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29/08/2005

Conselho de Segurança

Representante da ONU não acredita em ’mensalão’

O representante da Organização das Nações Unidas no Brasil, Carlos Lopes, é africano da Guiné Bissau, um dos países mais pobres do continente. É PHD em História pela Universidade de Paris I, autor de 20 livros e já lecionou em universidades de Lisboa, Coimbra, México, São Paulo e Rio de Janeiro, além de ter colaborado para a criação de várias ONGs.

Em junho de 2003, foi designado pelo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, como representante da organização no Brasil. Ele recebeu o InfoRel para esta entrevista onde fala sobre o tratamento da comunidade internacional para com a África, o filme “Hotel Ruanda” e as alianças estratégicas do Brasil com o continente. Acompanhe:

Como africano, que leitura o senhor faz a respeito dessa aproximação do do Brasil com a África, inclusive com países de fora da CPLP?

Eu acho importante que a relação do Brasil com a África não fique apenas no quintal da lusofonia, por que isso cria uma percepção errada da relação do Brasil com o continente.

Do ponto de vista cultural, o Brasil tem até mais a ver com alguns países que não são de língua portuguesa, se nós formos ver a história, do que com países de língua portuguesa, com exceção talvez de Angola com quem tem uma relação mais intensa. Mas, quando se fala da África no Brasil, normalmente se fala no candomblé, orixás, de coisas que vêm do Golfo da Guiné, que vêm da fronteira entre o Benin e a Nigéria, que não são países de Língua Portuguesa, com os quais o Brasil, de fato, tem uma tradição cultural bastante presente e bastante forte.

Eu acho que o governo Lula tem dado grande impulso nas relações do Brasil com a África que do ponto de vista simbólico necessitava de uma presença mais forte do Chefe de Estado. Lula já visitou muitos países africanos e tem ido à África mais de uma vez por ano. Então, eu acho que de fato é uma aproximação muito grande.

E depois tem esta parceria estratégica com a África do Sul e a Índia e eu sempre defendi que a estratégia do Brasil com os países da África tem que ser pragmática. Não pode só ser simbólica. E tem que ser também comercial e econômica.

E, portanto a relação com a África do Sul é muito importante porque é, digamos um quarto do PIB africano, é um país com uma dimensão do ponto de vista econômico muito grande, e é um parceiro do Brasil em negociações econômicas internacionais e estratégias geopolíticas. Então, a relação com a África do Sul é muito importante.

Recentemente, o embaixador da Itália na ONU, sugeriu que o G-4, integrado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão, estaria pagando para conseguir o apoio dos países africanos para o projeto de reforma da organização, que atenda aos seus interesses. O senhor crê nessa possibilidade?

Bom, o que eu acho que está acontecendo é que há um aumento de tensão na própria constituição sobre o Conselho de Segurança, com acusações e contra-acusações. Quer dizer, o tom está se elevando para além do diplomático.

E o Secretário-Geral tem insistido que é preciso um pouco mais de calma. Talvez, o calendário que ele mesmo havia sugerido, de tentar fechar estas questões sobre o tema até setembro, quando se vai realizar a 60ª Assembléia-Geral da ONU, seja mesmo apressado e seria bom que se resolvesse esta questão até dezembro. Para dar um pouco de calmaria as discussões.

O atual presidente da Assembléia-Geral da ONU que é um camaronês, propôs na semana passada uma espécie de grupo de conciliação para que não aumente muito o tom. Ele propõe que mais ou menos cerca de 30 países, que seriam escolhidos pela sua representatividade regional e por interesses vários, que tenham que ser discutidos, se reunissem e fizessem uma proposta conjunta.

Em vez de ir para a Assembléia-Geral com propostas concorrentes. Ele quer tentar evitar que se chegue a cúpula com propostas várias, com propostas deste ou daquele grupo, do G-4. Ele quer uma discussão antes, por parte desse grupo de 30 para que saia uma proposta única sobre o tema.

O Brasil, por exemplo, tem perdoado dívidas de países africanos, como Moçambique, Cabo Verde, Angola e Guiné Bissau. Até que ponto o perdão dessas dívidas pode ser uma estratégia para se conseguir êxito num projeto político como a obtenção de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?

Eu sinceramente acho de mau gosto essas especulações que são feitas que o perdão da dívida tenha a ver com isso. Eu acho que o perdão da dívida se inscreve numa rota de solidariedade que o Brasil anunciou e que tem implementado de uma forma coerente.

Se fosse apenas estratégia de compra de apoio, o Brasil não teria feito muitas coisas que fez nos últimos dois anos. O Brasil aumenta os objetivos do milênio, financiamento para desenvolvimento, propostas no G-8, propostas na Assembléia-Geral da ONU, criação de um Fundo de Solidariedade, negociações comerciais que beneficiam países pobres, quer dizer, há uma coerência da relação do Brasil nessa área do desenvolvimento que não se reduz apenas ao perdão das dívidas, que é apenas um dos instrumentos.

Então, é também um pouco estranho que as pessoas estejam criticando, pois o objetivo 8 dos objetivos do milênio é a parceria global. E ela é definida pela ONU como tendo quatro componentes principais: transferência de tecnologia; mudar os regimes da propriedade intelectual; mudar o sistema do comércio internacional e o perdão da dívida.

Então, se o Brasil está fazendo estas coisas, como se vai destacar um aspecto do conjunto para criticar? Eu acho isso de muito mau gosto.

Acaba de estrear no Brasil, o filme Hotel Ruanda, que desnuda a forma como os grandes países lidam com os conflitos africanos. Além disso, ressalta a corrupção como algo enraizado na África. O senhor concorda com este tipo de leitura?

Eu felizmente conheço razoavelmente bem Ruanda e sei que qualquer pessoa que visitasse Ruanda nos anos 80 chegaria facilmente a essa conclusão.

Aliás, é possível traçar em qualquer relatório do Banco Mundial e das Nações Unidas que Ruanda era um dos países mais bem sucedidos do ponto de vista econômico e social no continente.

Tinha um problema muito grande que era o demográfico e tem uma herança histórica muito complicada que é de divisão da sua população que ao contrário das aparências é uma das mais homogêneas da África.

Tem a mesma religião, tem a mesma herança cultural, vêm da mesma tradição política e tiveram um colonizador que são os belgas. O que acontece é que os belgas dividiram, do ponto de vista de classes, a sociedade ruandesa e burandesa em duas metades e a classe nobre são os Tutsis e a classe, digamos, baixa seriam os Hutus.

Mas, do ponto de vista identitário elas deveriam ser um único povo. Formou-se uma divisão de classes. Mas, foi tão exacerbada essa divisão e foi tão complicada a parte final da colonização belga, dando todo o poder aos Tutsis no Burundi e todo poder aos Hutus em Ruanda, como se dividissem, essa metade para você e aquela metade para os outros, que criou uma situação de conflito permanente no Burundi e em Ruanda.

Portanto, as sementes estavam lá e poderia-se ter evitado tudo isso. Com um pouco mais de paciência, com um pouco mais de intervencionismo da parte da comunidade internacional e do assumir das responsabilidades do colonizador, a Bélgica neste caso, por alguns dos estragos que provocou e pela forma como a colonização foi feita.

Hoje em dia eu acho que o governo da Bélgica admite isso, mas admite, enfim, a posteriori. Mas os ingredientes para o massacre daquela natureza ninguém podia imaginar que eram assim tão palpáveis.

Foi uma grande falha da comunidade internacional, Nações Unidas incluída, mas Nações Unidas com a culpa que tem e não mais do que a que tem.

A culpa das Nações Unidas foi dos seus mecanismos políticos na terem funcionado como o Conselho de Segurança, que não utilizaram as forças de manutenção de pa

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