Brasília, 01 de outubro de 2020 - 11h51
Superexposição e riscos de politização nos quartéis assustam militares

Superexposição e riscos de politização nos quartéis assustam militares

29 de julho de 2020 - 18:20:55
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Marcelo Rech

Os militares das Forças Armadas estão assustados e com medo. A superexposição de coronéis e generais na mídia, diuturnamente, somado com a politização dos quartéis, tem tirado o sono do oficialato. Para piorar, os militares se veem em meio a um impasse em relação à participação de oficiais da ativa no atual governo, o que pode estar dividindo uma instituição marcadamente rígida e hierárquica.

Além disso, as Forças Armadas foram colocadas no epicentro de alguns dos temas mais sensíveis e delicados do momento, onde o êxito e o fracasso caminham sobre uma linha tão tênue quanto invisível.

No Palácio do Planalto, o núcleo duro do presidente é formado apenas por militares. São três generais, um almirante e um oficial PM. Um general comanda o Ministério da Saúde em meio à pandemia e a ausência de uma política federal de coordenação para o seu combate. Há militares em todos os postos estratégicos relacionados com o Covid-19.

E há militares em praticamente todos os ministérios, agências e estatais. Em alguns órgãos, há excesso de militares, como no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), por exemplo, que se tornou um enorme cabide de emprego para coronéis entediados.

O vice-presidente Hamilton Mourão, preside o Conselho da Amazônia, órgão que ganha cada vez mais importância e exposição por conta do período de seca naquela região e o possível aumento das queimadas. Os militares sabem que tudo o que diz respeito à Amazônia transcende ao Brasil, à sua imagem e às suas ambições internacionais, incluindo nossas exportações e a necessária atração de investimentos.

Mourão incluiu as Forças Armadas nas ações voltadas para a região. Os militares têm executado operações que vão desde o atendimento aos povoados mais isolados que recebem mantimentos e medicamentos, até a fiscalização do transporte ilegal de madeira, queimads e a derrubada da floresta.

Paralelamente, ele tem dialogado com investidores e diplomatas estrangeiros, empresários e banqueiros brasileiros e representantes indígenas, entre outros. Um esforço por mudar a imagem negativa construída, principalmente no exterior.

Em meio a tudo isso, as Forças Armadas ainda se veem no centro dos ataques desferidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Após duas décadas de ditadura militar, as Forças Armadas passaram por um período de recolhimento. Aos poucos, a presença dos militares nas regiões mais longíquas do país, a priorização da defesa da soberania e o foco na execução do seu papel constitucional, foi mudando a imagem que a sociedade tinha dos seus exércitos. Os militares também trataram de distanciar-se da política.

Não por acaso, há vários anos seguidos, as Forças Armadas são vistas como a instituição mais confiável pelos brasileiros, enquanto os poderes Legislativo e Judiciário, por exemplo, estão sempre lutando na parte baixa da tabela, contra o rebaixamento.

E é este ativo conquistado a duras penas e em meio à perseguições e tentativas de ajustes de contas, que está em risco. A maioria dos militares que servem ao governo, deixaram-se envolver pela atmosfera de intrigas e golpes baixos, típica da política brasileira.

Os quartéis, por mais que seus comandantes digam o contrário, têm sido palco de discussões políticas a favor e contra o governo, afinal, os militares continuam sendo pessoas comuns como quaisquer outras, suscetíveis aos debates em curso. Para completar, os políticos tradicionais não confiam nos militares e vice-versa.

Marcelo Rech é jornalista e analista internacional no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.