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01/04/2005
Relações Exteriores
04/04/2005

João Paulo II

Fé: o racional exercício da abstrata emoção

Ucho Haddad

Misto de profeta e chefe de Estado, Karol Wojtyla foi verdadeiramente um peregrino contumaz. Em todos os países que visitou, João Paulo II levou a esperança sem deixar de lado alguns conhecidos radicalismos da Santa Sé. Se por um lado promoveu avanços na relação entre os povos, por outro o expoente máximo da Igreja Católica patrocinou a perpetuação de pensamentos retrógrados e tacanhos.

Não se trata de querer pegar carona na última e trágica viagem papal, mas o mundo católico não deve se deixar levar pelo marketing quase eterno da praça São Pedro. Difícil é falar em nome de Cristo, alguém que sempre pregou a igualdade entre os homens, valendo-se da retórica da fé para condenar a tentativa de acesso das mulheres ao reservado mundo masculino do catolicismo.

Quando alguém se arvorou em discutir a participação das mulheres no seleto grupo de cardeais, o assunto sempre foi bombardeado, fazendo com que as seguidoras do Senhor se contentassem apenas em ocupar a vassalagem cristã.

Se ao Vaticano cabe a prerrogativa de decidir sobre a canonização de homens e mulheres responsáveis pelos ditos milagres, os homens da Santa Sé deveriam admitir a entrada do sexo oposto no universo cardinalício, pelo menos.

Não se pode negar que o segredo da superior competência feminina está na bem dosada mistura da emoção com a razão, receita ideal para interromper a debandada de fiéis que a Igreja Católica vem sofrendo nas últimas décadas. O motivo para tal conclusão está na teoria de que a fé é muito mais um exercício da emoção do que da razão.

Sem querer comprometer a importância de João Paulo II como figura histórica, é preciso lembrar que o ser humano, por sua natureza, tem uma contínua necessidade de se agarrar a ídolos, especialmente quando estes podem, mesmo que imaginariamente, lhe proporcionar um bilhete para o paraíso ou garantir um lugar não tão quente no mundo luciferiano.

Explorar a agonia do papa é uma estratégia de marketing irresponsável, que pode render à Santa Sé o retorno, mesmo que temporário, de alguns milhões de fiéis. Há dias, quando o futuro da americana Terri Schiavo tomou conta das notícias planetárias, um representante do Vaticano veio a público e declarou que desligar os aparelhos que a mantinham viva há mais de quinze anos era um atentado contra Deus.

Ora, se aliviar o sofrimento vegetativo de uma pessoa é um desrespeito ao Criador, o que significa faturar com a moribunda situação do Santo Padre?

Significa que uma organização milenar só é flexível quando lhe interessa, principalmente quando o ato da flexibilidade pode render a retomada do terreno perdido ao longo dos anos.

Se a turma da praça São Pedro evoluiu a ponto de permitir que a agonia papal fosse explorada ao máximo, continuou, como antes, avalizando a teoria retrógrada de condenar o homossexualismo, o uso de preservativos e o controle da natalidade. Condenar o homossexualismo é fechar os olhos para as barbáries sexuais que ocorrem há muito nas sacristias e nos seminários, onde desvirtuados de batinas promovem, não é de hoje, cenas de fazer inveja a Sodoma e Gomorra.

Posicionar-se contra o uso de preservativos em tempos de moléstias contagiosas, como é o caso da Aids, é incentivar uma espécie de suicídio coletivo inconsciente. No que tange ao controle da natalidade, colocá-lo na lista de coisas proibidas tem uma certa lógica, se considerarmos que quanto mais numerosa for a população do planeta, maior será a miséria.

Majorada a miséria, cresce o número de seres humanos que terão necessidade de algum tipo de fé. Em outras palavras, o discurso que emana da Santa Sé vai ao encontro dos próprios interesses.

O papa, em suas peregrinações ao redor do mundo, condenou de forma contundente os modelos políticos truculentos e totalitários, sendo extremamente hábil ao esconder a ditadura que predomina no verdadeiro quartel general em que se transformou o Vaticano.

João Paulo II teve importantes participações – nem sempre de sucesso – em momentos de crises mundiais, como nas guerras das Malvinas, Timor Leste e Iraque, mas, quando enfrentava as derradeiras horas terrenas de sua última Via Crucis, seu carisma não conseguiu evitar que a ambição virulenta escondida sob as púrpuras batinas tomasse conta dos bastidores da mais católica de todas as praças, pano de fundo de uma contínua luta pelo poder.

Por outro lado, como nunca se soube a verdadeira razão da morte de Albino Luciani, o João Paulo I, Karol Vojtyla desistiu, logo de início, de acabar de uma vez por todas com as maracutaias da Igreja Católica.

Ao tentar interromper os negócios escusos da Santa Sé, em especial do nefasto Banco Ambrosiano, João Paulo I foi envenenado durante um chá da tarde, que, como se milagre fosse, continha uma dose letal de cianureto. Não fosse verdade, Albino Luciani não estaria, na mesa de autopsia, com uma coloração esverdeada de fazer inveja ao poderoso Hulk, mesmo que o atestado de óbito tenha apontado um ataque cardíaco como causa mortis.

Senhor de um reinado absolutamente curto – foram trinta e três dias – o antigo cardeal de Florença, que chegou ao posto máximo da Igreja Católica, foi vítima de um conluio entre assessores mais próximos e integrantes da máfia turca, muito conhecidos nos nada santos corredores da fé.

Quando o assunto ameaçou deixar os limites da praça São Pedro, o Vaticano emitiu um comunicado a todas as igrejas católicas do mundo, impondo o que é conhecido como silêncio obsequioso. Ou seja, se o assunto passou a ser proibido, inclusive nas rodas eclesiásticas, é porque tinha fogo atrás da fumaça que emanava à época.

Mais de duas décadas depois, em gravações telefônicas feitas por autoridades policiais brasileiras, uma conversa entre um suposto representante do Vaticano – apresentava-se como vaticanólogo – e João Carlos da Rocha Mattos trouxe novamente à tona o Ambrosiano.

O tal vaticanólogo, sabedor das falcatruas do juiz, ofereceu a Rocha Mattos uma conta no banco da Santa Sé, o que denota que a instituição financeira continua funcionando como uma espécie de lavanderia, onde as demoníacas operações são observadas apenas pelas estátuas dos santos que se perfilam na praça São Pedro.

Anos mais tarde, já no pontificado de Karol Wojtyla, o Vaticano foi palco de nova ação da máfia turca. Ahmet Ali Agca, a mando de seus superiores, acabou alvejando o papa João Paulo II no abdômen, durante uma aparição do Sumo Pontífice na praça que emoldura a mais badalada casa do catolicismo.

A corrupção jamais foi uma exclusividade da Santa Sé, mas uma espécie de legado que se espalhou pelo mundo. Tão fácil quanto nojento, encontrar casos de corrupção nas igrejas brasileiras tornou-se tão freqüente, que os fiéis acabaram se acostumando com algo que, pelos preceitos da religião, pode ser considerado pecado em último grau.

Então, qual a diferença que existe, por exemplo, entre o juiz Rocha Mattos e um padreco que se envolveu na falcatrua do Banco Ambrosiano

Nenhuma. Afinal, ambos, o juiz e o padreco, cometeram o mesmo delito, sendo que diferentes foram apenas nas vestes. O juiz sempre se apresentou sob elegantes e bem cortados ternos, enquanto os cônegos corruptos usam e abusam de uma batina que se tornou símbolo de algo impoluto que jamais existiu.

Isto significa que se o papa fosse pop, como cantam os Engenheiros do Hawaii, e defendesse suas idéias ultrapassadas sob uma bermuda e uma camiseta, certamente seria massacrado sem piedade alguma. Mas o efeito da batina deve ser, não apenas considerado, mas muito bem analisado como uma indumentária que leva os fiéis a um estado de letargia do raciocínio.

É preciso considerar que o equilíbrio da vida está calcado em um tripé formado pelas vertentes da espiritualidade, da emocionalidade e da materialidade. Encarar a vida com um tripé manco é permitir que aconteça o que temos visto ao longo dos séculos: a degradação do ser humano. Porém, é quase obrigatório admitir qu

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