Opinião

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Reflexões sobre a Guerra ao Terrorismo após os cin

Reflexões sobre a Guerra ao Terrorismo após os cinco anos do 11 de Setembro

Reginaldo Reis

Passados cinco anos das ações terroristas em duas localidades extremamente representativas do poder norte-americano a névoa da perplexidade ainda não se dissipou. O que contribui para tal situação?

Às nossas memórias dos trágicos eventos de 11 de setembro de 2001, foram acrescidas outras visões de dor, lágrimas de outros atos terroristas injustificáveis em vários lugares do nosso planeta.

Cita-se apenas para registro alguns deles: a morte das crianças em sua volta às aulas na Chechênia; o atentado no metrô de Londres; a ação em Madrid; os jovens mortos na discoteca nas Filipinas; a China e o antigo Turquestão do Leste. Muitos outros podem ser adicionados. O rol quase não tem fim.

Afinal que lições são tiradas para a barbárie manifestada por tais tipos de ações? Elas são de forma rápida e com elevado grau de surpresa. Assim é o terrorismo. Mas o que fica dos efeitos que se espalham das ações cometidas?

A reflexão leva a que se retorne a um ponto de partida histórico, o qual desafia o homem tanto como ser individual ou integrado a uma coletividade? O que é terrorismo?

A confusão para o estabelecimento de um marco teórico para o assunto é a única coisa clara e evidente que se conhece. Como é possível declarar “Guerra ao Terror”, se não há uma completa definição consensual que mostre claramente o que se está enfrentando?

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 foram marcantes e chocantes, merecedores de todo o repúdio por parte de qualquer indivíduo ou sociedade que se considere professadora de virtudes éticas e morais. O século XXI já está marcado indelevelmente pelos desafios desse tipo de ação.

O grau das limitações e dificuldades que se tem para definir terrorismo é imenso. Em 2005, sob os auspícios da ONU, um grupo de expertos reuniu-se em Madrid para debater o tema e com a esperança de avançar no entendimento conceitual do problema.

O resultado foi frustrante. Apenas concluiu-se que o velho dilema permanece diante de nós. Propuseram criar um grupo de trabalho para encontrar uma definição.

Na realidade, entre outros aspectos que contribuem para a indefinição, não se pode deixar de que alguns países que hoje têm assento na ONU, valeram-se de atos terroristas para justificar as suas lutas desiguais em busca da libertação do jugo colonial.
Por outro lado, pode-se acrescer um certo ar de romantismo que tais tipos de conflitos desencadeiam como a dar “legitimidade” aos atos heróicos dos “libertadores” que se sacrificam com o empenho da própria vida.

Um pequeno exemplo da idéia acima pode ser visualizado pela difusão até hoje e, imagina-se por muito mais tempo, pelo mundo, de camisetas e outros tipos de objetos com a imagem de Che.

O que será que une o jovem de 2006 ao mito? A resposta deve ser buscada sem a paixão da ideologia, mas a percepção é de que as pessoas idealizam as crenças em “verdades” e aí podem buscar motivações para a luta por causas as mais diversas.

O limiar do século XXI nesse campo do terrorismo é tão amplo que, por vezes, parece insinuar de que até inexiste uma causa definida. Quando alguém, isoladamente, leva no seu corpo a destruição ou, então, entra em um supermercado e atira a esmo, vê-se o resultado da ação, mas o nevoeiro que oculta o ponto de partida não permite uma clara identificação do que gerou a motivação.

O efeito que fica, sem dúvida, é o medo decorrente da violência do ato. A intimidação para “quebrar o moral daquele que é visto como oponente”.

Cinco anos se passaram desde que o grupo Al-Qaeda atacou os Estados Unidos. É muito difícil verificar nos eventos que se desdobraram a partir de então se há efetivamente uma “guerra ao terror”.

Como avaliar que existe uma guerra? Há vencedores ou perdedores? A invasão do Iraque é ou não uma peça dentro da “guerra ao Terrorismo”?

Um recente relatório do Senado norte-americano que veio a público na primeira semana de setembro de 2006, não deixa dúvidas sobre a ausência de indícios entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda. Mais um elemento a adicionar perplexidade em um enredo cheio de verdades e mentiras.

A palavra “guerra”, indevidamente empregada, conduz a confundir mais ainda o cenário que se apresenta. O uso da palavra “guerra” não significa que a solução passa por uma única via: a “solução militar”.

Não se deve banalizar o termo guerra. A história está aí para dar os exemplos necessários e mostrar que este não é o caminho.

Alguns estudiosos dos problemas de segurança colaboram para aumentar o nevoeiro.

Quando eles focam excessivamente a atenção para o uso de artefatos químicos, biológicos, radiológicos ou nucleares, em verdade dão ênfase ao aspecto material da atividade terrorista e contribuem para amplificar a sensação de insegurança e medo.

Criam-se cenários com base em enredos sem uma base plausível, mas forte o necessário para que a sociedade aumente as suas fobias.

Tentar entender um fenômeno tão complexo não é tarefa fácil. O caminho sugerido por Paul R. Pillar, em seu livro “Terrorism and U.S Foreign Policy” (Brookings Institution Press), parece ser o mais lúcido ao argumentar com base em sua experiência profissional na comunidade de inteligência e seu fundamento acadêmico, de que o terrorismo é um meio, um instrumento.

Não se faz “guerra” ao instrumento.

A assertiva acima talvez possa ajudar a entender a dificuldade de mensurar os êxitos e os fracassos sobre a “guerra ao terrorismo”. Se é uma “guerra”, e há os que a aceitam como tal, quais são os critérios para identificar as ameaças?

Contra quem se luta? Qual a estratégia militar para obter a vitória e alcançar os objetivos políticos?

A natureza multifacetada das formas de valer-se de ações terroristas não fornecem as respostas para as perguntas acima. A motivação política, social, religiosa, étnica ou de outros matizes não pode ser separada em fragmentos diversos.

A situação do Iraque e do Afeganistão apenas comprovam que não é com a retórica das palavras, tipo “guerra ao terror”, que se atinge o cerne da questão. Há muito desconhecimento sobre o outro ou outros.

O desconhecer leva alguns expertos a afirmarem de modo altissonante que “tudo” deve ser resolvido com a ação dos serviços estatais, com as limitações próprias da sociedade que os governos representam, com a ação de atores não-estatais, dispostos a tudo e sem qualquer vontade de negociar.

Vê-se, então, que o problema não é só do emprego da força militar. Há uma evidente falha da diplomacia, pois ela também está incapacitada para lidar com o problema.

O modelo uniu e não oferece as respostas. Estaria a guerra no século XXI então fora dos seus limites?

O simples fato de ameaçar usar o ato terrorista produz uma série de efeitos incontroláveis. A possibilidade de ocorrência é uma ameaça e obriga que o Estado ofereça respostas, a fim de evitar que a insegurança, a incerteza e a imprevisibilidade sejam uma constante no dia-a-dia das pessoas inocentes.

Sem dúvidas, após cinco anos, os três “I” (insegurança, incerteza, imprevisibilidade) estão pairando como o grande desafio deste nosso milênio.

O Almirante Reginaldo Reis é membro do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos da Escola da Guerra Naval (EGN).

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