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Para onde vai a China?

Para onde vai a China?

11 de junho de 2020 - 21:05:03
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Paulo Roberto da Silva gomes Filho

A China não sai das manchetes dos jornais. Se o gigante asiático já estava presente em todas as conversas sobre relações internacionais, comércio ou geopolítica, a Covid-19 multiplicou o interesse de todos sobre aquele país. Afinal, quem decifrar as intenções do dragão chinês, percebendo também suas fortalezas e debilidades, certamente estará em melhores condições de compreender o atual momento do tabuleiro geopolítico global.

Semana passada, no artigo “O impulso Estratégico Chinês”, procurei mostrar que a China passou a atuar com mais intensidade na busca dos seus objetivos estratégicos. Neste texto, o foco será um personagem fundamental nessa jornada: o presidente Xi Jinping.

Para entender para onde vai a China é necessário prestar atenção no seu presidente. Xi Jinping se apresenta à população como aquele que deseja levar o país a alcançar o chamado “sonho chinês”: “transformar a China em país socialista moderno, próspero, forte, democrático, culturalmente avançado e harmonioso, em 2049, ano do centenário da República Popular da China”.

Aparentemente, Xi planeja estar no poder em boa parte desse caminho. Em 2018, ele conseguiu que a Constituição fosse modificada, ficando abolida a restrição à permanência do presidente por mais de 2 mandatos. Essa modificação é importante também em razão do estilo de liderança de Jinping. Até a presidência de Hu Jintao, seu antecessor, havia uma espécie de presidência colegiada, representada pelos 9 membros do Comitê Permanente do Partido Comunista Chinês. Uma certa dose de consenso e alguma visão discordante era admitida. Isso mudou sob Xi Jinping. Adversários políticos foram retirados de cena, muitos acusados de corrupção. A censura se intensificou, na imprensa, nas mídias sociais e nas manifestações culturais. Um crescente nacionalismo é estimulado, misturado a uma retórica de valorização dos ideais do Partido Comunista.

No governo de Xi Jinping, o controle social se intensificou, especialmente nas 2 regiões atualmente consideradas críticas pelo regime: A primeira é Xinjiang, a província da minoria islâmica uigur, em que movimentos separatistas são acusados de terrorismo e onde se ergueram os chamados “campos de reeducação”, nos quais milhares estão presos.

A segunda é Hong Kong, onde, nos últimos anos, o governo tem enfrentado uma série de protestos pela manutenção das liberdades democráticas que existem na antiga colônia britânica. E, agora, justamente quando protestos nas ruas são proibitivos em razão da distância social imposta pela pandemia, o governo adota de uma “Lei de Segurança Nacional” que efetiva a restrição às liberdades dos habitantes de Hong Kong.  Na prática, é o fim da política chamada “Um país, dois sistemas”, que garantia liberdades individuais em Hong Kong que inexistem na China continental. Pode-se esperar uma grande insatisfação social em Hong Kong. A ação governamental em resposta mostrará para todo o país e para o exterior qual é a disposição do governo para lidar com o dissenso.

Mas a insatisfação popular na China poderá ter outras origens, que não somente os habitantes de Hong Kong. A pandemia da Covid-19 mostrou – até de forma surpreendente para um país acostumado a lidar com epidemias – a ineficiência do governo. As autoridades de Wuhan bateram cabeça no início da crise, escondendo os fatos, retardando o início do enfrentamento e perdendo um tempo precioso. A morte pela Covid-19 do médico Li Wenliang, que em dezembro do ano passado havia alertado os governantes sobre a epidemia, tendo sido em seguida obrigado pelas autoridades a assinar um documento reconhecendo que suas informações eram “falsas e ilegais”, repercutiu muito negativamente entre os chineses.

A economia também causa preocupações ao governo de Xi Jinping. A desaceleração econômica que já vinha ocorrendo por razões estruturais, se intensificou em razão da pandemia. O desemprego aumentou e uma massa de jovens com boa formação poderá ter dificuldades em manter os níveis de vida conquistados nos últimos anos por seus pais. A isso se some o rápido envelhecimento da população, que aumenta sensivelmente a pressão sobre os sistemas previdenciário e de saúde.

Há ainda a questão de Taiwan. A crescente assertividade chinesa, com a presença militar cada vez mais frequente de seus navios de guerra e aeronaves no Estreito de Taiwan é um recado para os taiwaneses e para a comunidade internacional de que a China não desiste de recuperar a soberania sobre a ilha. Por outro lado, mostrar-se altivo em relação a Taiwan acendra o espírito nacionalista, unindo a vontade popular em torno de um objetivo facilmente entendido como legítimo: o da reunificação nacional.

Ainda no campo internacional, começam a surgir dúvidas se o país terá condições econômicas de manter sua expansão geoestratégica em direção aos vizinhos no sudeste e centro asiáticos, além da África e Europa, especialmente pelo programa “One Belt, One Road”, de investimentos em infraestrutura, no valor de cerca de US$ 1 trilhão.

Como se vê, a China tem imensos desafios a enfrentar, tanto no campo interno quanto no campo externo. E Xi Jinping desempenha papel preponderante. Sua personalidade, suas crenças, sua capacidade de liderar o país na superação dos crescentes desafios e sua habilidade em se manter no poder definirão os rumos, o ritmo e a agressividade que a China imprimirá na perseguição de seus objetivos estratégicos.

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho é Coronel de Cavalaria do Exército. E-mail paulofilho.gomes@eb.mil.br.