Opinião

Diplomacia
09/04/2015
Diplomacia
10/04/2015

Soberania

Reino Unido reforça a fortaleza Malvinas: um desafio para a região

Marcelo Falak, especial de Buenos Aires, Argentina

A recente decisão do Reino Unido de reforçar sua posição militar nas Ilhas Malvinas provocou um compreensível alarme na Argentina, mas deveria ser seguida com atenção também pelo restante da região.

A medida, que consiste num investimento de US$ 268 milhões na próxima década para o emprego de helicópteros de transporte de tropas, modernização das comunicações, renovação do sistema de defesa misilística antiaérea e ampliação de estruturas portuárias, supõe uma escalada na militarização do Atlântico Sul.

Vários fatores levaram o Governo de David Cameron a tomar essa atitude.

Por um lado, a decisão argentina de melhorar sua mais que deficiente estrutura militar aérea, erroneamente adjudicada em Londres a uma compra ou aluguel de aviões russos. O provedor será provavelmente a China ou, se não for possível, Israel ou Espanha.

Claro que isto muda o pano de fundo da questão, mas este está dado também pelo fato de que a aquisição de uma dezena de aeronaves não supõe nenhum tipo de ameaça militar na região, mas resulta da clara vocação argentina de solucionar o conflito pela soberania por meios diplomáticos.

Logo, há que mencionar a iminência das eleições de 17 de maio, que o seu Partido Conservador encara sem garantias de êxito.

Por último, e de mãos dadas com o anterior, as fortes críticas ao impacto das políticas de ajuste no potencial militar do país, em meio à advertências sobre a possibilidade de que o orçamento destinado caia para menos de 2% do PIB requerido a todos os membros da OTAN.

Há que se considerar que inclusive a oposição trabalhista respaldou a decisão, que supõe fortalecer os recursos bélicos da dotação de 1.200 soldados que “protegem” a uma população de três mil pessoas, o que em proporção faz do arquipélago um dos territórios mais militarizados do mundo.

Mas há, ademais, motivos geopolíticos aos quais toda a América do Sul deveria atentar. Por um lado, o apoderamento dos recursos naturais de águas que rodeiam as Ilhas Malvinas, tanto pesqueiros como petroleiros. Como todas as explorações off-shore em águas profundas, os baixos preços internacionais prejudicam os desenvolvimentos, mas as riquezas estão ali e tudo indica que o Reino Unido, através de sua colônia, ficará com elas num futuro próximo.

Esta presença militar, desde já, significa assim mesmo um dado que deve ter em conta um Brasil que tem entre suas hipóteses de conflito a necessidade de defender suas águas, sob as quais descansa uma enorme riqueza petroleira.

Há, ainda, um dado de maior alento: as reclamações de soberania sobre a Antártida. Como sabemos, estas estão bloqueadas pelo Tratado Antártico de 1959, mas o Reino Unido não renuncia a eles.

Esse país mantém suas responsabilidades sobre o continente branco e suas riquezas potenciais desde 1908, o que significa dizer que sua reclamação é a mais antiga de que se tem registro. As Malvinas são uma carta territorial fundamental para sustentar essa aspiração.

O que não se deve esquecer é que o território que pretende o Reino Unido se superpõe com o que demandam Argentina, Chile e Brasil.

A Argentina, como vimos em uma coluna anterior, tolera o apoio logístico que se presta sigilosamente a navios britânicos no Brasil e no Chile, à margem do acordado no marco da Unasul, já que valoriza mais o respaldo diplomático explícito, que não teve nenhuma fissura. Talvez há chegado o momento, dado os interesses em jogo, de revisar essas diferenças à Sua Majestade.

Marcelo Falak é jornalista e analista político. Se graduou em Ciência Política e se especializou em Relações Internacionais e História. Web: http://marcelofalak.com.ar. E-mail: marcelofalak@gmail.com.

Marcelo Falak, especial de Buenos Aires, Argentina

A recente decisão do Reino Unido de reforçar sua posição militar nas Ilhas Malvinas provocou um compreensível alarme na Argentina, mas deveria ser seguida com atenção também pelo restante da região.

A medida, que consiste num investimento de US$ 268 milhões na próxima década para o emprego de helicópteros de transporte de tropas, modernização das comunicações, renovação do sistema de defesa misilística antiaérea e ampliação de estruturas portuárias, supõe uma escalada na militarização do Atlântico Sul.

Vários fatores levaram o Governo de David Cameron a tomar essa atitude.

Por um lado, a decisão argentina de melhorar sua mais que deficiente estrutura militar aérea, erroneamente adjudicada em Londres a uma compra ou aluguel de aviões russos. O provedor será provavelmente a China ou, se não for possível, Israel ou Espanha.

Claro que isto muda o pano de fundo da questão, mas este está dado também pelo fato de que a aquisição de uma dezena de aeronaves não supõe nenhum tipo de ameaça militar na região, mas resulta da clara vocação argentina de solucionar o conflito pela soberania por meios diplomáticos.

Logo, há que mencionar a iminência das eleições de 17 de maio, que o seu Partido Conservador encara sem garantias de êxito.

Por último, e de mãos dadas com o anterior, as fortes críticas ao impacto das políticas de ajuste no potencial militar do país, em meio à advertências sobre a possibilidade de que o orçamento destinado caia para menos de 2% do PIB requerido a todos os membros da OTAN.

Há que se considerar que inclusive a oposição trabalhista respaldou a decisão, que supõe fortalecer os recursos bélicos da dotação de 1.200 soldados que “protegem” a uma população de três mil pessoas, o que em proporção faz do arquipélago um dos territórios mais militarizados do mundo.

Mas há, ademais, motivos geopolíticos aos quais toda a América do Sul deveria atentar. Por um lado, o apoderamento dos recursos naturais de águas que rodeiam as Ilhas Malvinas, tanto pesqueiros como petroleiros. Como todas as explorações off-shore em águas profundas, os baixos preços internacionais prejudicam os desenvolvimentos, mas as riquezas estão ali e tudo indica que o Reino Unido, através de sua colônia, ficará com elas num futuro próximo.

Esta presença militar, desde já, significa assim mesmo um dado que deve ter em conta um Brasil que tem entre suas hipóteses de conflito a necessidade de defender suas águas, sob as quais descansa uma enorme riqueza petroleira.

Há, ainda, um dado de maior alento: as reclamações de soberania sobre a Antártida. Como sabemos, estas estão bloqueadas pelo Tratado Antártico de 1959, mas o Reino Unido não renuncia a eles.

Esse país mantém suas responsabilidades sobre o continente branco e suas riquezas potenciais desde 1908, o que significa dizer que sua reclamação é a mais antiga de que se tem registro. As Malvinas são uma carta territorial fundamental para sustentar essa aspiração.

O que não se deve esquecer é que o território que pretende o Reino Unido se superpõe com o que demandam Argentina, Chile e Brasil.

A Argentina, como vimos em uma coluna anterior, tolera o apoio logístico que se presta sigilosamente a navios britânicos no Brasil e no Chile, à margem do acordado no marco da Unasul, já que valoriza mais o respaldo diplomático explícito, que não teve nenhuma fissura. Talvez há chegado o momento, dado os interesses em jogo, de revisar essas diferenças à Sua Majestade.

Marcelo Falak é jornalista e analista político. Se graduou em Ciência Política e se especializou em Relações Internacionais e História. Web: http://marcelofalak.com.ar. E-mail: marcelofalak@gmail.com.

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