Relações Exteriores

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14/03/2006
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14/03/2006

Brasil-Guatemala

Subsídio agrícola impede países pobres de serem mais competitivos

Luiz Inácio Lula da Silva

Excelentíssimo senhor Oscar Berger, presidente da República da Guatemala,

Senhora Beatriz de León Reyes, presidente da Corte Suprema de Justiça e Organismo Judicial da Guatemala,

Senhores ministros de Estado e integrantes das comitivas da Guatemala e do Brasil,

Nossa querida companheira Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz e embaixadora da Boa-Vontade e dos Acordos de Paz,

Meus amigos e minhas amigas,

Quero dar as boas vindas ao presidente da Guatemala, Oscar Berger, e à sua comitiva, que nos honram com sua visita ao Brasil.

Esta visita ao Brasil – a primeira de um presidente guatemalteco ao nosso País – e minha ida ao seu país – também a primeira visita de um presidente brasileiro à Guatemala – expressam uma vontade de reforçar os vínculos bilaterais e de trabalhar em conjunto na construção de agendas de interesses comuns.

A Guatemala está implementando programas semelhantes aos brasileiros, por isso estamos prontos a estudar as experiências de nossos parceiros e a colaborar para seus êxitos.

Exemplo desse intercâmbio é a cooperação bilateral com os programas Bolsa Escola e Alfabetização Solidária. Essas são provas do que podemos fazer quando assumimos nossas responsabilidades.

Em setembro de 2005, durante minha visita à Guatemala, compareci à conferência regional sobre a fome. A iniciativa dessa conferência foi importante contribuição do presidente Berger para esse esforço coletivo de procura do desenvolvimento de nossas nações.

Pude também participar da reunião entre os países do Sistema de Integração Centro-Americano [SICA] e o Brasil, quando tratamos das perspectivas de integração entre o SICA e o Mercosul.

Temos de nos unir em grandes blocos para enfrentar os desafios nas negociações comerciais da OMC. Nessas negociações, Guatemala e Brasil trabalham juntos no G-20 para mudar o panorama para suas exportações agrícolas nos mercados dos países ricos.

Estamos numa encruzilhada do processo negociador, mas temos que garantir que a Rodada de Doha não acabe num impasse. E, por isso, este é um momento de decisões políticas. Sei que podemos contar com o empenho pessoal do presidente Berger e a ajuda da Guatemala para garantir impulso às negociações.

Aqui é importante lembrar, presidente Berger, que em maio, na cidade de Viena, haverá a Cúpula América Latina/União Européia. Eu conversei com o primeiro ministro Tony Blair – o meu ministro Celso Amorim está hoje conversando com a chanceler alemã – para que a gente possa fazer dessa cúpula uma reunião verdadeiramente de cúpula, que todos os presidentes e primeiros-ministros de todos os países compareçam.

Porque, a impressão que eu tenho e a compreensão que eu tenho é de que a rodada de Doha, o acordo da OMC para o fim dos subsídios agrícolas dos países ricos, não depende mais de uma reunião técnica, depende agora de decisões políticas, e decisões políticas somos nós, os presidentes da República, que temos que tomar.

Por isso, o nosso ministro Celso Amorim está, neste momento, tendo uma audiência com a chanceler para que a gente possa ter parceiros, para convencermos os países da União Européia a comparecerem com os seus representantes máximos, da América Latina também, com seus representantes máximos, para que a gente possa tomar uma decisão política e favorecer os países que dependem mais da agricultura.

Eu tenho dito em todos os cantos do mundo a que eu vou, que a agricultura é muito importante para todos os países, mas para os países menores e pobres ela tem uma importância maior.

Porque na França, a agricultura ocupa apenas 1% da força de trabalho, na Inglaterra, a agricultura ocupa apenas 2,8% da força de trabalho.

Mas no Brasil ocupa 25%, na Guatemala deve ocupar acima de 50%, em Camarões ocupa 70%, e na União Européia toda, apenas 4,8% da força de trabalho está na agricultura.

Portanto, não tem sentido o subsídio agrícola impedir os países mais pobres de serem mais competitivos.

O importante é que o intercâmbio comercial entre a Guatemala e o Brasil cresceu muito. Nós, este ano, batemos o recorde: chegamos a 335 milhões de dólares, que é recorde na história das relações comerciais Guatemala-Brasil.

As exportações da Guatemala para o Brasil quadruplicaram e, segundo o presidente Berger e eu ouvimos do ministro Furlan, no mês de fevereiro e de janeiro, praticamente aumentaram 300% as exportações da Guatemala para o Brasil.

Eu sei que ainda é muito pequeno, eu sei que ainda tem uma vantagem na balança comercial favorável ao Brasil, mas eu quero que o presidente Berger compreenda que, para o meu governo, a relação comercial boa é aquela que é uma via de duas mãos, em que a gente possa vender, mas que a gente possa comprar para tornar o comércio uma coisa mais equilibrada e mais substancial para os dois países.

Por isso, assumimos um compromisso hoje de que o ministro Furlan, talvez ainda este mês ou, o mais tardar, no começo do próximo mês, estará indo à Guatemala com uma delegação de empresários.

O governo da Guatemala vai mandar para o Brasil representantes dos setores em que a Guatemala gostaria de fazer parceria com empresários brasileiros e nós vamos levar esses empresários para que a gente possa produzir alguma coisa em parceria com empresários da Guatemala e exportar para os Estados Unidos, já que a Guatemala tem isenção total para exportar para os Estados Unidos.

E nós sabemos o que representa, para a Guatemala, o etanol, nós sabemos o que representa, para a Guatemala, a experiência que eu não tive oportunidade de conversar com o presidente Berger sobre o biodiesel, porque o biodiesel é, na verdade, aquilo que eu digo ao presidente que, no século XXI, nós não vamos fazer prospecção de petróleo, apenas; nós vamos plantar petróleo e eu posso lhe dizer que o biodiesel pode ser a grande alternativa para os países pobres do mundo, sobretudo para a América Latina e África.

Bem, eu queria dizer ao presidente Berger que a política externa brasileira é uma política que prevê a inclusão dos nossos parceiros da América do Sul, da América Latina, da África e dos países que, tradicionalmente, estavam afastados do Brasil, e também porque o Brasil estava afastado desses países.

Quero lhe dizer que, quando fui convidado para ir à Guatemala no ano passado, eu fui com a certeza de que estava se abrindo, na América Central uma grande possibilidade de o Brasil estabelecer parcerias, do ponto de vista do aumento do nosso comércio, mas, sobretudo, com a implantação de projetos industriais entre o Brasil e a Guatemala, entre o Brasil e outros países.

O presidente Berger mandou aqui, no mês passado, em uma reunião com os países da América Central, um ministro para que pudesse conhecer a questão do etanol mais profundamente, para discutir investimentos e, sobretudo, para conhecer – não sei se visitaram a indústria automobilística – mas também para conhecer o flexil, que é um carro que pode dar uma certa independência na área de combustível a todos os países que precisam e dependem, única e exclusivamente, do petróleo.

Eu quero lhe dizer, meu caro Presidente, que esta sua visita aqui vai melhorar ainda mais o patamar das relações entre Brasil e Guatemala.

Nós sabemos das afinidades, sabemos do seu compromisso com a Reforma das Nações Unidas, sabemos do seu compromisso com o G-20, sabemos do seu compromisso na instituição de organismos multilaterais mais democráticos, mais representativos, e sabemos, também, do seu compromisso de desenvolver, não apenas a Guatemala, mas desenvolver, praticamente toda a América Central, já que vocês tomaram a decisão de que praticamente a América Central será uma zona de livre comércio e de que não haverá a proibição de trânsito, nem de produto, nem de gente. Isso significa um comércio maior e uma possibilidade maior para acordos com o Brasil e outros parceiros do Mercosul.

Quero, especialmente, agradecer ao presidente Berger o envio de soldados para

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