Opinião

Relações Internacionais
17/08/2005
Forças Armadas
17/08/2005

Terrorismo

Uma obsessão chamada Tríplice Fronteira

Marcelo Rech

O governo dos Estados Unidos insiste em fechar o cerco na região da chamada Tríplice Fronteira. Para Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa norte-americano, o dinheiro que financia o terrorismo islâmico sai exatamente da confluência fronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai. Não por outra razão, pretende manter seus soldados na região, firmando cooperação militar ou humanitária.

A nomenclatura é a que menos importa. O que vale é que os Estados Unidos, além dos agentes de inteligência, tenham forças especiais na região e possam entrar em ação quando o governo norte-americano achar melhor.

Para os Estados Unidos, os governos desses três países erram por não aceitar uma cooperação contundente em relação aos islâmicos que vivem principalmente no Paraguai.

Além de Rumsfeld, o subsecretário adjunto do Tesouro, dos Estados Unidos, Daniel Glaser, assegura que o tema não é novo e que é preciso estancar as fontes de recursos dos extremistas.

Ele busca o apoio do governo argentino e considera estratégico o compromisso do governo de Néstor Kirchner e do Congresso, na luta contra o terror, desde o ponto de vista norte-americano.

No Brasil, o tema também preocupa, embora tenha sido diluído no emaranhado da crise política. Entretanto, não há sinais de que os militares brasileiros estejam dispostos a conversar sobre uma cooperação específica para a Tríplice Fronteira.

Inclusive, no governo de Fernando Henrique, o governo brasileiro teria checado informações do Departamento de Estado dos Estados Unidos e concluiu que não havia ameaça evidente.

Além disso, o Brasil teme que a região seja envolvida no espectro da luta contra o terror desenvolvida pelo governo Bush e que se tem mostrado absolutamente desastrada, exportando o terror para os países que embarcam nessa tese.

Não só não conteve o terrorismo, como tem sido contestada internamente. Não é por outra razão que as famílias norte-americanas começam a negar seus filhos para as Forças Armadas do país.

Por essa razão, os Estados Unidos mudaram a estratégia e tentam negociar bilateralmente com os países da região, o que pode acabar resultando na formação de uma espécie de cordão sanitário contra o terrorismo, indo desde a ponta do Chile até a Guiana Francesa. Uma espécie de Plano Colômbia sul-americano.

Enquanto Rumsfeld tentou, em vão, buscar apoio para as teses dos falcões nos fóruns multilaterais como a Cúpula de Ministros de Defesa das Américas e na Organização dos Estados Americanos, fracassou. Tentou até mesmo persuadir o ministro José Alencar, afirmando que a usina de Itaipu poderia ser alvo dos terroristas.

Agora, Rumsfeld fala com presidentes e parlamentares influentes. Tenta mostrar que o demônio existe e que os Estados Unidos não vão tolerar qualquer ameaça gestada na América do Sul. Não é à toa que o conceito de soberania para os Estados Unidos nunca é o mesmo para o resto do mundo, sobretudo para os países pobres da América Latina.

Donald Rumsfeld esteve com o presidente paraguaio Nicanor Duarte, que reagiu com energia à suposta autorização para a construção de uma base militar norte-americana no seu país. Trata-se de tergiversar sobre a questão. As principias agências como CIA, NSA e o FBI, já transitam há tempos no Paraguai sem problemas.

Desta vez, o Secretário de Defesa norte-americano tratou de lembrar que Assad Ahmad Barakat, foi indentificado como um dos integrantes extra-territoriais do Hezbollah na Tríplice Fronteira. Para os Estados Unidos, Barakat é um personagem chave no financiamento do terrorismo internacional.

Ele é suspeito de enviar dinheiro da região para o Líbano e Irã. Esses recursos, segundo relatos obtidos pelo InfoRel, chegariam aos grupos extremistas na Palestina e no Afeganistão, e a células independentes da Al Qaeda que operam na Europa, sobretudo no Reino Unido, Itália, França e Espanha.

De fato, uma forma eficaz de combate ao terrorismo passa pelo asfixiamento financeiro, que inibe a compra de armas e bombas no mercado negro, muitas delas com prazo de validade exaurindo e originárias da indústria bélica norte-americana.

Mas, o problema não é tão simples como sugere uma primeira impressão. É preciso comprometimento com uma política de cooperação internacional que não provoque danos à soberania das nações.

Quando os Estados Unidos afirmam estarem dispostos a trabalharem em conjunto com os governos dos países da região, com “iniciativas inovadoras”, é preciso muita reflexão.

O que eles chamam de inovação nada mais é que dinheiro em abundância em troca de uma intervenção branca, onde definem quem é terrorista e quem não é, como se estivessem no quintal de suas casas escolhendo o porco mais gordo para a ceia.

Não fosse assim, as chamadas Unidades de Transparência Comercial que estão sendo criadas em vários países, já teriam apresentado resultados, pois a essência dessas unidades está na troca de informações comerciais que permitam identificar o dinheiro que é lavado para ser usado “legalmente” no treinamento e compra de equipamentos para os grupos terroristas.

Ocorre que os Estados Unidos impõem restrições quanto a prestarem informações sobre suas empresas. O querem é que a América do Sul os mantenha informados sobre o que fazemos e o que se passa por aqui, como se cada país sul-americano fosse apenas mais uma estrelinha na bandeira norte-americana.

Daniel Glaser já esteve com funcionários do Banco Central argentino, dos ministérios da Justiça, Relações Exteriores e Direitos Humanos, e com parlamentares de vários partidos e tendências.

Nesta quarta-feira, tem encontro com o ministro da Economia Roberto Lavagna e depois segue para Foz do Iguaçu [PR], onde participa de um seminário sobre a Tríplice Fronteira.

Para variar, fez questão de tratar a Argentina como “aliada estratégica” e “sócio muito valioso”. O mesmo já foi dito em outros países e será dito no Brasil e no Paraguai. O objetivo central desse esforço é limpar a zona da Tríplice Fronteira e fazer o serviço que os países da região, para os norte-americanos, não pretendem realizar.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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