Após 16 anos, Angela Merkel, a líder que transformou a Alemanha em motor econômico da Europa, sai de cena deixando uma Europa órfã de uma liderança com credibilidade. Com seu estilo duro e, ao mesmo tempo, pragmático, ela chamou para si a missão de conduzir uma Europa em direção à unidade.

Ao pendurar as chuteiras, Merkel poderá assistir ao esfacelamento do bloco em pouco tempo. Sem sua liderança, a Europa terá de lidar com a recuperação econômica pós-pandemia, o fortalecimento dos partidos nacionalistas, e a resistência, cada vez maior, à imigração e ao envolvimento da Europa em conflitos geográfica e culturalmente distantes.

Quem, hoje, poderia liderar o Velho Continente? Quem teria condições de fazer frente às ameaças nacionalistas que questionam, de forma cada vez mais contundente, um projeto que não atende aos anseios de uma parcela significativamente importante dos europeus?

Essa liderança não existe. Hoje, a Europa não conta com nenhum nome capaz de exercer a influência de Merkel. Além disso, as autoridades que hoje conduzem o bloco, tampouco disfrutam de semelhante capacidade. Qualquer que seja o líder a formar governo na Alemanha, é praticamente certo que sua prioridade estará voltada para os assuntos domésticos.

Além disso, China e Rússia, saberão tirar proveito dessa vulnerabilidade e da ausência dos EUA como líder da Aliança Atlântica. E a saída de cena de Angela Merkel ocorre logo após mais um desastre geopolítico com a retirada das tropas norte-americanas e europeias do Afeganistão, agora tomado pelo Talibã.

Após 20 anos, os EUA e a OTAN abandonaram covardemente os afegãos à própria sorte, como, aliás, já haviam feito em outros lugares no passado. Seguramente, será cada vez mais difícil confiar em ambos. E será, ainda mais complicado, ter de lidar com lideranças patéticas mais preocupadas com seus próprios projetos de poder.

Marcelo Rech

Imagem: Reuters / Michele Tantussi