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África – Brasil

Escritor angolano acredita na reaproximação do Brasil com a África

José Eduardo Agualusa é um dos principais expoentes da literatura africana de língua portuguesa. Nascido em 13 de dezembro de 1960 em Huambo, Angola, Agualusa estudou e viveu grande parte de sua vida em Lisboa.

Morou no Rio de Janeiro e atualmente, vive em Luanda. Escritor, poeta e jornalista, é membro da União de Escritores Angolanos.

Ele também é correspondente do jornal Público de Lisboa, e da RDP-África [a estação de rádio estatal portuguesa Agualusa tem ascendência angolana, portuguesa, escreveu Nação Crioula, que estabelece no romance a ligação entre Angola e o Brasil.

Em Brasília para o lançamento do seu mais novo romance, José Eduardo Agualusa falou com Exclusividade ao InfoRel, sobre a política externa do Brasil para a África. Acompanhe:

Qual a sua opinião em relação à política externa do governo brasileiro para a África, principalmente neste momento em que o presidente realiza um novo giro pelo continente?

Esta não é a primeira visita que o presidente Lula realiza à África. Eu creio que com o presidente Lula, iniciou-se uma nova era e o Brasil começou, finalmente a traçar uma política externa, o que é estranho para um país com as dimensões do Brasil, uma grande potência. Mas, parece que isso agora começa a acontecer. E a sua política externa passa necessariamente por uma reaproximação com a África. Penso que é um destino histórico o Brasil tornar-se não apenas um líder natural dos países do Sul, mas, sobretudo dos países africanos de língua portuguesa. O Brasil será sempre, necessariamente, o motor para o desenvolvimento desses países.

Mas, se critica muito essa aproximação do Brasil com países africanos, muito pobres e que têm pouco a oferecer. Que opinião o senhor tem a respeito?

Teríamos que ver, caso-a-caso, cada país. Há países na África que têm um grau de desenvolvimento muito superior ao do Brasil, em muitos aspectos. Há outros países que têm políticas de desenvolvimento com as quais o Brasil poderia aprender. No caso do meio ambiente, Botsuana é um dos países do mundo com as melhores gestões ambientais. Além disso, o Brasil tem muito a receber em termos de cultura. Para os brasileiros de origem africana, é muito importante esse reencontro com a África, como uma forma de redescobrirem o seu orgulho e a dignidade ofendida durantes esses anos todos desde a escravatura. É importante para o Brasil e para os brasileiros reencontrarem a África na vitalidade de sua cultura contemporânea. Não se trata apenas de uma questão econômica, vai muito, além disso.

O senhor é favorável à realização de uma cúpula América do Sul – África, nos moldes da proposta discutida pelo presidente Lula na Nigéria?

Eu penso que tudo isso passa por uma tentativa de se criar um bloco no Sul. Um bloco dos países do Sul de forma a afrontar o bloco dos países do Norte. Mais dia, menos dia, o Brasil terá de se confrontar com esse bloco, liderado pelos Estados Unidos. O Brasil é um país em crescimento, um país com riquezas imensas. É o país mais rico em água, e a questão da água vai ser uma questão central nos próximos anos. E é bom que o Brasil se prepare porque vai haver confronto. Ainda que não seja um confronto violento, mas haverá confronto. E é bom que o Brasil tenha condições de aliar outros países, formando um bloco sólido. Há entre os países do Sul, grandes potências, como a África do Sul, a China e a Índia.

Dá para ter alguma expectativa positiva em relação a essa política externa do Brasil no que diz respeito aos países africanos de língua portuguesa?

Dá sim, sobretudo no plano cultural. Esses países têm uma ligação muito forte com o Brasil. Quando dizemos que somos países irmãos, isso não serve apenas para um discurso político, é a realidade. Temos uma história comum. Angola e Moçambique precisam do Brasil, inclusive para a formação da sua identidade. O contrário também é verdadeiro. Pouco-a-pouco se começa a assistir a uma redescoberta por parte do Brasil, da África. No campo da literatura nós vemos a edição cada vez maior de livros de autores africanos de língua portuguesa, no Brasil. O que eu sinto é que há um enorme interesse de parte do Brasil na África.

No campo político, o Brasil pode realmente alcançar maior inserção internacional tendo os países africanos como aliados?

A médio e longo prazo vamos assistir a isso mesmo. Eu espero que sim. Mal seria se não pudesse ser assim. O Brasil tem muito a dizer. Conseguiu construir uma civilização sempre disposta ao diálogo, diferentemente daquilo que os Estados Unidos propõe que é uma civilização agressiva e de confrontos físicos. Ao contrário, o Brasil tem toda uma tradição de diálogo. Eu acho que é isso que o Brasil tem a oferecer ao mundo.

Qual a situação de momento de Angola e como o Brasil pode ajudar concretamente o país?

Angola está num período de transição. Depois de terminada a guerra, estamos a caminho de alguma coisa que eu espero, seja uma democracia plena. E não poderá haver desenvolvimento sem que haja democracia. Quando olhamos para a África, percebemos que os países mais desenvolvidos, são aqueles que possuem democracias mais desenvolvidas, mais profundamente enraizadas. Quem quer que queira ajudar Angola, terá de apoiar o movimento democrático. O Brasil não tem feito isso. O Brasil, como Portugal, tem grande ligação com o regime. Acho que isso é um erro e é um erro grave. Eu acho que o Brasil e outros países deveriam insistir no apoio à sociedade civil e às forças democráticas.

Que diferenças o senhor percebe quanto à postura de Brasil e Portugal em relação à África e, especialmente, Angola?

A informação é muito maior em Portugal do que no Brasil. Existe uma fortíssima comunidade angolana em Portugal, com algum poder econômico, com alguma capacidade de intervenção de fazer lobby político. Por outro lado, existem muitos portugueses que passaram por Angola e outros que vivem em Angola. A presença portuguesa em Angola é cada vez maior. Portanto, essa ligação é muito mais profunda e a atenção também é muito maior. Não tem nem comparação.

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