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20/09/2005

Crise Política

Por que o PT e o governo não assumem suas responsabilidades?

Marcelo Rech

Neste domingo, o Partido dos Trabalhadores realizou o segundo processo de eleições diretas para renovar a Executiva Nacional e os diretórios estaduais e municipais. Cerca de 40% dos mais de 800 mil filiados compareceram e deixaram claro que o Campo Majoritário não pode mais mandar sozinho no partido. As decisões precisam ser democratizadas.

Até aí, nenhuma novidade. O PT nunca foi um partido unido, pelo contrário. Nasceu cheios de tendências e dividido entre moderados e radicais. No poder desde 2003, o Partido dos Trabalhadores nunca se comportou como situação e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu ignorar estas eleições para descolar seu governo da sigla.

Para piorar, o PT lança uma nota onde acusa as elites e a imprensa pelo que chama de “onda de denuncismo”. De fato, a oposição tem surfado na crise que nasceu, foi gerada e se mantém dentro do PT e do governo. Os oportunistas ocupam o vácuo que somente a intransigência interna do partido majoritário e do governo Lula permitem.

Daí a acusar a imprensa e as elites, chega a ser risível. O que o Partido dos Trabalhadores deveria fazer, num gesto de grandeza era pedir perdão ao país, não apenas aos 52 milhões de eleitores de Lula, mas ao Brasil inteiro que jamais imaginou ver o crime organizado instalado no Planalto e dentro de um dos partidos mais importantes para a democracia latino-americana.

Arrogantes como sempre e com a empáfia de quem não tem nada com as denúncias levantadas e comprovadas até o momento, petistas como o ex-ministro da Educação, Tarso Genro, implodido por José Dirceu do comando partidário, preferiu repetir Mauro Marcelo de Lima e Silva, que dirigindo a Agência Brasileira de Inteligência [Abin], acusou os parlamentares da CPMI dos Correios de bastas-feras e as CPIs de “picadeiro”.

Esquece Tarso Genro que ele foi escolhido para fazer a faxina interna no partido, que mantém Delúbio Soares com motorista particular, carro blindado e todos os privilégios da época de tesoureiro. Esquece ele, que ninguém foi punido no PT, embora a militância exija mudanças e punições exemplares. Essa mesma militância também quer saber por que o presidente se disse traído, mas não deu nomes até agora?

Lula deve um pedido explícito de perdão ao país, pois não convence com essa história de que nada sabia. De repente, ninguém sabia de nada. José Dirceu não sabia; Genoino assina empréstimos e contratos e não sabia; Gushiken, o responsável pela publicidade governamental, não sabia; Sílvio Pereira, que aceitou um Land Rover como um agradinho, não sabia; Então, o que faz o presidente, responsável pelo governo e linha dura com o PT?

Se é verdade que nunca se apurou tanto a corrupção no país, é igualmente verdadeiro que nunca se mentiu tanto. Nunca fomos obrigados a ouvir tantas versões, tanta falsidade. Pessoas que posavam como os donos da verdade, são chantageados por Marcos Valério, Severino Cavalcanti, empresários; escondem-se da população e evitam a imprensa. A mesma que foi útil quando estavam na oposição e tudo era motivo para cassação ou impeachment.

No poder, a corrupção se tornou algo relativo. Não há preconceito contra o presidente operário, mas contra o presidente incompetente que não sabe que rumo tomar na vida depois de deslumbrar-se com o poder. O presidente refém de um baixo-clero que pilha o Congresso e uma elite que manipula o governo, atraída pelo clientelismo instalado no Planalto.

Antes de acusar, o PT deveria curvar-se diante dos fatos e ter a nobreza para assumir suas responsabilidades. Até agora, ninguém veio a público para dizer que o partido e o governo erraram. Apenas aqueles que foram expurgados de lá, tiveram a coragem para dizer que o presidente é preguiçoso e incapaz de governar.

Até José Alencar já vê a possibilidade de concorrer contra o presidente, o que seria tão esdrúxulo quanto a falência petista diante da vergonhosa crise que criou.

Como pode haver preconceito com um governo que nunca deu tanto lucro aos banqueiros? Se alguém tem lucrado neste país é a elite que sempre mandou e desmandou. O presidente Lula esqueceu aqueles que o elegeram, sua própria história e resiste a acreditar que pode ter um fim semelhante ao de Severino Cavalcanti, que durou exatos sete meses.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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