Brasília, 15 de dezembro de 2018 - 19h50

Os vôos secretos e a tortura nas prisões da CIA

03 de maio de 2006
por: InfoRel
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Marcelo Rech

O presidente George W. Bush não pensa duas vezes quando o assunto é a imposição da democracia nos chamados paà­ses fracassados. Raros são aqueles que percebem nessa manobra, a imposição de um sistema polà­tico que permite aos Estados Unidos, fazer valer seus caprichos. A democracia acentuada pelos falcões nada mais é que uma ditadura disfarçada.

Os Estados Unidos estão entre os paà­ses que mais violam os direitos humanos e a soberania das nações no mundo. Recentemente, a Anistia Internacional tornou público o seu relatório em que acusa Washington de desacato à  lei internacional.

Além disso, a administração Bush viola de forma contundente os direitos dos povos, ao considerar árabes e mulçumanos como suspeitos permanentes de pertencerem à  rede terrorista Al-Qaeda e a outras organizações terroristas.

No documento intitulado "Vôos Secretos à  Tortura e ao Desaparecimento," é uma pequena demonstração de como funcionam as redes de prisões secretas mantidas pela inteligência militar da Agência Central de Inteligência (CIA) mundo afora.

Um homem preso pelos norte-americanos no Afeganistão, suspeito de pertencer a Al-Qaeda, se recusou a cooperar com os Estados Unidos e como represália, foi enviado da prisão de Guantánamo, em Cuba, para o Egito, onde teve as unhas arrancadas por torturadores da CIA.

O relatório cita também o testemunho de três cidadãos do Iêmen capturados e examinados fora desse paà­s por agentes norte-americanos. Durante 18 meses, foram sujeitados a interrogatório "resistente" e transportados de uma prisão secreta para outra.

Em conseqüência, "visitaram" Djibuti, Afeganistão e "algum lugar da Europa oriental" (que se julga pela distância dos vôos e de alguns outros detalhes, poderia ter sido Eslováquia, Romênia, Bulgária, Bósnia e Herzegovina, Albânia ou Turquia).

Depois que os investigadores compreenderam que não poderiam arrancar-lhes nenhuma informação valiosa, puseram-nos num vôo regular e enviaram-nos de volta para casa, sem que nada fosse dito. Os presos sequer foram informados das razões que os levaram a esse tour dos horrores, num exemplo de flagrante desrespeito as normas internacionais.

No entanto, esses cidadãos retornaram com vida à s suas casas, o que é uma exceção em se tratando das práticas cometidas pelos serviços secretos dos Estados Unidos, onde a maioria dos suspeitos presos foi torturada e simplesmente desapareceram, sem deixar rastro algum.

Ninguém sabe onde estão ou o que lhes aconteceu. Um cidadão alemão de origem sà­ria foi seqüestrado, segundo seus parentes, em Casablanca, no Marrocos, em outubro de 2001. Ele chegou a ser visto numa prisão subterrânea secreta na Sà­ria, mas seus vestà­gios foram perdidos.

Segundo a Anistia Internacional, já foram realizados aproximadamente mil vôos secretos da CIA, a partir de um Boeing-737 e três pela chamada "Corrente do Golfo", realizados por linhas aéreas confidenciais dos Estados Unidos.

Os principais pontos do trânsito "das prisões de vôo" são Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Portugal, e os pontos de destino: Afeganistão, Iraque, Egito, Sà­ria, Jordânia, Là­bia, Marrocos, Uzbequistão, República Tcheca e Chipre. Também foram registrados vôos para o Azerbaijão, Estônia e um que desceu em Moscou.

Apesar disso, a reação oficial da administração norte-americana e dos oficiais superiores da CIA a todas essas exposições era de silêncio absoluto ou negação, geralmente expressado na maior parte pela Secretária de Estado Condoleezza RIce.

Entretanto, parlamentares europeus e ativistas dos direitos humanos mantiveram-se escavando informações. No Parlamento Europeu, foi criada uma Comissão para investigar as denúncias e acusações, quando se encontrou o fio-da-meada.

Diante dos fatos, não restou ao diretor da Inteligência norte-americana, John Negroponte, outro caminho senão reconhecer publicamente a existência das prisões secretas da CIA. E foi além, ao afirmar que três dúzias de militantes perigosos da Al-Qaeda e outros suspeitos estavam detidos naquelas prisões.

"Estes povos estão sendo presos. E são atores maus. E enquanto esta situação continuar, a guerra do terror vai continuar. Não estou certo de poder dizer-lhes qual será a disposição final daqueles detidos", afirmou taxativo.

O chefe da espionagem dos Estados Unidos afirmou também que os serviços secretos norte-americanos consolidaram sua força "para assegurar a segurança do mundo". Negroponte mencionou que os Estados Unidos tentariam ajustar a cooperação com os serviços secretos de outros Estados, incluindo a China, como forma de diminuir as pressões sobre a administração Bush.

O que não está claro é se o diretor da Inteligência Nacional dos Estados Unidos tinha em mente a idéia de usar territórios de outros paà­ses “convenientes” para transformá-los em calabouços secretos para torturas aos "inimigos da América".

As revelações de Negroponte não representam uma surpresa para os especialistas. A maioria deles sabia que "as prisões secretas da CIA" não era fruto de fantasia dos jornalistas. Seguramente, as atividades secretas da CIA não eram realizadas sem o conhecimento e o consentimento dos demais serviços secretos dos Estados Unidos.

As últimas revelações de Negroponte provam que, para os Estados Unidos, "tudo é considerável na guerra do terrorismo internacional". Neste contexto, todas as garantias têm sido dadas à  administração de Bush, inclusive quanto à  condenação do uso da tortura, que não passou de um gesto isolado aqui e ali, marcados sobretudo, pela timidez.

Não é de se admirar que por muito tempo Washington venha sendo acusado de praticar dois pesos e duas medidas no cenário internacional, enquanto critica duramente outros paà­ses por "violações brutais aos direitos humanos", o que parece especialmente cà­nico.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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