Opinião

Política Interna
23/05/2005
Comércio Exterior
23/05/2005

Eleições 2006

Quando questões internas influenciam a Política Externa

Marcelo Rech

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desdenhou qualquer possibilidade de se criar uma CPI dos Correios. Disse que tinha coisas mais importantes para fazer do que preocupar-se com as famosas ‘intrigas da oposição’. A oposição faz a sua parte e cresce em meio as crises que envolvem, direta ou indiretamente, o governo.

Antes de partir para o Oriente, Lula pediu que o ministério da Justiça priorizasse as investigações sobre os casos de corrupção que acabam enlameando o governo. Deixou claro que não devem ser poupados partidos ou pessoas. Tentou consertar o equívoco cometido há uma semana, quando pôs a mão no fogo pelo ‘parceiro’ Roberto Jefferson.

Também retirou da comitiva à Coréia e Japão, ministros políticos como Eunício Oliveira, Eduardo Campos e Paulo Bernardo, para que trabalhem na operação abafa, sensibilizando correligionários a retirarem assinaturas do pedido de CPI dos Correios.

Por sorte, o PT é um partido que reúne muitos nomes ilustres e éticos, para quem o poder pelo poder não vale a pena. Esse grupo defende a investigação e acredita que o partido tem um compromisso histórico com o combate a corrupção. Não aceitam a operação abafa e criticam abertamente a estratégia adotada pelo Planalto.

Para piorar, o Partido dos Trabalhadores já mostra rachaduras importantes. Nas eleições de setembro, José Genoino terá seis adversários, todos descontentes com os rumos do partido e do governo. Nomes como o de Plínio de Arruda Sampaio, por exemplo, que não podem ser ignorados, estão na disputa.

Genoino concorre pelo Campo Majoritário, tem o apoio do Planalto e do ministro da Casa Civil, José Dirceu. Seu trabalho vem sendo contestado desde a expulsão da senadora Heloísa Helena e dos deputados Babá, Luciana Genro e João Fontes. Ele não discorda do modelo econômico e político adotado pelo governo e quer o partido unido em torno do projeto de reeleição de Lula.

A deputada Maria do Rosário, que foi candidata à vice-prefeita em Porto Alegre, no ano passado, é do Movimento PT. Ela quer mais diálogo entre as correntes petistas e um provável segundo mandato de Lula, voltado para mudanças profundas.

Plínio de Arruda Sampaio, ex-deputado federal e um dos intelectuais que ajudaram a planejar a proposta de governo do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, concorre pela Ação Popular Socialista. Ele quer uma auditoria da dívida externa, redução dos juros e a mudança da equipe econômica.

Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre e derrotado em 2004, concorre pela Democracia Socialista. Ele defende maior autonomia do partido em relação ao governo e quer o controle de preços para remédios, alimentos e serviços públicos.

Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, quer a coordenação política do governo nas mãos do PT e a quebra da hegemonia do capital financeiro. Num governo de coalizão, defende que o Partido dos Trabalhadores fique à esquerda dos demais partidos.

Markus Sokol da corrente O Trabalho, prega o calote da dívida externa, fim do superávit primário e a extinção da Lei de Responsabilidade Fiscal. Também quer o PT longe de alianças com o PP, PMDB, PL e PTB.

Enquanto o PT briga internamente, a oposição ganha fôlego e articula-se para entrar na disputa de 2006 para ganhar. Fernando Henrique à frente, a oposição ainda conta com petistas ilustres que não poupam o governo, como Cristovam Buarque.

Está claro que PSDB e PFL não são exemplos para ninguém. Durante os oito anos do governo tucano, várias foram as suspeitas de corrupção. O ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros caiu por suspeitas na privatização das Telecomunicações.

Até hoje, pairam dúvidas sobre a aprovação da emenda da reeleição, quando alguns deputados foram flagrados em gravações, admitindo terem recebidos R$ 200 mil para votar com o governo.

No entanto, os oposicionistas parecem mais equilibrados neste momento. Há dois anos, a oposição não acreditava que poderia impedir a reeleição de Lula. Estudava um nome capaz de ganhar projeção nacional em 2006 e disputar a presidência em 2010 para ganhar.

Enquanto os dois lados batem boca, a comunidade internacional, sobretudo os investidores que acreditam em projetos como das PPPs, acompanham tudo à distância. Não seria demais, imaginar que grandes recursos antes destinados ao país, possam ser desviados ou retidos estrategicamente até que as coisas fiquem mais claras.

Não há como negar que as questões internas influenciam na Política Externa. Seja para o bem ou para o mal. Por isso, seria bom que os políticos não perdessem a racionalidade na hora de defenderem suas bandeiras,afinal de contas, há um país por trás dessa discussão, que não pode sucumbir por questiúnculas muitas vezes, bastante egoístas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *