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09/03/2005
Instabilidade política
09/03/2005

Defesa Nacional

Cristovam elogia condução da Política Externa

O senador Cristovam Buarque é engenheiro mecânico, doutor em Economia e um especialista em Educação. Foi reitor da Universidade de Brasília e governador do Distrito Federal, onde implantou uma série de programas como o Bolsa-Escola, copiado em vários estados e países.

É membro do Instituto de Educação da Unesco e já escreveu mais de 20 livros. Também é o fundador da ONG Missão Criança criada para difundir o Bolsa-Escola mundo afora.

Foi ministro da Educação do governo Lula, do qual foi demitido por telefone quando estava em Lisboa, participando de um evento internacional. Eleito por unanimidade para presidir uma das mais importantes comissões do Senado, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, quer trabalhar com transparência e obstinação na discussão dos temas que reforçam a imagem internacional do Brasil.

Enquanto escrevia um artigo para a Folha de São Paulo, Cristovam Buarque deu uma pausa para conversar com o InfoRel sobre esse desafio. Acompanhe.

Senador, qual deve ser a prioridade da política externa brasileira para 2005?

O principal desafio é mantermos boas relações com os Estados Unidos, que não podemos perder, ao mesmo tempo em que transformamos o Brasil em um líder da população pobre do mundo inteiro. Esse é o grande desafio. Para fazer frente a esse desafio, eu tenho a impressão que o caminho é seguir o que o ministro Celso Amorim e o presidente Lula estão fazendo: manter o diálogo com todos os setores, em todas as dimensões do planeta.

E como o Legislativo pode ajudar o país nesse sentido?

A primeira coisa é fazer no Brasil, o que os Estados Unidos conseguem fazer. Eles chamam o bipartidarismo das grandes causas. Oposição e governo têm de brigar em tudo, menos naquilo que seja do interesse comum do país. Política externa é um dos setores que pode permitir essa unidade. Para isso, é preciso que governo e Congresso dialoguem mais. Aí, é preciso que a oposição entenda que há interesses que estão acima do partidarismo. Mas, é preciso também que o governo entenda que não basta formular as propostas e mandar para o Congresso. Tem que ouvir tem que convidar, tem que atender. O presidente da República precisa, nas suas viagens internacionais, levar gente da oposição. Para que essas pessoas da oposição percebam o prestígio que tem o presidente Lula e que esse prestígio é bom para o Brasil inteiro. Ao mesmo tempo, é preciso nessa política de ‘despartidarizar’, que a política externa não seja vista como promoção para nós do PT ou do governo. Nós não podemos pedir à oposição que aceite o que a gente faz se politicamente só o governo se beneficia. Se a política for dita e mostrada como uma coisa só do presidente Lula, não há como conseguir o apoio dos partidos da oposição. Se a gente consegue formular um conjunto de políticas para os próximos anos ou para os próximos governos continuarem, envolvendo a oposição, e mostrando ao Brasil que este é o resultado do trabalho de todos os partidos e não apenas dos partidos que estão no governo, eu acho que a gente pode construir uma política suprapartidária para o exterior.

O senhor acredita que existe consciência no Brasil do que sejam as Relações Exteriores e a Defesa Nacional?

O Brasil é um país muito provinciano. Nós tendemos a não dar importância à política externa ou a ter uma política externa submissa, como sempre tivemos, de repetir aqui, o que os países hegemônicos decidam. Houve um tempo em que foi a Inglaterra, hoje são os Estados Unidos. Esse provincianismo faz com que os políticos brasileiros se voltem muito para dentro. Eles sejam inibidos em relação ao exterior. É muito diferente de outros países, que são agressivos, participantes, mesmo pequenos, aonde sua liderança fale idiomas. Nós somos um país para dentro e submisso. No que se refere à Defesa Nacional, cometemos dois equívocos: um é continuar tratando política de Defesa Nacional como uma coisa do regime militar. A Defesa Nacional é uma coisa fundamental na democracia. Não é uma coisa dos militares. Os militares têm uma vocação maior para se preocuparem com isso por que é a função deles, mas não são apenas eles. Além disso, cometemos um erro de achar que Defesa Nacional é uma questão militar, quando não é. Não há Defesa Nacional num país que registra índices altos de analfabetismo. Não há Defesa Nacional num país que não tenha uma boa educação para o seu povo. Não há país nacional com desigualdade social, onde apenas alguns se sentem parte. Não há Defesa Nacional quando o desenvolvimento de um país beneficia só uma parte do povo. A parte que foi relegada se pergunta por que fazer parte desse país? No Nordeste já houve muitos movimentos separatistas, e no Sul, mais ainda. Porque se sentem excluídos desse desenvolvimento que ficou muito concentrado em torno de São Paulo. Então, é por isso que não se dá tanta importância às Relações Exteriores e à Defesa Nacional. Por um lado o provincianismo e por outro lado, a visão de uma Defesa Nacional eminentemente militar.

Na qualidade de acadêmico, o senhor é um otimista em relação aos internacionalistas que estão sendo formados nas nossas universidades e sobre as mudanças que o Itamaraty está implantando na formação dos diplomatas?

Eu vejo com muito otimismo. Eu acho que o Brasil está crescendo no que se refere a sua participação no exterior. A gente tem de reconhecer o mérito de Fernando Henrique Cardoso nisso e o salto que o presidente Lula está dando. Eu acho uma sorte grande termos esses dois presidentes, um sucedendo o outro. Quanto ao internacionalismo, o Brasil pode vir a ser o país que vai formular uma estratégia fundamental para o futuro, que é o fato de que a globalização fez com que a democracia, como ela está aí, seja incapaz de servir à construção de um novo mundo. Por que democracia foi inventada para países, não para o mundo. Em um tempo em que o presidente de um país, só tinha poder de influir no próprio país. Hoje não é mais assim. Hoje, qualquer presidente, de qualquer país do mundo, pode tomar decisões que repercutirão no mundo inteiro. O menor país do mundo pode autorizar a abertura de bancos para a lavagem de dinheiro, pode autorizar a produção de drogas, a atuação de grupos terroristas. Há alguns anos, se um país autorizasse um grupo terrorista, o terrorismo seria feito naquele país. Dentro de mais dez, quinze ou trinta anos, os terroristas poderão utilizar bombas nucleares, armas biológicas. Imagine o presidente de um país autorizar um laboratório para a produção de armas biológicas. Ou um país de porte médio fazer centrais nucleares sem o cuidado devido. O presidente dos Estados Unidos tem o poder de aquecer o planeta. Democraticamente! Se fizer um plebiscito, os ecologistas não ganham. Por que o eleitor pensa no curto prazo. Ele pensa o emprego dele e não o aquecimento do planeta daqui a 20 anos, 50, 100 anos. E o político democrático pensa na próxima eleição. Ele não pensa na próxima geração. E ele só pensa nos seus eleitores, ele não pensa nos habitantes do mundo inteiro. Se o político pensar nos habitantes do mundo inteiro, e na próxima geração, ele não ganha uma eleição. Então, o Brasil pode ser o lugar onde a gente pode começar a formular idéias nesse sentido, que eu venho chamando de ‘a política da Terra como um grande condomínio’. Um condomínio aonde cada um é soberano, mas não pode fazer aquilo que repercuta no vizinho. Hoje, a globalização vai exigir uma democracia que continuará nacional, mas os seus eleitores nacionais estejam subordinados a certos valores éticos internacionais.

Há muito tempo se discute uma participação mais efetiva dos parlamentares na celebração de acordos internacionais, algo que facilitaria a ratificação pelo Congresso. Isso é possível?

Acho sim, sem dúvida alguma e é o que eu falei há pouco. O governo precisa ouvir mais o

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