sendo erguido, como indicam os cartazes, o “mais tecnológico” aeroporto da América do Sul. A partir de 2020, o novo Pudahuel receberá os estrangeiros como a perfeita metáfora do projeto do Chile contemporâneo: um país moderno, conectado e aberto ao mundo.

Enquanto avançam as obras, o comandante desse país será mais uma vez Sebastián Piñera, o bilionário empresário que leva o país de volta à direita depois de quatro anos. Ele foi eleito em segundo turno, em 17 de dezembro, com 54,5% dos votos, contra 45,4% do socialista Alejandro Guillier, apoiado pela presidente Michelle Bachelet. O simbolismo da eleição atraiu a participação na reta final da campanha de dois importantes vizinhos: Mauricio Macri, presidente da Argentina, que apoiou Piñera, e o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, que coloriu o último comício de Guillier.

A vitória de Piñera pode, sim, indicar mais um passo em direção à centro-direita na América do Sul, após a eleição de Mauricio Macri, na Argentina, e de Pedro Pablo Kuczynski no Peru – ainda que este esteja ameaçado de perder o cargo após a publicação de denúncia segundo a qual teria recebido propina da brasileira Odebrecht. Mas os temas que estavam em debate nas semanas que antecederam as eleições indicam que os chilenos, mais que virar à esquerda ou à direita, querem atualizar o modelo de desenvolvimento do Chile.

Piñera acenou com mais empregos, e talvez por isso tenha ganho. A economia chilena cresceu apenas 1,6% em 2016, depois de índices quase asiáticos do início da década, como 5,8% em 2010 e 6,1% em 2011. O desemprego foi de 6,6% no ano passado, menor que cinco anos antes. Guillier, que procurou sem sucesso reunir todos os votos dados à esquerda no primeiro turno, preferiu falar de temas bem presentes no cotidiano das famílias, como as dívidas contraídas por alunos universitários para custear seus estudos e o precário sistema previdenciário do país, onde predomina a participação privada.

Bachelet tomou algumas medidas para humanizar o modelo liberal chileno. Reabriu, embora sem grande êxito, o debate sobre a adoção do ensino universitário gratuito. Anunciou novo sistema de aposentadoria, por meio do qual os empregadores aumentam suas contribuições às contas de seus trabalhadores. E aumentou os impostos dos mais ricos em uma controversa reforma tributária. Ela sai do governo, porém, com baixa popularidade, e só o tempo dirá se as reformas que implementou ajudarão a reduzir a grande desigualdade ainda presente no Chile.

Caminhar nas ruas de Santiago, como tive a oportunidade de fazer entre os dois turnos das eleições, permite identificar essa desigualdade. Embora não existam grandes favelas, como no Rio de Janeiro, coexistem ali diferentes cidades. Algumas das ruas do antigo centro são ainda muito parecidas com as ruas de capitais bem mais pobres do continente. É marcante a presença de milhares de haitianos, além de trabalhadores de outros países vizinhos. Do outro lado da cidade, ergue-se o Costanera Center, o mais alto edifício da América do Sul, símbolo orgulhoso da prosperidade chilena. Mais adiante, o novo Parque do Bicentenário emoldura uma zona residencial que poderia muito bem estar na Espanha ou em outro país europeu.

Atraído pela promessa de um bom ceviche, evitei o turístico Mercado Central, cruzei o rio Mapoche e sentei-me nas mesas quase coletivas do bem mais popular Mercado de Abastos Tirso de Molina, onde não há vinho nem cerveja, mas frutos do mar da melhor qualidade. Poucos minutos depois recebi a companhia de trabalhadores chilenos e peruanos, todos candidatos a um cargo de motorista dos novos ônibus elétricos que começarão em breve a circular em Santiago. Quando a conversa chegou ao tema das eleições, a surpresa. Eles votavam em Piñera porque o agora presidente eleito seria o único capaz de atrair novos investimentos e novos empregos para o Chile.

Embora considerável, a preocupação dos chilenos com a desigualdade e a insistente pobreza não atraiu a maioria dos votos para a esquerda. Mesmo o aumento de impostos para os mais ricos patrocinado por Bachelet causou controvérsia. Por outro lado, Piñera não teve a eleição fácil que pensara. Teve de enfrentar um segundo turno imprevisto com um candidato muito menos conhecido que ele. É verdade que a diferença de votos entre os dois no segundo turno acabou sendo maior do que a prevista. Mas, para ganhar as eleições, Piñera moveu-se um pouco em direção ao centro e à esquerda. Após o anúncio dos resultados, o novo presidente prometeu analisar propostas de Guillier e se empenhar na busca de amplos acordos políticos.

Quando as modernas instalações do novo terminal internacional de Pudahuel estiverem prontas, Piñera já terá cumprido quase todo seu segundo mandato. E será possível conferir o quanto o Chile se aproximou do objetivo de seu presidente eleito, de transformar-se no primeiro país desenvolvido da América do Sul.

Marcos Magalhães é jornalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton. E-mail: magmarcos@outlook.com

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