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30/03/2005
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30/03/2005

Cúpula de Ciudad Guayana

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Venezuela

Sabe que a minha idéia é que o Brasil não será dependente de petróleo durante muito tempo, porque estamos apostando na nossa […] de diesel.

Primeiro, Hugo Chávez, gostaria de uma vez mais agradecer pela forma sempre carinhosa com que somos recebidos na Venezuela. Em segundo lugar, quero agradecer ao presidente Uribe que, de pronto, aceitou a idéia de fazer uma reunião que, em princípio, era na fronteira e depois foi transferida para esta cidade.

E, sobretudo, quero dizer que estamos felizes de estar aqui e da presença do Presidente da Espanha, um companheiro que, apesar de ser muito jovem, das causas nobres do mundo contemporâneo, que é o nosso companheiro Zapatero.

E é importante que ele esteja visitando a Venezuela e que esteja exatamente na data em que estamos fazendo esta reunião, para que o presidente Zapatero tenha, quando voltar para a Espanha, bastante certeza de que esta reunião representa, penso que para mim, para o Brasil, para a Venezuela e para a Colômbia, mais que uma reunião que nós usualmente fazemos no nosso Continente.

Eu acredito que nesses dois anos nós conseguimos um avanço, eu diria extraordinário, nas relações entre nossos países. Eu digo isso porque durante toda a minha militância política, seja como dirigente sindical, seja como presidente de um partido político, nos últimos 20 anos eu visitei muito mais a Espanha, a Alemanha, a França, a Inglaterra, o Canadá, a Suécia, do que visitei qualquer país da América do Sul.

Nós não tínhamos o hábito de ter relações com a América do Sul, ou seja, nós agíamos como se a América do Sul fosse um continente totalmente voltado aos Estados Unidos e à União Européia.

E isso, certamente, acontecia com os políticos da Venezuela, com os políticos da Colômbia, com os políticos da Argentina, do Uruguai que viajavam muito mais à Europa e aos Estados Unidos do que internamente, no nosso Continente.

E quando eu digo que nós avançamos muito é porque nesses dois anos eu penso que, primeiro, estabelecemos uma relação de confiança muito grande entre nós. E não é possível fazer política se não houver confiança entre as pessoas que fazem política.

Em segundo lugar, é que aos poucos estamos tomando consciência de que parte dos nossos problemas só serão resolvidos se entendermos que somente nós podemos resolvê-los. E o presidente Zapatero disse bem: a União Européia, antes eram seis países, depois nove, depois quinze, agora são 25 países – 27, daqui a pouco – onde a parte mais rica da Europa estava muito preocupada em garantir que essa parte mais pobre tenha uma certa proximidade tecnológica e econômica, para que não seja um eterno problema para a parte mais rica da Europa.

Os Estados Unidos, todos sabemos, têm os seus problemas, e também nunca foi uma parte atenciosa com a América do Sul, do ponto de vista do desenvolvimento.

Agora, temos um parceiro novo, no cenário mundial, que é a China. Mas a China, também, tem que cuidar de 200 milhões de habitantes e, portanto, não vai perder seu tempo ocupando-se de Colômbia, Venezuela e Brasil.

A nossa teoria é de que tudo será mais fácil se nós acreditarmos que juntos poderemos crescer mais, nos desenvolver mais, deter a pobreza de nosso Continente. E, para isso, esta reunião é um símbolo porque foi marcada em um momento em que existia uma certa tensão entre Venezuela e Colômbia.

Quando propus a reunião era para mostrar ao mundo que, aqui, tudo o que queremos é paz, desenvolvimento, crescimento econômico e distribuição de renda para o nosso povo. Se fizermos isso, todos nós estaremos realizados como políticos e como seres humanos.

E, mais do que um discurso, penso nas coisas práticas que poderemos e que chegaremos a fazer a partir desta reunião: ela poderá dar aos colombianos, brasileiros e aos outros países da América do Sul a certeza de que nós estamos transformando em realidade nossos desejos, sonhos, e não ficaremos simplesmente no discurso vazio pela integração sul-americana.

Eu acredito tanto na integração que, possivelmente nos dois anos de Presidência no Brasil, eu tenha viajado mais ao redor do mundo do que os quatro últimos Presidentes da República. Celso Amorim, por conta desta nossa política de integração, nos últimos três meses visitou trinta países, possivelmente, mais do que os últimos cinco governos brasileiros visitaram em todos os mandatos.

E são viagens que não têm escala em Paris ou em Madri para descansar. São viagens em que, às vezes, são visitados dois países por dia. Agora, vou à África para ficar não mais de duas horas em Camarões. Sairei às 6h da manhã do Brasil para ver se, logo ao chegar, me encontro com o Presidente de Camarões, porque o Brasil tem relações com a África e queremos sedimentar as nossas relações com aquele Continente que, sem a nossa ajuda, vai passar outro século sendo símbolo da fome, da Aids, da miséria.

Acontece que os nossos mandatos têm duração de quatro anos e o meu já está terminando, como acredito que também o de Uribe; o de Zapatero está começando agora. Mais quantos anos, Chávez? Não sei. Eu trabalho sempre com a inquietude, com a angústia, porque quando terminar o nosso mandato a história vai nos julgar não apenas por aquilo que falamos, mas pelo que deixamos de realizações concretas na área social e na área de nossas relações com outros povos.

Tenho dedicado esses dois anos, presidente Zapatero, a tentar transformar a questão da integração em uma coisa prática, objetiva, mais concreta, para que nosso povo comece a acreditar que integração não é um discurso eleitoral de Uribe, Lula, Zapatero ou Chávez. A integração deve materializar-se em obras, em realizações concretas e em projetos concretos.

Estivemos há pouco tempo em Caracas e fizemos grandes parcerias. Assinamos 26 acordos muito promissores, quase todos podem ser cumpridos ainda este ano, na área de petróleo, na área de energia, na área de saúde, ou seja, nós fizemos todos os acordos que, até então, a nossa inteligência permitiu entender que deveríamos fazer.

Eu tinha dito ao companheiro Chávez que era importante que nós déssemos o passo seguinte, que o jeito de a gente concretizar a integração seria Venezuela e Brasil, junto com a Colômbia, definirem que tipo de projetos e investimentos poderiam fazer juntos; agora não mais o Brasil e a Venezuela apenas, mas o Brasil, a Venezuela, a Colômbia e, quem sabe, também vamos incluir a Espanha para que a gente possa concretizar projetos na área de mineração.

Tem muitas coisas em que poderíamos trabalhar conjuntamente: projetos na área da cooperação energética; projetos na área da biotecnologia na Amazônia, em que temos similaridades, e temos condições de transformar a Amazônia num grande centro de pesquisas que pode prestar serviços enormes à humanidade; temos projetos na área química; temos projetos, juntos, na área de inclusão social.

Eu fico imaginando: qual seria o papel que um país importante como a Espanha poderia jogar numa situação como essa? Primeiro, eu penso que a Espanha sempre será vista por todos nós como uma espécie de “porta de entrada” do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e de outros países da América do Sul. Tem muitas coisas que precisamos fazer com a União Européia, mas, sobretudo, eu penso que tem projetos importantes em que a Espanha poderia participar.

O presidente Uribe tem uma verdadeira paixão por uma hidrovia do rio […], que é uma coisa importante para o desenvolvimento econômico e o Brasil tem interesse em fazer essa parceria.

Me parece […]. Essa integração de transporte, via rios importantes que nós temos aqui, possivelmente seja demasiado para um país sozinho fazer mas, se juntarmos o potencial de cada um dos países e ainda arrumarmos parceiros de outros continentes, como a Espanha, para participar desse processo, aquilo que parecia impossível vai ficando próximo de se concretizar, porque a gente vai perceber que o esforço que fizermos agora vai garantir a nossa independência, vai garantir que nossos

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