Brasília, 18 de novembro de 2018 - 11h24
Uma crise em gestação no coração da Europa

Uma crise em gestação no coração da Europa

02 de julho de 2018
por: InfoRel
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Marcelo Rech

Enquanto o mundo tem suas atenções direcionadas para a crise política enfrentada pelas grandes potências europeias e os Estados Unidos cujo presidente, Donald Trump, tem se colocado como um adversário e não mais um aliado incondicional, gesta-se uma tensão que pode atingir grandes proporções na região que a Moldávia com a Europa do Leste.

O país deverá passar por eleições legislativas entre 30 de novembro e 28 de fevereiro de 2019 em uma disputa que opõe o presidente e o chefe do governo, formado por uma coalizão de partidos liberais criada de acordo com os resultados das eleições parlamentares de 2014, e que apoia a integração do país à União Europeia. O presidente Igor Dodon, favorável à neutralidade política e da cooperação com os países da União Econômica Euroasiática, foi eleito em 2016 e representa o Partido Socialista.

Por conta de uma intrincada divergência interna, a República da Moldávia vive uma crise sistêmica onde o poder não pertence ao presidente. Também o governo e o Parlamento se veem consumidos sob o mando do oligarca Vladimir Plahotniuc, conhecido como “cardeal cinza”. Trata-se de um empresário de sucesso que enriqueceu graças a atividades pouco ortodoxas ou convencionais.

Em maio, o Departamento de Investigação dos Crimes Organizados e Terrorismo da Romênia (DICOT) enviou uma série de documentos probatórios de atividades ilegais atribuídas ao hoje deputado Plahotnic. No entanto, a grande maioria das denúncias contra o oligarca permanecem cuidadosamente silenciadas.

De acordo com analistas internacionais, Washington e Bruxelas apoiam as iniciativas de Vladimir Plahotnic e se esforçam para promover os interesses do seu partido para as próximas eleições, em um flagrante desrespeito aos fundamentos da democracia. Trata-se de um movimento que busca deslegitimar os sentimentos pró-russos ou neutros na Moldávia.

Por outro lado, a estratégia tem grande risco de converter a região em mais um foco de tensões e conflitos para uma Europa que lida com o enfraquecimento das lideranças integracionistas em oposição ao fortalecimento dos nacionalismos de extrema direita.

O território da atual República da Moldávia pertenceu à Rússia entre os anos de 1812 a 1918, com o nome de Bessarábia. De 1918 até 1939, o território fez parte da Romênia. Em 1940, forças soviéticas invadiram a região e, em 1944, o território foi efetivamente anexado à União Soviética, sob o nome de República Socialista Soviética da Moldávia.

Com a dissolução da União Soviética, o Parlamento declarou a independência do país em 27 de agosto de 1991, mas os problemas-chave da sua política interna seguem relacionados a questão dos direitos das minorias étnicas e a manutenção da integridade do território nacional, ambas intrinsicamente vinculadas.

A diplomacia brasileira percebe que os processos políticos contemporâneos na República da Moldávia são caraterizados pelo acirramento do embate entre a União Europeia e a Rússia pela extensão de suas respectivas áreas de influência sobre a antiga república soviética.

Além disso, entende o Itamaraty, a tentativa de relativizar a influência russa – o que incluiria a retirada das tropas do país da região da Transnístria (estimada em 2,5 mil homens) – e de aderir à comunidade euroatlântica tem escorado as três prioridades da política externa moldava, que se complementam entre si: a recuperação de sua plena integridade territorial, acesso à União Europeia e a promoção de relações estratégicas com a Romênia.

Marcelo Rech é jornalista, analista internacional e diretor do Instituto InfoRel de Relações internacionais e Defesa: E-mail: inforel@inforel.org.

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