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Timor Leste: Semelhanças e Diferenças

Timor Leste: Semelhanças e Diferenças

Perpétua Almeida

A exemplo do Brasil, o Timor Leste foi uma colônia de exploração portuguesa. Lá como cá foi estabelecido um comércio predatório: explorar sem replantio.

Aqui, o Pau-Brasil e no Timor leste, o Sândalo. Culturalmente oprimidos e dominados pelos portugueses, ambos, herdamos o catolicismo e a língua portuguesa, falada atualmente por não mais que 25% da população.

Muito mais timorenses podiam estar falando o Português. Mas, durante a ocupação indonésia, o português foi banido dos espaços públicos, das escolas e também dos meios de comunicação.

O povo alegre e amante da liberdade guarda outras semelhanças com o brasileiro, o gosto musical que inclui, principalmente, dupla sertaneja e música “brega” e a insurgência contra os regimes totalitários.

Tropical como o Brasil, o Timor tem praia e até uma estátua parecida com o Cristo Redentor, chamada Cristo Rei que fica também no alto de um morro, de frente para o mar. É comum ouvir dos timorenses: “vem morar aqui, nos ajudar a construir nosso país, aqui é um pedacinho do Brasil, do Rio de Janeiro, olha aí o nosso Cristo Rei”.

Nas ruas simples e pobres da capital Dili, como tantas espalhadas pelo Brasil, casas gradeadas, outras tantas, na sua maioria com paredes de lona e ou folhas de alumínio. A insegurança por lá é típica dos lugares muito pobres ou com uma grande desigualdade social.

Foi essa a sensação que me recebeu, juntamente com a acolhida calorosa ao desembarcar em missão oficial para acompanhar as eleições parlamentares de 7 de julho de 2012, representando o Brasil, junto com a deputada Janete Pietá (PT) e representante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que atuaram como observadores internacionais.

Reforçamos com essa missão tantos nossos laços com o Timor Leste e marcamos nossa presença de maneira definitiva junto aos países de Língua Portuguesa (CPLP).

Divididos em oito equipes estivemos presentes em 17 subdistritos e observamos 74 centros de votação que correspondem a 132 Estações de Voto, para assim garantir a livre manifestação da população timorense em consonância com os princípios democráticos internacionais.

Saímos satisfeitos pela maturidade política demonstrada pelas diferentes forças partidárias, candidatos e ainda pelo elevado número de mulheres e jovens timorenses envolvidos no processo, que juntamente com diversas organizações da Sociedade Civil e seus observadores internos, auxiliaram a conduzir os 140 mil eleitores inscritos, com destaque especial para o profissionalismo da Polícia Nacional do Timor Leste (PNTL).

Nosso trabalho foi reconhecido pelas autoridades timorenses e destacado nos encontros oficiais, tanto pelos integrantes do governo como pelos membros de instituições de supervisão e administração eleitoral e líderes dos partidos políticos.

Os timorenses que ainda votam em cédulas de papel e em lista partidária, com apuração manual, manifestaram interesse em adquirir as urnas eletrônicas utilizadas no Brasil.

O resultado eleitoral deu vitória ao partido do atual primeiro ministro Xanana Gusmão, que lutou pela independência e foi o primeiro presidente da República.

Em segundo lugar, o partido de José Ramos Horta, ex-presidente da República e vencedor do prêmio Nobel da Paz. Estes dois partidos juntos totalizaram dois terços dos votos, assegurando a continuidade na linha dos líderes da independência.

Embora a maturidade política do país Timor não seja uma novidade para a CPLP, que acompanha todas as eleições no país, desde 1999, foi uma surpresa para mim que conhecia pouco do Timor Leste, além dos clichês de país mais jovem e o único país de língua portuguesa no extremo da Ásia, além da contradição de possuir um subsolo rico em petróleo e ser considerado um dos países mais pobres do mundo.

Estranhas e insuficientes informações que quantificam o grau de desenvolvimento de um povo exclusivamente por seu poder aquisitivo e não levam em consideração o arcabouço ético e a determinação de lutar sempre, como é o caso do povo timorense.

Este país com uma população de apenas 1 milhão e 100 mil habitantes (inferior à população da maioria das capitais brasileiras), que conseguiu reduzir a pobreza e crescer em média 10% ao ano, nos últimos anos, tem o povo como seu maior capital. E é ele que reage mais uma vez contra a tentativa da Austrália de transformar o inglês na língua oficial junto com o tétum, excluindo de vez o português.

Encarar o Timor foi como olhar para o Brasil a partir de outra perspectiva, a do sucesso dos nossos programas sociais e educacionais, apesar das nossas diferenças de tamanho. O Timor, menor que o estado de Sergipe, tem 46% de sua população adulta, analfabeta.

Mas, como o Brasil pós-ditadura é uma sociedade que tenta se erguer econômica, social e politicamente. A ansiedade deles por crescimento e desenvolvimento para melhorar as condições gerais da população é tocante porque mostra a resistência ímpar de um povo, massacrado física e culturalmente pela ditadura indonésia.

E é nesse aspecto que a área de Relações Exteriores, joga um papel fundamental, que vai além da mera solidariedade, embora não haja nenhum demérito nisso afinal, Timor Leste tem apoiado o Brasil em pleitos internacionais, como a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e na eleição vitoriosa do Diretor Geral da ONU para a agricultura e a alimentação, a FAO.

Nossa presença no Timor Leste, também não é exatamente nova. O diplomata Sérgio Vieira de Mello, que foi morto em um atentado em Bagdá em 2003, administrou o Timor durante a transição para a independência.

O embaixador do Brasil no Timor, Edson Monteiro, é um homem dedicado à causa de aproximar mais o Brasil daquele país. E acredito que agora o Brasil tem a grande oportunidade de tornar mais marcante sua presença nas questões internacionais, principalmente as pacíficas e voltadas para a reconstrução, como também é o caso do Haiti.

E, mesmo o Timor Leste não sendo exatamente um mercado aberto para os produtos brasileiros, existe um potencial que abre possibilidades para os dois países.

Nesse sentido, lembro aqui a existência de um Projeto de Lei no Congresso Nacional, de iniciativa do Deputado Haroldo Lima (PCdoB-BA), o qual “estabelece o Programa Nacional de Solidariedade e Apoio ao Timor Leste – PRONATIL”, que pode vir a ser um poderoso veículo de conjugação de esforços da sociedade civil, gerenciado pela Agência Brasileira de Cooperação Técnica e coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores.

Podemos intensificar os programas de cooperação técnica e institucional entre o Brasil e o Timor Leste, com benefícios para os dois países, uma vez que profissionais da área jurídica já atuam no Timor, auxiliando na construção do Ministério Público.

Assim como a bela parceria da nossa Câmara Federal que já tem hoje, nas dependências da casa, vários timorenses em treinamento para atuarem no Parlamento daquele país.

Com a independência, o Timor Leste está se tornando um enorme canteiro de obras. Há uma infinidade de pequenos negócios se estabelecendo no país, como locadoras de veículos, supermercados, comércio de eletroeletrônicos, hotéis e restaurantes, além de profissionais liberais e prestadores de serviços.

Um ambiente propício para a troca de experiências em várias áreas, incluindo a saúde, com sua vasta gama de necessidades, principalmente, no setor de epidemiologia e educação com a possibilidade de cursos de alfabetização e profissionalizantes por meio de módulos, a exemplo do que foi feito no Acre, graças à parceria com a TV Futura.

Em outras palavras, um campo fértil para o treinamento dos profissionais brasileiros, uma vez que a falta de quadros técnicos é um dos grandes problemas no Timor.

Sair da minha zona de conforto e enfrentar 25 horas de voo, 44 horas entre aeroportos e aeronaves para chegar ao Timor Leste, me obrigou a explorar muito mais que novos horizontes: visualizei oportunidades e me apaixonei por possibilidades.

Além de me encantar com gentileza dos timorenses fiz um resgate histórico, afinal não é todo dia que uma deputada comunista pode chegar a um lugar onde o comunismo foi reprimido a custa de vidas humanas, onde até a língua portuguesa foi banida para evitar reações dos comunistas, e ajudar a garantir o Estado Democrático de Direito.

O mundo dá voltas!

Viva o Timor! E viva a bela luta de resistências de seu povo!

Perpétua Almeida é deputada federal pelo PCdoB do Acre e presidenta da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados

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