Crise Política
12/08/2005
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12/08/2005

Política

Para senador, presidente deve desculpas aos brasileiros

Ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação, o senador Cristovam Buarque acredita que o presidente Lula ainda não digeriu o tamanho da crise política enfrentada pelo seu governo e apela para que ele vá à TV em rede nacional e peça desculpas ao país por não saber dos esquemas montados dentro do Palácio e no PT.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado, Buarque atua como parlamentar independente e tem sido um dos mais ácidos críticos do governo, desde que foi demitido por telefone. Nesta entrevista exclusiva ao InfoRel, ele afirma que Lula não é culpado, “mas responsável” por tudo que está acontecendo. Acompanhe:

Senador, diante de todos os episódios de corrupção que a imprensa tem divulgado e as CPIs têm revelado, como fica a imagem externa do Brasil? O senhor diria que já está comprometida, uma vez que a Política Externa sempre foi uma prioridade deste governo?

Muito comprometida. Eu acabo de voltar de voltar de uma viagem à França e a palavra que eu mais ouvi foi decepção. Entre parlamentares, franceses, intelectuais. Hoje há um sentimento profundo de frustração com o governo. Mas eu acho que a causa principal não é a ética. A causa principal é programática. É falta de medidas transformadoras.

A ética despertou apenas. Se a gente tivesse com esse problema ético, mas o governo avançando com mudanças, a ética ficava restrita àqueles que foram responsáveis. Ninguém iria generalizar para o governo. A generalização para o governo é pela debilidade do governo mostrar sua diferença em relação aos governos anteriores.

A fragilidade do governo em mostrar que está executando projetos. Nós não sabemos qual a marca do Lula. Coisa que eu sempre falei, até com você. Nós não definimos qual o legado que o Lula vai deixar. Ele não está construindo um legado. Isso que fez com que a crise ética tomasse essas proporções.

Até que ponto os projetos de integração sul-americana, que sempre foram a menina dos olhos do presidente, sofrerão abalos por conta da crise política?

Tudo perde força nesse momento até se acalmar O problema é que aconteceu num momento dramático quando o governo está no último ano completo dele. O próximo ano já é ano de eleições. Eu estive analisando a execução do orçamento, algo que acompanho permanentemente, e vejo que os ministérios pararam.

Não há gastos nos ministérios de investimentos de programas por que parou tudo. Inclusive esta outra parte que você fala que é de construir um sistema integrado. Agora mesmo estou organizando encontros de parlamentares aqui e me perguntam se devem vir ou não. Se vai haver clima para debates. Eles perguntam: vai haver clima para debates? Não é melhor adiar para o próximo ano?

A imagem do presidente está arranhada junto à comunidade internacional. Os grandes líderes mundiais estão preocupados e também os presidentes dos países vizinhos, muitos, amigos do presidente Lula. O senhor concorda?

Concordo. Ele está numa situação desconfortável totalmente. Mas eu volto a insistir, não é só, nem sobretudo por causa desta questão ética. A questão ética não chegou nele ainda.

Até por que ele não mostrou a que veio. Não apresentou programas transformadores que nos diferenciasse dos outros. Essa é a verdadeira e principal causa desse desgaste que ele vem sofrendo.

Sempre se fala que o Brasil é o carro-chefe da América do Sul. Aquilo que dá certo no Brasil pode ter um efeito dominó nos países vizinhos. Havia uma esperança muito grande da esquerda latino-americana em relação ao governo brasileiro. No entanto, o senhor afirma que o governo não mostrou a que veio, não fez transformações. Essa frustração também pode transpor as fronteiras?

Eu não acredito nisso que o Brasil é carro-chefe dos outros países. Isso para mim é arrogância dos brasileiros. Tem grandes programas que vieram de fora também. Muitos países que estão indo num rumo, antes do Brasil.

O Chile vai bem. A Argentina que todo mundo achava que estava destruída está se recuperando plenamente. A Colômbia, com toda a crise está investindo mais em educação de uma maneira mais sistemática. O México é um país que dificilmente nós vamos alcançar. Dificilmente.

Do jeito que a gente já perdeu completamente o bonde para Coréia do Sul, Malásia, Cingapura, Índia, China. Hoje provavelmente nós perdemos para o México e a Turquia, por exemplo. É uma arrogância do brasileiro achar que nós somos o carro-chefe. Esses países não olham para nós como modelo, é óbvio que eles olham como país grande.

Os últimos discursos mais inflamados do presidente começam a suscitar preocupações. Ele poderia adotar uma linha populista capaz de comprometer a credibilidade do governo e do Brasil. O senhor teme que o presidente Lula se torne um populista?

O presidente Lula até hoje não deu nenhuma demonstração de que vai mudar o rumo da seriedade como administra as finanças. O discurso que ele vem fazendo pode até ser chamado de populista na forma, mas eu não vejo nenhuma indicação, nada que sugira irresponsabilidade. Ele continua me parecendo um presidente bastante responsável nas finanças públicas.

Quando se fala em populismo, a referência é o presidente da Venezuela Hugo Chávez. Até que ponto é negativo comparar Lula com Chávez?

Não dá para comparar. Nós não temos petróleo e nossa dimensão é outra. Não dá para comparar. Agora, o Chávez não está com este prestígio só por causa desse discurso populista não.

O Chávez tem um programa de erradicação do analfabetismo que vai fazer com que, em pouco tempo, a Venezuela seja um país sem analfabetos. Em muito pouco tempo, um ano ou dois anos. Alguns dizem que eles já chegaram a este ponto.

Quando digo não ter analfabetos, é ter entre três e quatro por cento. Permitido ter de analfabetos. A Venezuela tem programas sociais extremamente fortes. Tem programas culturais.

O Chávez é um presidente que se aproximou do povo não só pelo discurso, mas pela ação também, que é o que está faltando no Brasil.

Como presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, como o senhor avalia a pretensão brasileira por um assento no Conselho de Segurança da ONU? Ainda é possível pensar nesse projeto diante da crise?

Eu acho que dificilmente a gente vai conseguir, mas não por causa disso. Esse ponto aí não muda de uma hora para outra. Esses países quando decidem, para mudar de posição levam muito tempo. Então não foram estes fatos é que estão diminuindo.

O que está diminuindo é a resistência da China, a indefinição dos Estados Unidos e de muitos outros países que não abrem mão de exercer o poder de veto. E ao mesmo tempo, uma certa desconfiança dos outros países.

Por que eles perguntam: se eu sou contra o Conselho de Segurança não democrático que tem número restrito, o que vai mudar com mais quatro? A verdade é que mais cadeiras no Conselho de Segurança, que é muito bom para o Brasil, não representa uma democratização.

A democratização era acabar membros permanentes no Conselho de Segurança. Seriam eleitos, por períodos. Poderia até se permitir a reeleição desses membros.

Então, há uma desconfiança dos que não estão, dos pequenos, que não vêem grandes vantagens, há uma desconfiança dos grandes porque vêem ameaça. Isso foi o que fez com que ficasse difícil esta mudança.

O senhor acredita que o presidente Lula não sabia do que estava acontecendo dentro do Palácio do Planalto? Dá para acreditar que ele desconhecia tudo que ocorria no seu governo e no Partido dos Trabalhadores?

Eu não posso saber se ele sabia ou não. Agora eu acho que está demorando o presidente ir para a televisão olhar no olho do povo e dizer: eu não sabia. Ele não fez isso ainda.

E ao mesmo tempo ele dizer: eu peço mil descu

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