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Terrorismo

Trégua e farsa

Marcelo Rech

No início de setembro, a organização terrorista Euskadi Ta Askatasuna (ETA), anunciou uma trégua por tempo indeterminado.

Especula-se que a organização esteja discutindo internamente a possibilidade de renunciar à luta armada.

O grupo usa a violência para justificar uma luta política pela independência do País Basco, uma das regiões mais ricas da Espanha.

O ETA nasce em 1959 e ao longo de 50 anos, suas ações resultaram em mais de 800 mortes.

Além do terrorismo propriamente dito, o ETA fortaleceu suas relações internacionais com organizações igualmente violentas como IRA, Farc, ELN, e outros.

Combatentes vivem hoje em países como Cuba e Venezuela onde são protegidos pelos governos locais.

Na última vez em que anunciou um cessar-fogo unilateral, o ETA conseguiu permanecer nove meses sem cometer um atentado.

O anúncio de setembro não sensibilizou àqueles que conhecem sua história e suas características.

No comunicado do grupo, em nenhum momento se menciona o termo “cessar fogo” ou desarme prévio, o que implica dizer que não há uma situação de trégua como alguns meios insistem em difundir.

Textualmente, o comunicado menciona “cesse das ações armadas ofensivas” o que não significa deixar de cometer atentados terroristas.

Por exemplo, o atentado que resultou na morte de um policial francês em março, foi considerado pelo ETA como uma ação armada defensiva.

Portanto, não há razões para se acreditar que o ETA esteja interessado em renunciar definitivamente à luta armada.

O que a organização pretende na realidade é ganhar tempo suficiente para se rearmar e se reorganizar.

O ETA passa por uma situação de debilidade por conta das operações policiais que foram intensificadas.

Não se pode ser ingênuo ao analisar o contexto do comunicado do ETA.

O grupo terrorista pretende ser deliberadamente ambíguo para que possa ser interpretado de acordo com o seu interesse pela chamada esquerda abertzale.

Cabe ressaltar, no entanto, que o comunicado do ETA não responde às expectativas dessa esquerda e nem as solicitações do partido Batasuna, braço político da organização.

Para ambos, a resolução do conflito basco passa pela implementação dos “Princípios Mitchell”.

Os “Princípios Mitchell” são constituídos por um conjunto de seis regras básicas formuladas pelo senador norte-americano, George Mitchell.

Esses princípios defendem o uso de meios exclusivamente pacíficos e democráticos para resolver questões políticas, através do desarmamento de todas as organizações paramilitares de forma verificável e por uma comissão independente.

Além disso, assegura que as prisões arbitrárias, torturas e “castigos” sejam suspensas e que políticas de prevenção sejam criadas e implementadas.

Avalia-se ainda que o ETA estaria disposto a aceitar a verificação independente sobre o cessar-fogo.

Para o governo espanhol, o comunicado do ETA carece de credibilidade.

No passado recente, a organização anunciou tréguas que ela própria rompeu sem justificativas ou explicações.

Neste sentido, para as autoridades espanholas não há um cessar-fogo vigente até que o ETA abandone definitivamente a violência.

Por conta da política antiterrorista, o ETA rachou.

O Batasuna quer o abandono da violência para poder aspirar ao poder através das eleições municipais de 2011.

Como ele foi ilegalizado pela Justiça, cogita-se a criação de um partido até 10 de dezembro.

Nos últimos anos, a cúpula etarra passou por mudanças significativas. Hoje, há menos resistência à estratégia política.

Contribui para essa mudança, a prisão de Arnaldo Otegi, dirigente político da esquerda basca.

Até então, os dirigentes políticos não temiam a prisão. Eles atuavam livremente sustentando os crimes cometidos pelo braço armado.

Agora, sabem que podem responder por esses atos.

Com isso, crescem as divisões internas que fragilizam a organização e fragmentam a luta independentista.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e Contra-insurgência. Escreveu duas teses sobre o ETA. E-mail: inforel@inforel.org

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