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Quebra de confiança

Quebra de confiança

Marcelo Rech

A semana foi marcada pela filtração de mais de 250 mil mensagens diplomáticas produzidas por funcionários norte-americanos em todo o mundo.

A despeito do debate acerca do comportamento ético da organização que os vazou e de tudo o que já se disse a respeito, fica uma lição: houve quebra de confiança em relação aos Estados Unidos.

Reunir informações acerca do país onde servem os diplomatas é inerente à função, está na essência da representação estrangeira. Não há nada de errado nisso.

Nem tudo que agora é taxado de espionagem, o é.

A quase totalidade das informações que se tornaram públicas, foram colhidas em eventos abertos, em almoços, jantares e cerimônias típicas do meio diplomático.

Nesses eventos, trocam-se cartões, impressões, opiniões.

Quanto mais sabemos a respeito dos Estados e daqueles que são os responsáveis por ele, melhor poderá ser o relacionamento.

A informação de qualidade permite que políticas sejam costuradas, crises evitadas e conflitos forjados.

O problema está na forma como nos referimos ao contexto destas relações, aos termos que empregamos àqueles que nos servem de fontes, deliberada ou inadvertidamente, e o que fazemos com essa informação.

Ao permitir que 250 telegramas diplomáticos pudessem ser vazados, os Estados Unidos desnudaram não apenas as suas relações, mas como os demais se vêem, se tratam, se consideram.

Não há mal nenhum em que um determinado presidente tenha uma opinião desabonadora sobre outros líderes. É da natureza humano-política.

Agora, quando um terceiro informa o seu governo o que A pensa de B, além de perder a confiança de ambos, os coloca numa tremenda saia justa.

Um exemplo: numa das mensagens filtradas, o então embaixador norte-americano Clifford Sobel tece comentários acerca dos problemas provocados pelo presidente Hugo Chávez segundo a ótica norte-americana.

Seu interlocutor, o general Jorge Armando Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, com a cabeça, sinaliza concordar.

Eles almoçam. O gesto é natural.

Num telegrama diplomática, ganha outros contornos.

O embaixador Sobel não relata ao Departamento de Estado que o general, em reunião privada, expôs dados e informações que justificam a preocupação brasileira com a forma como Chávez se comporta.

O que efetivamente ganha importância não é o que ele não disse, mas o que o diplomata supõe ter entendido.

É complicado explicá-lo.

Desde que os documentos começaram a ser replicados na imprensa mundial, mais e mais gente de diferentes escalões do governo, das Forças Armadas e do Congresso, têm perdido o sono.

Sentem-se traídos.

Disseram em confiança, muitas coisas a respeito de colegas, chefes, subordinados, aliados, financiadores, financiados.

É inaceitável que os Estados Unidos não consigam garantir àqueles que direta ou indiretamente, lhes ajudam a compreender os movimentos do mundo, ainda que o óbvio passe diante de seus olhos sem que percebam.

A quebra de confiança impedirá que a diplomacia norte-americana colete informação de qualidade ante o emaranhado de mentiras plantadas todos os dias.

O sentimento daqueles que se viram abandonados à própria sorte não poderia ser mais amargo.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e Contra-insurgência. E-mail: inforel@inforel.org.

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