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Vladimir Padrino López, o homem para a transição na Venezuela

Vladimir Padrino López, o homem para a transição na Venezuela

30 de março de 2019 - 09:53:57
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Marcelo Rech

Há algumas semanas, publiquei uma análise afirmando que o fim do regime chavista não chegaria com a queda de Nicolás Maduro. Em outro texto, disse que a equação para Juan Guaidó, ao buscar o apoio chinês e russo para derrubar o presidente venezuelano, não seria nada simples, pois tanto Pequim quanto Moscou, não abrem mão de garantias e não aceitam perder o que investiram na Venezuela.

Tampouco irão aceitar que os Estados Unidos passem a controlar o petróleo venezuelano, como o fazem no Iraque, por exemplo.

Estes dois cenários tornam uma futura transição muito complicada. Não será Juan Guaidó e a oposição venezuelana, os que terão condições de levar adiante um processo que pretenda recolocar a Venezuela nos trilhos de uma democracia factível e sólida.

Será necessário que, desde dentro do próprio regime, seja alçado um nome capaz de exercer controle e influência. Uma transição séria e responsável não irá durar menos que seis anos, período de um mandato presidencial naquele país.

Este nome, hoje, seria o do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. E as conversas em torno de um projeto de transição política que contemple elevá-lo à condição de líder, já tiveram início. Países como Brasil e Colômbia, foram consultados. Os Estados Unidos certamente já o sabem e avaliam.

Em 11 de setembro de 2018, Padrino López, após quase três anos de tentativas, aceitou dialogar com o Brasil. O palco escolhido foi Puerto Ordáz, na fronteira entre os dois países. Não por acaso, o diálogo só foi possível porque do outro lado estava também um general, Joaquim Silva e Luna, então ministro da Defesa.

O encontro selou, entre outras coisas, o canal de comunicação entre as Forças Armadas do Brasil e da Venezuela. Até então, os dois países simplesmente não dispunham de nenhum tipo de contato, nem mesmo informal. Silva e Luna arrancou ainda a promessa do colega, de que a energia de Roraima, fornecida pela usina venezuelana de Guri, não seria desligada em momento algum. Uma promessa de militar a militar.

Desde então, a figura de Padrino López entrou definitivamente no radar dos militares brasileiros. Avessos a qualquer aventura bélica, os militares do Brasil advogam por uma saída negociada, capaz de preservar a região como zona de paz, algo que custou décadas de aproximação.

O ministro da Defesa, responde pela Força Armada Nacional da República Bolivariana, a principal força de defesa do país e que conta com um efetivo de 123 mil militares. Além disso, trata-se de um dos maiores e mais bem armados exércitos da região, com um orçamento anual de cerca de US$ 4,5 bilhões.

Não é novidade para ninguém que os militares controlam todas as empresas estratégicas do país. Implementar uma transição que simplesmente os afaste, não seria sequer razoável. É preciso alguém que tenha condições de fazê-lo paulatinamente. Alguém que não promova uma “caça às bruxas”, mas que reúna habilidade e força capazes de, gradualmente, reacomodar os diferentes interesses. Os militares não aceitarão ser responsabilizados pelos excessos.

Portanto, aqueles que avaliam seriamente a situação venezuelana, não podem ignorar os fatos e, muito menos, o diálogo com quem pode, efetivamente, evitar que a Venezuela mergulhe em uma guerra civil. O caos e o banho de sangue que muitos querem, não guarda relação com a necessidade dos venezuelanos.

A história mostra que, mesmo nas piores ditaduras, os processos de transição contemplaram alternativas como a que, hoje, inclui Padrino López como nome à sucessão de Nicolás Maduro, por meio de eleições negociadas.

Marcelo Rech, 48, é jornalista, editor do InfoRel, e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados e Diplomacia de Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.