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O multilateralismo ameaçado

Marcelo Rech, especial de Madri

Não é segredo que o sistema multilateral atravessa momento extremamente delicado, principalmente com a chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. Historicamente, Washington sempre olhou atravessado para as iniciativas multilaterais, sobretudo aquelas criadas sem a sua participação como o BRICS, por exemplo e até mesmo a UNASUL.

Iniciativas positivas resultantes do multilateralismo, sempre foram vistas como ameaças à hegemonia norte-americana. No entanto, a nova administração norte-americana tratou de reforçar essa ideia. Trump ataca constantemente a Organização das Nações Unidas (ONU) e já ameaçou abandonar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), isso sem mencionarmos os acordos dos quais se retirou como o Tratado Transpacífico (TPP).

Na sua avaliação, os Estados Unidos aportam bilhões de dólares em recursos para instituições que não funcionam adequadamente, segundo o ponto de vista dos interesses globais norte-americanos. Qualquer entidade ou instituição que contraria ou simplesmente divirja da visão da Casa Branca, está fadada ao escárnio.

O slogan “a América em primeiro lugar” do presidente dos Estados Unidos alimenta o protecionismo e gesta conflitos, podendo inclusive provocar guerras. O sistema multilateral está longe de ser perfeito, mas ainda é melhor que a anarquia total onde cada um faz o que bem entende. O presidente norte-americano há pouco mais de um ano no poder, não parece nenhum pouco preocupado com o impacto objetivo de sua retórica espalhafatosa.

Por outro lado, a construção de um mundo multipolar assombra a atual administração norte-americana. Apesar de profundamente incoerente, a simples ideia dos Estados Unidos perderem protagonismo nos assuntos internacionais é suficiente para que Trump efetue todo tipo de ataques.

Essa postura que havia mudado sensivelmente com Barack Obama, o presidente que se reconciliou com Cuba, viabilizou o acordo nuclear com o Irã, visitou Hiroshima, e avançou na participação norte-americana em relação aos temas climáticos e de direitos humanos, agora dá uma forte guinada promovendo o retrocesso.

Se antes era difícil compreender o escopo e os métodos de vigilância de Washington em relação aos direitos fundamentais, agora há tendência de piora significativa. Algo que afeta o modelo de democracia vigente e que é apresentado como modelo a ser copiado pelos chamados “Estados párias”.

O multilateralismo cobra cumplicidade e a postura norte-americana denuncia um Estado indiferente ao trabalho conjunto em temas como Segurança Internacional, Terrorismo, Comércio e Direitos Humanos, por exemplo. Salvo quando Washington tem interesses específicos e quando pode impor as “soluções”.

Marcelo Rech é jornalista, diretor do InfoRel, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência e o Impacto dos Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.

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