Opinião

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02/02/2006
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07/02/2006

Segurança Regional

Rússia: algumas questões a considerar

Bruno Quadros e Quadros

A Federação Russa, com mais de 17 milhões de quilômetros quadrados e com 143 milhões de habitantes, experimenta hoje um ressurgimento enquanto potência mundial, propiciado pelo seu grande crescimento econômico e pela sua crescente importância estratégica.

É um dos cinco membros permanentes com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, possui a nona maior economia do mundo, estimada em 1,6 trilhão de dólares, e detém o quarto maior ativo militar do planeta, com 1,13 milhão de integrantes.

Esta enorme importância não poderia deixar de atribuir à Rússia responsabilidades, além de alçar-lhe ao epicentro de importantes questões internacionais. Analisá-las é o que se propõe o presente artigo.

No plano interno, há temas cuja importância repercute na atuação internacional do país. Dentre eles podemos citar a crescente atuação da máfia russa como poder paralelo ao governo central, a recente recuperação econômica – só em 2005 o PIB cresceu 6% – e a perseguição de Putin aos oligarcas das telecomunicações e do petróleo – como Mikhail Khodorkovsky da Yukos e Boris Berezovsky da Sibneft.

Devem ser citados também os atos de Putin com vistas a enfraquecer a frágil democracia do país, rumo a um autoritarismo mais enraizado na história russa, como a lei que centraliza ainda mais o poder político em Moscou e restringe a autonomia das repúblicas, pondo em xeque a própria estrutura federativa do país; e a lei limitando as atividades das ONG’s em território russo, devido ao temor de Putin de que as ONG’s sejam financiadas por governos estrangeiros para desestabilizar o seu governo.

Internamente ainda, deve ser levada em conta a questão dos separatismos regionais. No caso mais notório, o da Chechênia, observa-se uma estabilização no tocante aos combates convencionais na república do Cáucaso, muito encarniçados sob Yeltsin, o que não impede o recrudescimento dos ataques terroristas promovidos por chechenos, como no teatro em Moscou em 2002 e em Beslan em 2004.

Tal recrudescimento, que coloca o FSB – serviço de segurança russo, sucessor da KGB – em permanente estado de alerta, foi um dos grandes motivos alegados por Vladimir Putin na lei restringindo a autonomia das repúblicas citada anteriormente.

Também preocupa as autoridades russas a possível metamorfose das motivações do ativismo checheno em direção a um fundamentalismo religioso financiado pela Al Qaeda, deixando de lado o puro nacionalismo separatista.

No plano internacional, o ressurgimento da Rússia como centro de poder mundial – impensável no início dos anos 90, mas tido por alguns analistas internacionais como inevitável –, como não poderia deixar de ser, está intimamente ligado à sua atual recuperação econômica, desencadeada pelas reformas liberalizantes de Yeltsin e Putin, que não sem custo social instalaram no país uma economia de mercado, além do aumento do preço do petróleo e do gás natural, abundantes em território russo e parte importante de sua pauta de exportações.

Neste sentido, é emblemática a atual presidência russa no G-8, como síntese deste processo, que não deixará de atribuir ao país enormes responsabilidades sobre questões espinhosas da diplomacia internacional, como o programa nuclear iraniano, sobre o qual a Rússia tem manifestado um comportamento dúbio; os novos projetos internacionais de oleodutos e gasodutos, envolvendo hidrocarbonetos russos e dos países da Ásia central, que têm posto em conflito de forma dramática interesses de nações e companhias petrolíferas de todo o mundo [basta lembrarmos da recente crise do país com a Ucrânia acerca do fornecimento de gás natural]; o programa nuclear norte-coreano, tema em que a Rússia é um dos principais interlocutores; assim como a recente venda russa de armas à Venezuela e as disputas fronteiriças entre Rússia e Japão sobre as ilhas do Pacífico norte.

Recuperar a influência sobre as ex-repúblicas soviéticas – perdida com o fim da URSS – tem sido uma das prioridades da política externa russa pós-comunista, por meio do apoio a políticos pró-Moscou, representantes da minoria étnica russa nesses países.

Este esforço diplomático e geopolítico insere-se em diferentes cenários, conforme a região analisada. Na Europa Oriental, a Rússia disputa espaço com a União Européia e, em menor escala, com os Estados Unidos, além da OTAN.

Os Estados bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia –, que aderiram à UE, estão irresistivelmente alinhados ao Ocidente. Na Ucrânia, percebe-se a hesitação do atual governo em ensejar uma aproximação com um dos lados.

Portanto, somente na Bielo-rússia resta um governo declaradamente pró-Moscou na Europa, o de Aleksandr Lukashenko, que tem sido também o com menor avanço em direção à democracia liberal e à economia de mercado dentre as ex-repúblicas soviéticas.

Nos outros dois cenários – Cáucaso e Ásia central – os alinhamentos se fazem levando-se em conta mais um fator: a riqueza em hidrocarbonetos [petróleo e gás natural].

Disso resulta, conforme foi observado anteriormente, a variedade de projetos em trâmite na região com o objetivo de levar tais recursos energéticos aos grandes centros consumidores mundiais.

Em decorrência disso ainda, nessas duas regiões a Rússia vê seus interesses em disputa com os EUA, a UE e a China e, secundariamente, com o Irã e a Turquia, por causa das filiações étnicas e religiosas com vários povos das duas regiões.

O esforço de Moscou em restaurar a influência de outrora em seu entorno tem causado as chamadas revoluções coloridas, levantes populares que derrubaram governos pró-Moscou na Geórgia [a Revolução Rosa] em 2003 e na Ucrânia [a Revolução Laranja] em 2004 e 2005.

Na Geórgia, o presidente Edvard Shevardnadze – ministro das Relações Exteriores da URSS sob Gorbatchev – foi deposto por alegações de corrupção em sua gestão.

Já na Ucrânia, as alegações de fraude nas eleições presidenciais favorecendo o candidato pró-Moscou – Viktor Yanukovitch –, incitaram a revolta popular, desejosa de um pleito mais isento. Após a convocação de novas eleições, obteve a maioria dos votos o candidato pró-Ocidente – Viktor Yushchenko –, que foi empossado presidente.

O impasse eleitoral ocorrido na Ucrânia, se visto sob o prisma de Samuel Huntington e o Choque de Civilizações, pode ser interpretado como o produto da fratura existente na sociedade ucraniana, com os uniatas do ocidente do país querendo o distanciamento de Moscou e a aproximação com a Europa Ocidental, enquanto os ortodoxos da parte oriental desejam manter os fortes vínculos com a Rússia.

Portanto, à Rússia, por seu gigantismo territorial, econômico e militar, deve ser atribuído um papel estabilizador por sua atuação em todo o continente eurasiano.

Qualquer ameaça – interna ou externa – à integridade territorial russa pode pôr em xeque a segurança mundial. Por isso, iniciativas de cooperação com vizinhos são muito salutares, como a realização sem precedentes de exercícios militares com a China em 2005.

Nesse sentido, também é importante a manutenção da expansão econômica do país como forma de evitar possíveis radicalizações políticas que alcem ao poder desde os saudosistas do passado comunista até a direita ultranacionalista liderada por Vladimir Zhirinovsky.

Bruno Quadros e Quadros é acadêmico de Relações Internacionais nas Faculdades Integradas Curitiba, do Paraná. Correio eletrônico: bquadrosequadros@gmail.com

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