Opinião

Relações Exteriores
24/04/2005
Estados Unidos
26/04/2005

América Latina

O custo político de acolher Lucio Gutiérrez

O governo brasileiro finalmente conseguiu resgatar o ex-presidente equatoriano Lucio Gutiérrez, numa operação que implica desgaste político, além de um desafio concreto para a política externa de integração com os países sul-americanos.

Gutiérrez é acusado de corrupção no seu país e a população não queria que o Brasil o acolhesse. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva que ainda desfruta de prestígio entre os povos latino-americanos, é acusado de traidor.

Para os equatorianos, a questão está acima dos tratados internacionais que prevêem a concessão do asilo diplomático e, posteriormente, político. Os povos querem derrubar os políticos corruptos e julgá-los. É preciso defender a democracia, mas não se pode ignorar o direito dos povos de julgar seus políticos.

O caso do ex-presidente boliviano Gustavo Sanchez de Lozada é emblemático. Os bolivianos lutam para repatriá-lo com o objetivo de julgá-lo justamente pelos crimes que acabaram por derrubá-lo. No entanto, o Brasil apoiou a saída qeu deu à Lozada um asilo vip em Miami, sem ter de se preocupar em prestar contas em relação aos crimes de que é acusado.

Para o governo brasileiro, a crise do Equador que teve um desfecho surpreendente – pelo menos os operadores da política exterior não esperavam que o presidente fosse retirado do poder tão rapidamente -, não poderia ser simplesmente ignorada, o que sepultaria de vez o discurso político de uma integração física na América do Sul.

Por outro lado, ao acolher um ex-presidente acusado de corrupção, o presidente Lula se indispõe com os movimentos sociais que têm crescido vertiginosamente na América Latina, principalmente aqueles ligados as comunidades indígenas. De grande líder político regional, Lula acaba se transformando num traidor, como crêem os equatorianos.

Talvez fosse momento de se estudar com prudência caso-a-caso. Ao anunciar a concessão do asilo político para Lucio Gutiérrez, o Brasil se precipitou. Não se pode acolher qualquer um a pretexto de uma diplomacia solidária ou por conta de suas pretensões e ambições no cenário internacional.

A Organização dos Estados Americanos [OEA]investiga as condições que acabaram por destituir Gutiérrez. Suspeita-se que tenha ocorrido um golpe. Isso é outra questão, e a OEA está aí justamente por ser o foro adequado para defender e fazer valer o respeito à democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *