Os meios de comunicação: da missão de informar ao ativismo militante

Nas eleições de 2016, nos Estados Unidos, os meios de comunicação erraram
feio. Dois anos depois, em 2018, no Brasil, a tendência foi mantida e
praticamente nada do “apurado” se confirmou. Nas eleições norte-americanas
deste ano, analistas em todo mundo, novamente fracassaram em suas
previsões. Como sempre, os formadores de opinião, esquivando-se de suas
responsabilidades, culpam aos institutos de pesquisa.


No entanto, não é bem assim. Lá como cá, o que temos visto nos últimos anos
são jornalistas que confundem (?) a missão de informar com o ativismo
militante. O que publicam guardam cada vez menos relação com a realidade e situam-se muito mais no campo daquilo que desejam e de seus interesses
políticos e ideológicos.


Em relação às eleições norte-americanas, vendeu-se a ilusão de uma onda
azul em torno do candidato democrata Joe Biden, sugerindo-se que o efeito
Trump assentava-se apenas em um contexto de mentiras deslavadas e
extremismo de direita. O desempenho de Donald Trump, no entanto, mostra
que, a despeito do que a imprensa desejava, grande parte da sociedade norte-
americana se identifica com a sua visão de mundo.


Além disso, é importante observar que a maioria dos analistas políticos residem
nas grandes cidades e trabalham dentro de uma bolha que não revela os
verdadeiros anseios da população. Não há presença nos rincões mais isolados
e pouco importa o que pensam aqueles que ali vivem. A elitização das
análises, sustentadas em pesquisas igualmente centradas nas regiões mais
desenvolvidas, acabam revelando dados que não guardam relação com os
fatos. Gostem ou não de Trump, simpatizem ou não com ele, o fato é que ele
consolidou a presença conservadora e seus valores, no debate político, antes
dominado pelas correntes progressistas. Os resultados das eleições nos
Estados Unidos revelam a necessidade urgente de se repensar o papel dos
meios de comunicação e dos institutos de pesquisa. Mantida a tendência atual,
o descrédito seguirá crescendo.


A exemplo dos partidos e movimentos mais à esquerda, os meios de
comunicação também precisam fazer o mea culpa. A sociedade, lá como cá,
dispõe, hoje, de uma infinidade de ferramentas que cada vez mais suplantam
os meios de comunicação convencionais. As mídias sociais vieram para ficar e
de nada adianta espernear. Com um telefone inteligente, é possível gravar
áudios e vídeos que rapidamente viralizam. A informação transita de maneira
muito mais democrática e veloz. E não adianta tentarem impor uma pauta.


Por si só, esta realidade deveria obrigar os meios de comunicação a
repensarem o seu papel e missão de informar e formar opinião. Os meios de
comunicação são essenciais no fortalecimento da democracia e, justamente
por isso, não podem colocar seus interesses acima dos interesses maiores de
uma sociedade.


Exércitos regulares e organizações terroristas, por exemplo, já se davam conta
da importância dos meios de comunicação como elemento fundamental para
se ganhar corações e mentes. No entanto, o que se percebe são os meios de
comunicação e os profissionais da área, mais interessados em fazer-se de
vítimas de um sistema que seria autoritário.
Confundir críticas com ataques é típico daqueles que estão focados na


destruição de reputações. Há regimes que sim, atacam de forma permanente o
trabalho da imprensa, mas como se tratam de governos considerados
progressistas, suas ações são minimizadas. Portanto, não é o que se faz, mas
quem faz.


Donald Trump, de fato, gera turbulâncias ao sistema, muito mais por conta da
imprevisibiliadde de suas ações do que por sua retórica. No Brasil, percebe-se
que a retórica é considerada pelo estamento como uma ameaça muito mais
concreta ao funcionamento das instituições, que a corrupção, por exemplo, que
subverte valores, posições, compra votos, superfatura obras e desvia recursos
de áreas como saúde e educação. Os meios de comunicação devem, em
relação à confiança da sociedade, optar entre a missão de informar e o
ativismo militante.

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