Opinião

Conferência do Forte de Copacabana discute Seguran
18/09/2012
Cúpula Hemisférica
15/10/2012

Outra estratégia para conter o Irã?

Outra estratégia para conter o Irã?

Alexandre Reis Rodrigues

Reacendeu-se a polêmica sobre o tipo de estratégia mais adequada para levar Teerã a abandonar o programa de enriquecimento de urânio, aliás, conforme exigem várias Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O tema tem estado, mais ou menos sempre, em cima da mesa, mas foi objeto de uma iniciativa recente de Kenneth Waltz, na revista “Foreign Affairs” (“Why Iran should get the bomb”, FA, Jul/Aug 2012), defendendo ser preferível deixar Teerã prosseguir com o seu programa nuclear.

Waltz refere-se à teoria, que desenvolve há vários anos, sobre o papel que as armas nucleares têm desempenhado para ajudar a manter a estabilidade no mundo, considerando que, ao contrário da corrente de opinião prevalecente, um Irã nuclear trará para o Médio Oriente mais estabilidade do que a que existe presentemente.

Waltz não acredita que o atual programa de sanções, em que, no essencial, assenta a estratégia dos EUA e da União Europeia, venha a produzir qualquer resultado útil e avalia os riscos de uma eventual intervenção potencialmente muito mais desastrosos do que permitir a Teerã o estatuto de potência nuclear.

Não é provável, no entanto, que os EUA alterem a política adotada. As razões não são apenas as circunstanciais que decorrem do calendário eleitoral nos EUA. Têm a ver também com a falta de alternativas porque, de fato, uma intervenção militar é uma hipótese que apenas Israel se mostra disposto a encarar. Nestas circunstâncias, o consenso vai para a continuação das negociações mesmo com reduzidas, ou até sem, perspectivas de progresso. Seria perigoso não as fazer, cortando o diálogo que apesar de tudo tem sido mantido.

Na sequência de uma recente visita a Israel, o secretário da Defesa americano, Leon Panetta, diz que Israel não tomou qualquer decisão em relação Irã, mas o ministro da Defesa de Israel diz que é tempo de as potências ocidentais se decidirem a atuar («There is still no decision; we understand the gravity of the situation; we understand that we do not have all the time in the world to decide ….).

Para Tel Aviv, Teerã, continuando a enriquecer urânio a 20%, em breve terá material suficiente para ser rapidamente enriquecido até ao nível necessário para ter uma bomba. Esta será a linha vermelha que Israel não deixará atingir, porque, a partir daí, o Irã ficaria numa espécie de “imunidade” (mesmo sendo atacado ficará com urânio suficiente para construir a bomba).

A menos que Israel tome a iniciativa de intervir, nos termos atrás indicados, com ou sem a concordância de Washington, não é provável que o Ocidente se decida por esse caminho – Teerã sabe-o bem – mas também não é de esperar que o consenso evolua no sentido preconizado por Waltz. Isto é, vamos continuar numa espécie de impasse que, a prazo, acaba por servir os interesses estratégicos do Irã, porque este não vai ceder enquanto o Ocidente se limitar a sanções e diplomacia.

Não é obviamente apenas o programa nuclear iraniano que está em causa; é o que lhe está subjacente, isto é, as aspirações de hegemonia regional, o desejo de Teerã em ver os EUA afastados do Médio Oriente e a percepção de incompatibilidade entre o atual regime iraniano e o dos seus vizinhos, permanentes e temporários (em especial, os EUA).

É neste contexto que importa, em qualquer caso, ponderar os argumentos de Waltz e os de Collin H. Khal (anterior “assistant secretary of Defense for the Middle East”) que veio tentar rebater a tese do primeiro. É o que procuraremos ver seguidamente, de forma breve.

Existem duas divergências principais: uma sobre o papel que as armas nucleares desempenharam no passado na manutenção da estabilidade mundial e a outra sobre a impunidade e liberdade de ação que a sua posse gera para o prosseguimento das agendas próprias das potências nucleares.

Durante a Guerra Fria, os arsenais nucleares evitaram uma confrontação entre as duas superpotências, mas não impediram vários conflitos em todo o mundo (Coréia, Vietnã, Afeganistão, Guatemala, El Salvador, Angola, etc.), argumenta Collin Khal. Waltz concorda, mas chama a atenção para a menor importância desses conflitos quando comparada com o fato de apesar de tudo terem-se evitado confrontos entre as grandes potências, que, a terem acontecido, teriam tido proporções dificilmente imagináveis.

No caso concreto do Paquistão, que Collin evoca como exemplo de um país que incrementou o nível de conflitualidade com a Índia, a partir do momento em que se tornou potência nuclear, Waltz concorda que essa circunstância pode ter encorajado a lançar-se na chamada “Kargil War”, mas lembra que esse confronto foi o último de uma série de quatro, sendo que os anteriores, quando o Paquistão ainda não era potência nuclear, foram bastante mais violentos. Aliás, acrescenta, a “Kargil War” é dificilmente classificável como guerra (não teve mais de 1000 baixas).

Por outras palavras, a posse de armas nucleares moderou a postura das partes.

Waltz também contesta o exemplo da guerra da Coréia, que Collin usa como comprovativo de que afinal a posse de armas nucleares pelos EUA e URSS não impediu o Kremlin de dar luz verde à invasão. Waltz faz uma leitura diferente da situação então existente, considerando que a base em que Moscou formulou a sua decisão assentou no fato de os EUA, na divulgação da sua estratégia para a região, tornada pública pouco antes, não terem identificado qualquer compromisso com a segurança da Coréia. A URSS, concluiu na falta de uma referência explícita na estratégia americana, que os EUA não interviriam em apoio da Coréia.

Collin adianta que nada nos diz que uma potência nuclear se tornará um ator internacional mais responsável; pelo contrário, sentindo-se protegido pela posse de um arsenal nuclear, pode tornar-se-á mais agressivo a níveis mais baixos de conflito. Pode, mais facilmente, passar a usar os seus “proxis” para impor uma agenda agressiva, promover a sua ideologia e aspirações de liderança. Waltz não concorda; argumenta com o caso do Paquistão/Índia, lembrando como a posse de armas nucleares acabou por impor limites nas opções de retaliação da Índia, não permitindo o agravamento do conflito.

Um jornal iraniano lançou, recentemente, a ideia de que os EUA teriam sugerido uma linha vermelha para gerir situações difíceis no estreito de Ormuz. É um expediente que foi usado durante a Guerra Fria, entre os EUA e a URSS, quando os seus arsenais nucleares atingiram uma posição de paridade e se receava que um erro de interpretação de uma das partes pudesse lançar o mundo numa catástrofe.

No atual contexto, poderia ajudar a gerir o risco de eventuais precipitações, porque, de fato, perante a iminência de uma ação militar nenhum dos lados se pode dar ao luxo de esperar, arriscando ficar com as mãos atadas.

No entanto, o mais provável é que essa notícia não seja mais do que uma manobra iraniana de guerra psicológica, que Israel, aliás, tem também usado frequentemente para passar a ideia de que está pronto a intervir.

Combinando referências que têm vindo a público sobre os preparativos de uma operação (“Operation Cascade”), dizia, há dias, Ephraim Halevy, chefe da Mossad israelita: «If he were Iranian he would be very fearful of the next 12 weeks».

No entanto, regra geral, neste tipo de situações, quanto maiores forem os rumores menores serão as probabilidades de se vir a verificar um ataque. Qualquer que seja o lado que tome a iniciativa procurará sempre obter a surpresa total.

Alexandre Reis Rodrigues é vice-almirante reformado da Marinha de Portugal e Secretário-Geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Foi vice-chefe do Estado-Maior da Armada e é membro do Conselho Consultivo da Revista RI – Relações Internacionais; do Conselho Editorial da Revista Segurança e Defesa, membro do Conselho Geral do IEEI e do Conselho Científico do Centro de Investigação de Segurança e Defesa do IESM. E-mail: reisrodrigues@netcabo.pt

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *