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Sobre Batatas

Sobre Batatas

Fernando Malta

 

O debate entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, ricos e pobres, centro e periferia é tão antigo quanto à própria história humana e de suas comunidades.

 

Quincas Borba afirmaria que não há morte, mas sim vida, pois da diferenciação entre duas tribos, e a conseqüente competição, a paz não é possível, pois a guerra é o elemento que acende, inflama e faz ambas sociedades se tratarem como tal.

 

Da exterminação de uma, a supremacia d’outra; “ao vencido, ódio ou compaixão; aos vencedores, as batatas”.

 

A hierarquia de facto é elemento quase inerente à relação dessas comunidades, o mais forte sendo soberano/guia/exemplo daqueles que não podem questionar seu poder; de fato, olhando a história humana sob esse prisma, explicam-se boas partes das guerras mediante um processo de potência status quo sendo questionada por uma comunidade revisionista e, desse questionamento, um conflito é a conseqüência e uma nova ordem (de perpetuação ou revolução) a resultante.

 

Claro que essa corrente simplista (mas não menos interessante) do estudo histórico das comunidades humanas tem seus críticos.

 

Contudo a teoria realista das relações internacionais vai além no seu senso explicativo de balanças e contra-balanças: um fenômeno inerente do século XX e revolucionário no trato dessa história é o poder cada vez mais delegado a instituições (formais ou não) inter ou supra-estatais (desde a ONU e a UE até a OIT ou a OMC), que delimitam sensivelmente a margem de manobra dessas comunidades, delegando poder de forma tal a impedir conflitos, em especial bélicos, entre aqueles no centro desse sistema.

 

Não à toa, desde a Segunda Guerra nenhuma outra guerra entre potências chegou às vias de fato.

 

Pela primeira vez na história, era mais vantajoso discutir sobre as batatas do que lutar pelas mesmas.

 

As instituições ambientais não fogem à regra.

 

Ao restringir seu poder de escolha absoluto nos rumos de suas próprias comunidades políticas, delegando a outros organismos esses limites, os Estados, à primeira vista, aceitam modificar a hierarquia.

 

Mas por que fariam isso, se a realidade anterior era favorável ao seu poder? Das possibilidades possíveis para uma mobilização, a mais facilmente identificável em instituições ambientais é o medo de uma ameaça comum e que não pode ser combatida unilateralmente: desde o aquecimento global até a poluição em larga escala.

 

As questões ambientais são, por natureza, internacionais e, por tal, demandam um esforço conjunto para que sejam solucionadas.

 

A cessão de poder seria, por tal, a estratégia mais eficiente, mediante cálculo custo/benefício de uma ação conjunta, seja para o país mais poderoso que, mesmo com sua preponderância não consegue resolver sozinho o problema; seja para os mais fracos, que podem se utilizar dessa cessão de poderes como forma de se aproximar dos mais fortes, agindo literalmente como “carona” em seus esforços para solucionar os problemas que também os atingem, ganhando os benefícios globais sem terem pago para tal.

 

O questionamento contra-hegemônico, contudo, vê na nova “metodologia verde” adotada por países poderosos o grande perigo para o desenvolvimento dos mais fracos.

 

A soma de novas tecnologias mais eficientes, “selos verdes” e outras formas de qualificações da produção e barreiras comerciais (explícitas ou não) com base em fatores de sustentabilidade impedem qualquer tipo de concorrência justa entre aqueles que já tiveram a oportunidade (e a disponibilidade financeira) para se modernizarem ao ponto pretendido e aos outros que apenas engatinham nessa área; como resultado, ao invés de equalizar as condições entre “ricos” e “pobres”, acaba por ser um elemento de congelamento e manutenção da hierarquia, uma barreira institucionalizada que impede o revisionismo.

 

Pior do que perder a batata no combate é nunca chegar a ter a chance de obtê-la.

 

Elemento de cooperação ou dissenso, a utilidade principal da instituição ambiental só não pode ser questionada em sua essência – fato infelizmente recorrente e que atravanca a continuidade de debates na área.

 

A eficiência verde é, pois, vista como solução e vilão, dependendo da ênfase; mas o que não deve ser questionado é a necessidade de ação efetiva na área.

 

Ações verdes só acontecerão a partir do momento de econômica e politicamente vantajosas; mas o uso político das mesmas será contínuo e pode se apresentar como nefasto.

 

Aos interessados, a cooperação levará à solução; aos contrários, levará a um continuísmo prejudicial e injusto.

 

Não há solução clara para a dialética que não uma padronização, homogeneização ou, no mínimo, aceitação dos valores e necessidades dos outros, mas essa idéia é tão arcaica quanto à própria disputa entre comunidades políticas.

 

Resta, pois, a indagação: há então solução e/ou vencedor? Para quem vão as batatas da pós-modernidade?

 

Fernando Malta é Pós-Graduado em Gestão Ambiental pela UFRJ, Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Membro do GT III, Paz e Segurança Regional, GAPCon

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