Brasília, 14 de novembro de 2018 - 05h53
Ruídos diplomáticos

Ruídos diplomáticos

04 de novembro de 2018
por: Marcelo Rech
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O presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou nesta semana que irá transferir a sede da Embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém. Disse ainda que cogita cortar relações com Cuba e Venezuela. Suas declarações, claro, provocaram muitas reações.

A Política Externa Brasileira sempre se pautou pelo equilíbrio e anúncios desta natureza, vão na contramão do que se esperava.

No entanto, Jair Bolsonaro que sempre foi membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, pensa em dar uma guinada drástica e tem suas razões para tal. Especialmente ao longo dos últimos 16 anos, o país ganhou muito pouco ao manter o seu suposto equilíbrio.

Na verdade, o país se associou ideologicamente com nações que apenas lucraram com essas alianças. Muito dinheiro público brasileiro foi investido em países cujos governos são reconhecidos pelo alto nível de corrupção, por exemplo.

Ditaduras na África e na América Latina foram apoiadas com recursos do BNDES, sem que o Brasil ganhasse absolutamente nada em contrapartida. Nada de expressivo em comércio e muito menos do ponto de vista geopolítico.

Foram anos de desidratação do ministério das Relações Exteriores. Tivemos uma diplomacia escorada no eufemismo “altiva e ativa”, o que na prática isolou o Brasil dos grandes mercados e da mesa de decisões.

Nos apequenamos e o país deixou de ter sua voz considerada dado o grau de militância ideológica implementada no Itamaraty. Algo que seguiu com Michel Temer. Hoje, são diplomatas e ex-diplomatas brasileiros os grandes responsáveis pela narrativa negativa em torno do governo eleito.

É vergonhoso o papel desempenhado pelo ex-chanceler Celso Amorim. Ex-chefe do Itamaraty, ele admitiu a interferência ideológica liderada primeiro por José Dirceu e, depois, por Marco Aurélio Garcia. Para alguém que serviu ao governo militar e se ofereceu para ser o ministro de Lula, Amorim mancha de vez a sua biografia ao falar mal do Brasil em defesa de um presidiário.

De Jair Bolsonaro se espera uma chancelaria forte e uma diplomacia protagonista, capaz de recolocar o Brasil nas discussões mais relevantes da agenda internacional. Não se admitirá a militância contrária.

As relações internacionais do Brasil deveriam guiar-se pelo pragmatismo e por valores universais. Agendas que atendem apenas à interesses partidários e ideológicos devem sim ser abandonadas, mas há um preço alto a ser pago quando se assume uma posição em temas delicados.

Transferir a sede da Embaixada do Brasil em Israel somente faz sentido se algo muito maior estiver por trás. Cortar relações com Cuba e Venezuela, idem. Fazer por fazer, não faz sentido.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.

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