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Por uma política de solidariedade e humanismo em tempos de pandemia

Por uma política de solidariedade e humanismo em tempos de pandemia

28 de maio de 2020 - 08:00
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Marcelo Rech

O mundo enfrenta uma situação epidemiológica difícil, especialmente para a maioria dos países que não possuem condições econômicas e estruturais para combater o Covid-19 ou prestar assistência. Nos cinco continentes, temos exemplos bem sucedidos de enfrentamento e modelos fracassados. Seguramente, o mundo terá que tirar muitas lições da pandemia.

Ao analisarmos a situação nos países não centrais, aqueles que não almejam tornar-se líderes internacionais, temos, na América Latina, um exemplo importante, capaz de ilustrar o quanto a política torna o coronavirus mais letal. Cuba, o país que já foi modelo de saúde pública, acaba de prestar ajuda à cidadãos britânicos que se encontravam numa situação bem complicada.

Na segunda quinzena de março, o navio de cruzeiro BRAEMAR com mais de mil passageiros a bordo, a grande maioria, britânicos, chegou à costa cubana. O objetivo, infelizmente, não era proporcionar que seus passageiros apreciassem as belezas naturais daquele país, mas pedir socorro por conta das suspeitas da presença do Covid-19 entre passageiros e tripulantes.

Pelos menos 25 passageiros e 27 membros da tripulação apresentaram sintomas característicos do coronavirus. Antes, o navio permaneceu navegando por cerca de uma semana, sem poder atracar em nenhum porto da região. Neste caso, o medo da propagação do vírus foi maior que a solidariedade.

Com o objetivo de evitar uma tragédia, as autoridades britânicas solicitaram ao governo cubano que autorizasse e o navio pudesse atracar no Porto de Mariel, próximo de Havana. A operação permitiu, ainda, que os passageiros fossem transferidos para o Aeroporto Internacional José Martí, onde os aguardavam quatro voos que os transportaram de volta a Londres.

A operação de evacuação foi realizada em conformidade com todas as normas de segurança previstas nesses casos. Foram adotadas todas as medidas para um translado seguro, hospitaleiro e rápido dos passageiros e tripulantes da embarcação. As diferenças políticas e ideológicas entre Cuba e Reino Unido, foram esquecidas em favor de uma gestão humanitária.

Note-se que nenhum país da chamada Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth) no Caribe, concordou em autorizar o atracamento do navio, nem mesmo em colocar em quarentena os cidadãos britânicos. O governo dos Estados Unidos, talvez o principal aliado do Reino Unido em tantos combates, também se negou a ajudar.

Este é apenas um exemplo de como divergências políticas podem ser isoladas pelo bem comum. Ainda estamos longe de saber como será o novo normal, mas é fato que a solidariedade é fundamental para que a pandemia seja derrotada. A humanidade espera que os seus líderes sejam capazes de prover assistência mútua, pois somente esforços comuns ajudarão a derrotar um vírus tão terrível.

O governo brasileiro, por exemplo, poderia liderar os esforços regionais não apenas em busca de uma vacina, mas também por ações capazes de minimizar os efeitos da pandemia. Não podemos seguir literalmente a cartilha desenhada em Washington.

Uma relação estratégica com os Estados Unidos não pode afastar o Brasil do seu entorno geográfico e de sua vocação latino-americana. O caso do navio de cruzeiro britânico prova que os Estados Unidos defendem apenas os seus próprios interesses nacionais.

O Brasil possui uma história de solidariedade internacional que não atende a ideologias passageiras. Que chegou a ser maculada recentemente, mas que pode ser reconstruída a partir de laços pragmáticos com parceiros tradicionais da região como Cuba, inclusive na luta global contra o coronavirus.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência e o Impacto dos Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.