Comécio Exterior
17/10/2005
Cooperação
18/10/2005

Cooperação Tecnológica

Rússia quer desenvolver satélite brasileiro

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Vladimir Putin têm encontro nesta terça-feira e um dos pontos mais importantes deverá ser o início das negociações para que a Rússia participe do desenvolvimento do satélite geoestacionário brasileiro, um negócio que pode chegar a US$ 1,5 bilhão.

Além de assinarem o contrato de US$ 10 milhões para que o astronauta Marcos Pontes participe da missão espacial da Soyuz em março do ano que vem, os dois ainda devem assinar um acordo que prevê a reformulação do programa do Veículo Lançador de Satélites [VLS].

Serão investidos aproximadamente US$ 3 milhões no novo projeto e o lançamento prometido pelo presidente, de um VLS em 2006, está definitivamente descartado. Técnicos russos trabalham na base desde o acidente que matou 21 técnicos brasileiros em 2002.

Para os russos, a participação no projeto do satélite geoestacionário seria a coroação da cooperação espacial com o Brasil. Eles também entendem que essa seria uma forma de diminuir o déficit comercial entre os dois países. No ano passado, o Brasil teve um superávit de US$ 1,77 milhão, valor que deve ser ultrapassado com folga em 2005.

A Rússia também tinha a expectativa de poder mudar essa realidade, vencendo a licitação para o fornecimento de 12 caças Sukhoi-35 para a Força Aérea Brasileira, mas o projeto foi encerrado e o Brasil acabou comprando 12 aviões usados [Mirage 2000] da França.

Satélites

A grande vantagem do satélite geoestacionário é que ele acompanha a órbita da Terra e opera sempre acima de uma mesma região, enquanto os satélites convencionais, circundam o planeta. Hoje, o Brasil depende dos satélites geoestacionários de empresas privadas como a Embratel que opera o Star One.

Até 2009, o Brasil pretende lançar três satélites geoestacionários que serão utilizados nas telecomunicações, meteorologia, controle de navegação e tráfego aéreo, além de concentrar dados militares confidenciais no país e aumentar a vigilância sobre a região amazônica e as fronteiras.

As agências espaciais dos Estados Unidos, Rússia, União Européia e Israel já foram sondadas pela Agência Espacial Brasileira, interessada na capacitação técnica para desenvolver o SGB.

Os russos acreditam que são os únicos em condições de cumprir as três etapas do projeto, que passa pela construção do satélite, lançamento e construção da base de operações em terra.

Outra vantagem russa estaria na garantia da transferência de tecnologia e na capacitação dos técnicos brasileiros, com a assinatura de um acordo de salvaguardas tecnológicas. As três etapas do processo custariam cerca de US$ 900 milhões e o programa encontra-se em estudo nos ministérios da Defesa e Comunicações.

Ucrânia

A princípio, os satélites seriam colocados em órbita pelo foguete Cyclone 4, que o Brasil deve desenvolver em parceria com a Ucrânia. Já foram gastos cerca de R$ 140 mil nos estudos de viabilidade, concluídos em 2002, e outros R$ 10 milhões nas especificações do projeto. O Brasil não abre mão de lançar os satélites da Base de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão [MA].

O projeto deverá chegar à Agência Espacial Brasileira ainda este mês quando o Conselho Superior da AEB irá constituir um grupo de trabalho para iniciar o processo de licitação internacional.

O governo pretende financiar o desenvolvimento do projeto a partir dos recursos do Fundo de Telecomunicações [Funtel]. Estima-se que o investimento poderá ser ressarcido em até cinco anos, pois o Brasil deixará de pagar taxas às empresas estrangeiras pelos serviços de telecomunicações.

Forças Armadas

Hoje, as informações estratégicas das Forças Armadas passam pelo satélite da Star One, o que preocupa os militares brasileiros que vêem nisso, a necessidade do país possuir seus próprios satélites geoestacionários. Além disso, haverá uma maior integração das redes de comunicação dos três comandos.

O projeto do SGB foi iniciado em 1989, pelo então ministério da Aeronáutica. Na época, um relatório confidencial sugeriu que o Brasil desenvolvesse com urgência, um programa que contemplasse a construção dos foguetes lançadores até a montagem de cinco satélites.

Em 1991, Exército e Marinha também decidiram estudar a construção de um Sistema de Satélites de Múltiplas Funções. Para os militares, possuir esse tipo de satélite confere ao país um diferencial de valor estratégico.

O Exército, por exemplo, está revitalizando as instalações do Centro Nacional de Monitoramento por Satélite, da Embrapa, em Campinas [SP]. As informações são utilizadas para a agricultura, mas também para o ministério da Defesa.

Além de suprir várias aéreas estratégicas com informações e dados, o Brasil poderá ainda firmar cooperação e prestar serviços aos países da América do Sul, a exemplo do que faz no Haiti, que teve todo o seu território mapeado digitalmente e permite que as forças militares possam planejar melhor os deslocamentos dos soldados da MINUSTAH.

Os militares entendem que o desenvolvimento do SGB vai conferir maior soberania ao país, reduzindo sua dependência de tecnologias sensíveis e fortalecendo a segurança nacional.

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