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Vantagens e desvantagens de intervir militarmente

Vantagens e desvantagens de intervir militarmente no Irã

Alexandre Reis Rodrigues

A possibilidade de os EUA intervirem militarmente do Irã continua sob intenso debate em Washington, não obstante, pelo menos para o curto prazo, se apresente como uma
hipótese pouco plausível. O tema voltou à ribalta com a recente divulgação de um documento produzido pela organização não-governamental “Iran Project” que procura apresentar uma análise factual dos custos e benefícios de uma possível intervenção militar.

É um documento endossado por 32 personalidades da vida política norte-americana, na sua maioria, individualidades que tiveram elevadas responsabilidades na administração pública e militar.

Segundo os promotores desta iniciativa, o documento foi elaborado para contribuir para o debate da questão iraniana na opinião pública norte-americana, em especial a possibilidade de uso da força militar, caso o programa nuclear não seja abandonado.

No entanto, deliberadamente ou não, o documento terá repercussões noutros setores e órgãos de decisão, dentro e fora dos EUA. Aliás, é difícil imaginar que não tenha tido também, senão mesmo principalmente, este segundo propósito.

Muito embora se frise que se trata apenas de uma análise objetiva do que é necessário ter presente no respectivo processo de decisão, sem apresentar conclusões nem recomendações, a verdade é que elas estão lá de uma forma que não deixa margens para qualquer dúvida.

São duas mensagens principais que o documento procura fazer passar: 1 – Os EUA têm meios militares para causar vários tipos de contrariedades sérias ao programa nuclear iraniano, mas não poderão garantir a eliminação total da capacidade de Teerã continuar o programa.

Poderão, quando muito, provocar um atraso na marcha do programa na ordem dos quatro anos; 2 – Israel não tem meios para sozinho conseguir no Irã um sucesso idêntico ao que teve no Iraque e na Síria. Poderá atrasar o programa cerca de dois anos.

Naturalmente, a decisão de intervenção militar pressupõe clarificar previamente qual o objetivo a atingir.

Uma coisa é atrasar o programa, outra muito diferente será provocar uma mudança de regime ou obrigar o regime a capitular perante a exigência dos EUA. Na segunda e terceira hipóteses, principalmente na segunda, seria necessário colocar tropas no terreno e definir, antecipadamente, uma estratégia de saída, um passo que os EUA, em anteriores situações, têm falhado.

Comparando a realidade iraniana com as que se verificavam no Iraque e no Afeganistão, o estudo refere que, globalmente, o esforço militar exigido seria superior ao que foi feito nestes dois países durante a última década.

Mesmo o objetivo mais simples de provocar um atraso relevante (quatro anos) exige meios maciços de ataque aéreo, com a prévia supressão de defesas antiaéreas, mísseis balísticos a partir de plataformas navais (em princípio, começando, por aqui), colocação de forças de operações especiais no terreno, para apoio e validação das ações, e ataques cibernéticos.

Obviamente, Israel não tem esta panóplia completa de meios, em especial, os bombardeiros “stealth” B-2A com bombas capazes de atingir instalações subterrâneas (“bunker busting bombs” de 30000 lb), como é o caso das facilidades existente em Fordow.

Para além dos efeitos materiais que um ataque desta natureza sobre as instalações nucleares e militares, o documento refere mais dois benefícios desta linha de ação: o reforço, que daí resultaria, para a credibilidade dos EUA quanto à sua determinação de não deixar “no ar” as advertências feitas e o efeito positivo no campo do combate à proliferação de armamento de destruição maciça, dissuadindo possíveis futuros candidatos.

A lista dos impactos negativos é bastante mais significativa: elevadíssimo custo financeiro da operação; risco de prováveis retaliações, quer diretamente, quer indiretamente (através de “terceiros, por exemplo, o Hezbollah) e tanto sobre os EUA (sobretudo nas facilidades que têm na região) como sobre Israel; instabilidade regional; possível quebra da solidariedade internacional formada à volta do consenso para a imposição de sanções e manutenção do embargo de armas; perigo de o ataque fazer aumentar a motivação iraniana quanto a ter um arsenal nuclear; regresso dos EUA à imagem de país pronto em usar a sua imbatível superioridade militar, sem esgotar outras alternativas.

Afinal, não eram precisas conclusões nem recomendações. O documento é suficientemente claro sobre o ceticismo com que os seus subscritores encaram uma intervenção militar no Irã, enquanto, ao mesmo tempo, desencorajam Israel em tentar seguir por esse caminho.

Aliás, é dito que, no essencial, é apoiada a orientação seguida pelo presidente Obama: continuar a exercer pressão sobre Teerã, sem prejuízo de manter em aberto a hipótese de uma solução política e sem pôr de parte o recurso final ao uso de força militar.

Não trazendo nada de substancialmente novo, não resta senão concluir que o destinatário principal da mensagem é, com certeza, o primeiro-ministro de Israel para que aguarde pacientemente pelo efeito das sanções.

É sobre este tema específico que Richard Haass, presidente do Council on Foreign Affairs, veio agora defender que chegou a altura de fazer um teste final ao Irã.

A ideia é aproveitar a rápida e grave deterioração econômica em que o país se encontra, em resultado das sanções, para o levar, finalmente, a optar entre salvar o regime ou salvar o programa nuclear, tendo presente, como mostrou a “Primavera Árabe” que, no Médio Oriente, nenhum regime está imune a um descontentamento generalizado.

A estratégia a seguir – recomenda Haass – será apresentar a Teerã um pacote de medidas no campo nuclear, negociando um teto não tão alto quanto o que Teerã visa nem tão baixo quanto os EUA desejariam, isto é, com algumas concessões mas também com sérias restrições no enriquecimento de urânio e aceitação de inspeções credíveis.

Se Teerã não aceitar a proposta e o respectivo prazo limite, malgrado as dificuldades porque está a passar, então fica claro que uma intervenção militar pode tornar-se inevitável, a prazo.

Alexandre Reis Rodrigues é vice-almirante reformado da Marinha de Portugal e Secretário-Geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Foi vice-chefe do Estado-Maior da Armada e é membro do Conselho Consultivo da Revista RI – Relações Internacionais; do Conselho Editorial da Revista Segurança e Defesa, membro do Conselho Geral do IEEI e do Conselho Científico do Centro de Investigação de Segurança e Defesa do IESM. E-mail: reisrodrigues@netcabo.pt

 

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