Opinião

Diplomacia
16/06/2016
Diplomacia
20/06/2016

Oriente Médio

Tecelões silenciosos

Enquanto se fecham os canais de entendimento entre palestinos e israelenses, organizações não-governamentais buscam uma aproximação entre os dois povos

Marcos Magalhães

O mundo inteiro soube do que aconteceu em Tel Aviv na noite de 8 de junho. Depois de tomarem um café no elegante distrito de Sarona, dois homens palestinos sacaram suas metralhadoras e abriram fogo contra quem estivesse pela frente. Foram quatro mortos e seis feridos, no primeiro atentado terrorista na cidade em dez anos. O que pouca gente sabe é que, em um vilarejo situado a apenas 22 quilômetros de onde saíram os atiradores, perto de Belém, dois sócios improváveis — um judeu e um palestino— exercem em silêncio o ofício de tecer compreensões onde ainda prevalecem o ódio e a desconfiança.

O rabino Hanan Schlezinger e o ativista palestino Ali Abu-Awad dirigem juntos a Roots, uma das organizações não-governamentais que buscam reduzir as tensões entre os dois povos, mesmo quando — como neste momento político — os políticos israelenses e palestinos estão longe de um entendimento. O nome Raízes, no plural, indica o propósito da ONG: aproximar dois povos que têm profundas ligações com a mesma terra. A ONG tem sede simples, à beira de uma estrada, perto de um assentamento de judeus na Cisjordânia. A partir dali, os integrantes da organização estimulam judeus e palestinos a falar sobre suas raízes uns aos outros.

Schlezinger nasceu nos Estados Unidos e, aos 18 anos, decidiu mudar-se para Israel e instalar-se em um assentamento entre Belém e Hebron, áreas atualmente administradas pelos palestinos. Existe muita violência na região e, como observa o rabino, cada um dos dois lados do conflito sempre atribui a violência a seus oponentes. Há dois anos, ele decidiu buscar algum tipo de aproximação com o outro lado. A partir de um diálogo no Facebook, foi convidado a visitar um palestino a poucos quilômetros de sua casa.

— Os amigos me perguntaram se eu estava louco de ir sozinho a esse encontro. Caminhei vinte minutos e meu coração palpitava muito. Mas, quando cheguei ao local marcado, vi 15 palestinos e 15 judeus conversando normalmente. Depois de ouvi-los me senti mal de me perceber a causa do sofrimento do outro. Percebi que a minha verdade era relativa e parcial e que os palestinos também têm a sua verdade, a sua humanidade, os seus direitos — relata.

Um dos palestinos que o recebeu era Ali Abu-Awad, um homem que teria todos os motivos para se manter longe de qualquer entendimento com os judeus. Cresceu como refugiado. Sua mãe foi militante da Fatah, facção que integrava a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Jogou muitas pedras em soldados israelenses na juventude. Em 2000, na segunda Intifada, teve um irmão assassinado por soldados judeus. Ele mesmo foi ferido e passou uma temporada na mesma prisão de sua mãe. Foi nesse momento que passou a estudar a história dos movimentos em favor da não violência.

— Quando se perde um irmão dessa forma, todo o tempo se pensa em vingança. A gente sente um ódio profundo que come a gente por dentro. Nada vai devolver o meu irmão, não há justiça. Mas comecei a ler o que disseram líderes como Martin Luther King sobre não violência e reconciliação — recorda Awad em tom emocionado, ainda que com o tempo tenha se acostumado a relatar sua vida a grupos estrangeiros que visitam a ONG.

No cotidiano da Roots, porém, há pouco espaço para clichês muitas vezes associados a movimentos pacifistas. Palavras não bastam, como advertem seus organizadores. Nem abraços desacompanhados de ações práticas. Para eles, não haverá paz entre judeus e palestinos se os dois povos não estiverem preparados. Por isso, a principal tarefa da organização é a de colocar judeus e palestinos frente a frente para conversar, mesmo que o diálogo muitas vezes seja bastante áspero.

— A situação está muito ruim, não há esperança. Nós temos que criar esperança — observa o rabino Schlezinger.

Se o momento não inspira mesmo otimismo em relação à paz, especialmente depois do ingresso de parlamentares de extrema direita no governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu, por outro lado integrantes de movimentos como o Roots argumentam que não há alternativa além de continuar seu trabalho quase invisível para a comunidade internacional.

— A paz não é uma opção, é algo urgente, pois não é vida o que temos aqui. Como homem de paz, digo que o judaísmo não é meu problema. Muitos muçulmanos salvaram judeus no Holocausto. Há raízes históricas do judaísmo aqui. O meu problema é que os judeus têm uma política de implantar o judaísmo sobre meus ombros. É preciso dizer ao mundo que deixe de estar por um lado ou pelo outro, mas que fique a favor de uma solução concreta — adverte Abu-Awad.

Cansados de guerra

Quando o irmão de Abu-Awad morreu, sua mãe encontrou consolo em outra importante organização, o Círculo de Pais, que reúne famílias de combatentes mortos no conflito. A ONG tem dois diretores, um israelense e um palestino. E promove encontros de chamados “grupos narrativos”, durante os quais médicos, advogados, diretores de escola ou simplesmente avôs e avós dos dois lados conversam uns com os outros sobre os seus próprios traumas, como o Holocausto da 2ª Guerra Mundial, do lado israelense, ou a Nakba, termo usado para designar o êxodo palestino de 1948.

O argentino Aarón Barnea, que chegou a Israel em 1958 movido pelo sonho de colaborar na construção do novo país, foi um dos fundadores do Círculo de Pais. No final dos anos 70, era representante na Bélgica da Histadrut, organização nacional de trabalhadores, e celebrou em família, já ampliada por um bebê de quatro meses, o acordo de paz celebrado entre Menahen Begin e o líder egípcio Anuar Sadat. “Nossos filhos não vão mais à guerra”, comemorou.

Vinte e um anos depois, porém, a retomada dos conflitos na região acabou levando a vida daquele filho que era um recém-nascido na Bélgica. Ele morreu em Beau Fort, no Líbano, cinco dias antes de completar seu serviço militar, levando no uniforme militar um símbolo pela paz, uma vez que era contra a presença israelense no Líbano. Na mesma época, o Círculo de Pais decide cruzar a fronteira e encontrar-se com famílias de palestinos mortos no conflito.

— A reconciliação entre israelenses e palestinos é possível, depois de 100 anos de conflitos. Quando nossas famílias se encontram, se abraçam e dizem: não queremos mais mortes, não queremos mais sacrifícios. Quando aparecemos juntos, com essa mensagem, isso tem um impacto muito grande — diz Barnea.

Vazio político

Os movimentos sociais pela paz ainda estão longe, porém, de alterar o cenário político na região. As negociações de paz estão suspensas e não há previsão de retomada. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Emanuel Narshon, os palestinos não querem neste momento estabelecer contato direto com o governo israelense, mas sim “buscar a comunidade internacional para pressionar Israel”. Em sua opinião, a “raiz do problema” está na falta de reconhecimento pelos palestinos da legitimidade do Estado de Israel.

— Hoje em dia fala-se muito de assentamentos judeus (como motivo para a falta de um acordo). Já havia conflito muito antes desses assentamentos. E a paz é mais importante que os assentamentos — afirma Narshon.

Segundo o consultor Moty Cristal, que já trabalhou diretamente com quatro primeiros ministros israelenses, menos de 100 mil colonos judeus teriam de deixar o território da Cisjordânia em um possível processo de paz. Mesmo assim, a seu ver, qualquer iniciativa nesse sentido é pouco provável no momento. Para o consultor, os últimos seis anos foram “um desastre para os valores liberais” em Israel, em consequência da crise no mundo árabe, que acabou fortalecendo a tendência conservadora.

— Não há paz e não vai haver paz. A resolução do conflito e o manejo do conflito são duas coisas bem diferentes — observa Cristal.

Esse movimento em direção ao conservadorismo tende a manter fechados os canais de entendimento entre israelenses e palestinos, pelo menos enquanto o quadro político nos dois lados permanecer inalterado. Integrante do Yesh Atid, partido de centro criado em 2012 para representar a classe média secular israelense e de oposição a Netanyahu, o deputado Ofer Schelach sorri ao ser questionado por que não se retomam as negociações com os palestinos e faz uma comparação entre o Brasil e Israel.

— Um amigo me contou que o anúncio dos voos no aeroporto de São Paulo é feito por uma voz macia, pausada e ritmada. Em Israel não é assim. Nessa região precisamos de líderes para dar um salto. Mas não é um salto pequeno. Tem que ser um grande salto.

Marcos Magalhães é jornalista, trabalha na Agência Senado e viajou a convite da embaixada de Israel em Brasília e da Histadrut, Federação Geral de Trabalhadores de Israel. E-mail: magmarcos@outlook.com

Foto: Jornalista Jessica Nunes

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