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Estados Unidos

Um presidente de destruição em massa

Marcelo Rech

Um misto de hipocrisia e incompetência, formam os pilares das duas guerras que os Estados Unidos travam no Oriente e na Ásia, Iraque e Afeganistão. Sob a alegação de oferecer uma democracia que nunca tiveram, os Estados Unidos rasgaram a Carta das Nações Unidas e unilateralmente, invadiram dois países soberanos, embora sob regimes políticos questionáveis.

O Afeganistão foi destroçado em resposta ao 11 de setembro, tragédia que entrou para a história graças à miopia dos serviços de inteligência e à incompetência do presidente George W. Bush, o ‘senhor da guerra’, que tirou Saddam do buraco, mas não encontrou as armas de destruição em massa, o grande argumento para justificar a morte de milhares de jovens norte-americanos.

Com um orçamento de US$ 445 bilhões para 2006, dos quais US$ 50 bilhões destinados à reconstrução de Iraque e Afeganistão, é nítida a incapacidade das Forças Armadas norte-americanas de operarem com o mínimo de eficácia em duas frentes.

Desta forma, os recursos repassados as operações militares e aos esforços de reconstrução dos dois países pode chegar aos US$ 361 bilhões. No entanto, a guerra tem-se alongado muito, o que gera desgastes internos e externos e só interessa aos adversários, que resistem à ocupação e contribuem para que o moral dos militares norte-americanos e das forças da coalizão sejam fortemente afetados.

No meio dessa confusão em que se tornou o Iraque, crescem os temores pelos atos terroristas cada vez mais ousados e intensos. O Brasil adotou uma postura incisiva contra a invasão no Oriente Médio, e um dos argumentos que sustentaram essa posição e irritou profundamente os Estados Unidos, foi justamente o temor de ser arrastado pela conjuntura e sofrer as conseqüências, como ocorreu com Espanha e Reino Unido.

Por outro lado, a tensão pelas ações terroristas em território norte-americano também crescem substancialmente. A população dos Estados Unidos questiona o papel dos seus militares sobretudo no Iraque, rejeitam as teses dos falcões e querem seus filhos de volta, vivos.
Como pudemos perceber a uma semana, o pânico tomou conta da sociedade e das autoridades norte-americanas.

Ninguém se sente seguro num país que permitiu a geração de centenas de homens-bomba. A população civil se sente refém de uma estratégia equivocada, agravada pelo explícito desrespeito aos direitos humanos como se observou nos episódios de Guantanamo e Abu Ghraib. Além disso, a situação das populações desses países apenas piorou.

No caso das mulheres, por exemplo, a democracia norte-americana não provocou nenhuma mudança importante e elas continuam sendo discriminadas e fortemente oprimidas. Para elas, a derrubada de Saddam ou do regime Telibã pouco ou nada representou.

Também não há como negar que a missão de libertação do Iraque está diretamente vinculada à violação dos direitos humanos e da liberdade dos iraquianos de professarem sua fé religiosa.

Para os Estados Unidos, não há distinção, todos são terroristas, em maior ou menor grau e a religiosidade precisa ser igualmente combatida, pois se trata de alimento para o fundamentalismo.

Enquanto isso, os estados islâmicos não aceitam a extensão da democracia norte-americana, imposta pela força. Em vez da simpatia dos islâmicos, o governo Bush contribui para fazer crescer os sentimentos anti-americanos que são extensivos à todos aqueles que decidiram por uma ou outra razão, abraçar as decisões de Washington.

Falta de perspectivas

Diante de um quadro absolutamente negativo, onde as comparações com o Vietnã, por exemplo, tornam-se inevitáveis, perde força o discurso belicista norte-americano e começam a surgir vozes mais duras dentro da coalizão, indicando que mais gente poderá abandonar a tese dos Estados Unidos para preservar sua própria integridade.

Para se ter uma pequena idéia dos estragos provocados pela gestão Bush, desde que assumiu, foram investidos US$ 7 bilhões na luta contra o terror e que não trouxe sequer a sensação de paz para os norte-americanos. Além disso, os Estados Unidos já não conseguem encontrar na sua indústria, os equipamentos necessários para a Defesa.

Pelo menos 73 empresas estrangeiras mantém contratos com o Pentágono e fornecem peças para 12 dos mais importantes sistemas de armas utilizados pelos Estados Unidos. O novo avião-espião do Exército, por exemplo, custará US$ 6 bilhões e usará a plataforma do jato ERJ 145 da Embraer, num consórcio com a Lockheed Martin. A Embraer fornece equipamentos para programas militares norte-americanos desde o ano passado.

Diante desse quadro, países da coalizão e forças políticas internas começam a suspeitar das vulnerabilidades das Forças Armadas dos Estados Unidos, uma vez que o país não tem condições de operar no Iraque e no Afeganistão, sem os contratos para compras militares firmados com 22 países [Alemanha, Áustria, Arábia Saudita, Bélgica, Brasil, Canadá, Cingapura, Coréia do Sul, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Israel, Itália, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Reino Unido, Rússia, Suécia, Kuwait e Turquia].

A dependência é tão grande que somente o Pentágono, em 2004, celebrou 1.914 contratos totalizando cerca de US$ 1,423 bilhão. Percebendo essa situação, a Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Representantes tenta aprovar uma lei obrigando que a compra de produtos militares seja feita apenas a partir da indústria bélica norte-americana.

Faltam recrutas

Para piorar um quadro que já não é nada bom, o Exército norte-americano começa a recrutar veteranos na formação dos contingentes mínimos para atuarem nas diversas frentes abertas no exterior. Com medo de serem enviados para o Iraque ou Afeganistão, os jovens norte-americanos recusam-se a se alistarem e a idade máxima que era de 35 anos, subiu para 42.

O alistamento nos Estados Unidos não é obrigatório o que representa dispor de mais dinheiro para fazer das Forças Armadas, uma oportunidade de emprego. Além disso, quem indicar um amigo para se engajar, também pode receber um bônus no final do mês. Para receber US$ 1 mil, o amigo precisa concluir os treinamentos básicos e adiantado.

Para os novos recrutas, o Pentágono oferece US$ 2.500 de luvas e outros US$ 25 mil para que possam adquirir moradia própria. Desde 2003, as Forças Armadas dos Estados Unidos enfrentam problemas para recrutarem e ainda são obrigadas a lidar com a crescente deserção.
Por isso, cerca de 100 mil homens da Reserva Especial de Prontidão estão sendo chamados. São homens de tropas inativas.

Em 12 meses, 6.545 foram convocados e 73 se recusaram a atender aos chamados. Outros 386 deixaram de ser convocados porque os endereços estão desatualizados. O Exército norte-americano acredita que o número de deserções tende a aumentar até o final do ano.
Neste caso, eles recebem uma espécie de baixa desonrosa como castigo. Em caso de uma guerra, poderiam ser executados.

O sentimento entre os norte-americanos é que Bush só decidiu atacar o Iraque para vingar os atentados sofridos pelo pai e para controlar os poços de petróleo do país. Por isso, George W. Bush tem sido aclamado em seu país como o “presidente de destruição em massa”.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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