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08/03/2006
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09/03/2006

Qualificação

Uma barafunda brasileira chamada Educação

Ucho Haddad

Quando o assunto é Educação, tentar entender a omissão do Estado é algo tão difícil quanto impossível é, para alguns, pronunciar determinadas e complexas palavras.

Com a proximidade da disputa presidencial, a Educação volta a ser objeto da exploração eleitoreira, como se tal assunto merecesse ser diuturnamente vilipendiado, como tem acontecido desde os idos de Pero Vaz de Caminha, o escriba oficial da esquadra de Cabral.

De lá para cá, ou seja, de 1.500 até hoje, a Educação brasileira vem sofrendo os mais desnecessários açoites, o que transforma o país numa espécie de oceano virtual de analfabetos, muitos dos quais mal sabem assinar o próprio nome ou ainda tomam o ônibus de volta para casa pela cor e não pelo que traz o letreiro de cada um.

Agora, com o anúncio de que a fórmula educacional brasileira irá mudar, os bastidores da política se agitam como se a roda tivesse sido inventada há pouco, ou, até mesmo, a pólvora fosse a mais quente das novidades.

O que temos visto em termos de Educação é algo tão primitivo, que, vez por outra, a desilusão bate como moldura de uma situação irreversível por conta dos interesses escusos de políticos de todos os matizes.

O Palácio do Planalto tem se valido do Fundo de Educação Básica – Fundeb, que, se aprovado no Senado, garantirá recursos para a readequação da Educação nos próximos dez anos.

Tal situação é uma dicotomia discursiva, pois até os neófitos no tema sabem que a universalização da Educação é algo tão necessário quanto antigo.

Quando, após pouco mais de dois séculos de estada no Brasil, os portugueses que aqui chegaram descobriram que melhor seria transferir a responsabilidade pela Educação às mais distintas ordens religiosas, foi criada a maior barafunda em termos de como educar um povo eminentemente desprovido de qualquer informação mais burilada e de conteúdo.

Assim, a partir de então, os colégios com nomes de santos dos mais distintos começaram a pipocar nas principais cidades brasileiras, sendo que muitos deles ainda resistem, até hoje, aos ventos da modernidade.

Com a globalização mundial, universalizar a educação tornou-se cada vez mais necessária, o que fez dos países que adotaram tal procedimento, antecipadamente, mais competitivos e dominantes.

A idéia de universalizar a Educação brasileira surgiu na década de 30, mas sua implementação, lenta e paquidérmica, começou a engatinhar na década de 60.

Na era plúmbea brasileira, como aconteceu em todos os regimes autoritários ao redor do mundo, nutrir o povo com ignorância e desinformação sempre foi a garantia da perpetuação da tirania, mesmo que a ditadura militar brasileira tenha feito do outrora Mobral um pano de fundo para o caos que tanto lhe convinha.

Quando o Brasil poderia ter deslanchado em termos de qualificação de sua mão-de-obra, especialmente no que tangia à formação, o país foi caminhando lenta e continuamente para trás, como se o regresso educacional fosse uma espécie de solução para o futuro.

Hoje, já no século XXI, os brasileiros sentem na pele as reticências do descaso oficial em relação à Educação, cuja solução nem de longe é o que pretende o governo do presidente Lula.

Dizer que o melhor a se fazer é começar de qualquer ponto e maneira pouco adianta, pois o tempo perdido requer, agora, um planejamento que tenha o preciosismo do acerto como bandeira principal.

Imaginar que a Educação brasileira irá mudar por conta do Fundeb é um devaneio irresponsável, pois o básico da educação há muito deixou de ser ensinado nas escolas públicas, se é que os atuais estabelecimentos que levam esta designação podem ser considerados como tal.

Falar em educação básica é o mesmo que gazetear sobre a grandiosidade do salário mínimo. Condizente fosse o mais baixo dos salários pagos no país, todos, políticos inclusos, estariam sendo remunerados com parcos R$ 350 mensais.

Algo de estranho e criminoso vem acontecendo nas coxias da Educação, que, a exemplo da Saúde, passou para a mão da iniciativa privada sem a obrigatoriedade de ser encarada como uma necessidade social e de desenvolvimento do país.

Para camuflar a caótica e quase irreversível situação, o governo Lula surgiu com a teoria populista da reserva de vagas em universidades privadas, cujos resultados das primeiras avaliações, pífios, trágicos e desanimadores, mostram que trata-se de mais um engodo político-eleitoreiro, como foi o natimorto programa Fome Zero.

É verdade que em algum momento é preciso dar início a uma mudança, mas não se pode desconsiderar o fato de que algumas gerações, literalmente perdidas em termos de formação e conhecimento, irão sofrer, num futuro bem próximo, algum tipo de dificuldade nas inclusões sociais e profissionais.

No contraponto, arrumar dinheiro para a educação básica, seja para investir na tão necessária universalização do ensino ou não, pouco irá resolver, pois outros tantos problemas atravancam o desenvolvimento do ensino brasileiro.

Quando a tese da universalização começou a engatinhar, para depois ser ceifada pelo autoritarismo militar, o conteúdo de alguns livros da década de 60 pode ser conferido atualmente pelo desempenho de uma fina camada da geração que, nos dias de hoje, dita o ritmo do motor de um continente chamado Brasil.

Finda a ditadura militar, a Educação, totalmente sem rumo, acabou tendo suas vísceras arrancadas pela baixa remuneração dos professores e pela nociva entrada de editoras estrangeiras no país.

Pode parecer uma utopia qualquer, mas com o avanço das comunicações – com especial destaque para o advento da Internet – os países dominantes passaram a adotar uma estratégia quase imperceptível de domínio e alienação.

Se controlar a informação transformou-se inesperadamente em algo intangível, controlar a formação passou a ser a única alternativa do imperialismo que alguns dos mais ricos e poderosos países encontraram como forma de dominar o resto do mundo.

Nos últimos tempos, a entrada no país de editoras didáticas estrangeiras ocorreu despercebidamente, o que comprometeu de sobremaneira a qualidade da formação dos nossos alunos.

Com sede de fazer negócios continuamente lucrativos, sem escapar da cartilha doutrinária do imperialismo, tais editoras passaram a dominar a produção dos principais livros adotados pela totalidade das escolas públicas e pela maioria das privadas.

Ou seja, nós brasileiros, sem direito à escolha do nível do próprio aprendizado, aprendemos apenas aquilo que interessa aos gringos. Porém, um antagonismo de situações mostra o caos em que se encontra o ensino básico no país.

Durante alguns anos, o Brasil foi tomado por lufadas descabidas, que faziam do futuro uma exclusividade de jogadores de futebol, mulheres rebolantes e pilotos de corrida.

Hoje, mais precisamente desde 2003, a semiformação – para não dizer completa falta de formação – passou a ser sinônimo de trampolim para o poder, tese turbinada com a chegada de Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, ao Palácio do Planalto.

No contraponto, mais uma vez, vale salientar uma medida adotada pela prefeitura de Criciúma, em Santa Catarina, que em breve multará as agências de publicidade responsáveis por propagandas que contenham erros gramaticais.

Mas neste exato ponto, o das multas por erros gramaticais, cabe a pergunta de quem deve ser efetivamente penalizado pela transgressão do mínimo aceitável em termos da língua portuguesa.

O mais preocupante nessa história toda, e que poucos têm conhecimento, é que um acordo bisonho e camuflado com o Fundo Monetário Internacional, o famigerado FMI, obriga o Brasil a formar mão-de-obra com conhecimento limitado até o segundo grau.

Assim, se multado alguém há de ser, que surja o primeiro banqueiro, por favor. Não bastasse a péssima qualidade do ensino das últimas décadas, a indústria da Educação, como não poderia deixar de ser, passou para a condição de um dos mais lucrativos negócios dos últimos tem

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