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22/03/2005

Indigência

O Papa, as Farc e a Abin

Ucho Haddad

“As pessoas esperam do dirigente que ele tome decisões adequadas, justas e corretas, ainda que isso fira a interesses de um ou de outro grupo”. “É preciso cuidado com aqueles que se aproximam do novo governante para definir-lhes o caráter e os interesses.” – Maquiavel

Fernando Henrique Cardoso entrava no último ano de seu primeiro mandato quando, em 21 de janeiro de 1998, dom Carol Wojtyla, o papa João Paulo II, pisou em território cubano. Naquele momento tinha início um plano arquitetado por Frei Betto, para, com o apoio do ditador Fidel Castro, relançar o comunismo no mundo, fazendo da América Latina o trampolim da operação.

Há de se manter o equilíbrio do pensamento e salientar que se o capitalismo é irreversivelmente selvagem, o comunismo prático é totalitarista e criminosamente sanguinário.

O plano engendrado pelo atual assessor especial da Presidência da República era agir no inconsciente coletivo dos latinos, mostrando que o comunismo castrista tinha a sua dose de bondade, mesmo que os relatos da história provassem o contrário. E para tal, a reaproximação de Cuba com o Vaticano foi a senha para que o projeto fosse colocado em prática.

Foi com tal mote que o modelo político das esquerdas, que tem em Cuba sua derradeira manjedoura, recobrou forças depois de um agonizante período de inanição patrocinado pelo fim da União Soviética, uma das mais bizarras prateleiras da história da política universal.

Jamais o comunismo fez de suas pregações uma realidade, pois o que deveria ser comum a todos acabou por patrocinar as coisas incomuns para poucos e não tão bons assim.

De lá para cá, inúmeros líderes políticos, simpatizantes da ressuscitada onda vermelha, surgiram como se do céu tivessem caído, mesmo que de anjos não tenham nada.

No Brasil, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva jamais representou qualquer tipo de ameaça à ordem nacional, principalmente porque seu desempenho, nos últimos tempos, tem mostrado que ele está mais para um daqueles ursos de pelúcia que as crianças, quando dele enjoam, o largam no fundo do armário, do que para um líder político dotado de uma generosa dose de messianismo.

O perigo maior sempre esteve na caterva que o acompanha desde os tempos dos proibidos aparelhos, cujos integrantes atualmente não só colocam os tentáculos de fora, como borrifam em todas as direções a peçonha da obsessão ideológica.

Nos últimos dias, a nação foi tomada pelas revelações incomprovadas da revista Veja, que trouxe uma possível contribuição financeira das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia para o Partido dos Trabalhadores, em 2002, mais precisamente para campanha do então candidato Lula, como manchete revolucionária e bombástica.

O valor anunciado pela publicação, US$ 5 milhões, chega a ser irrisório se pensarmos o quanto vale a soberania de uma nação e a tranqüilidade de um povo.

Na última quinta-feira, o Senado abrigou uma audiência pública, onde o assunto foi exaustivamente discutido, sem que alguma conclusão pudesse ser apresentada à opinião pública. O encontro mais parecia uma antecipação das eleições de 2006, pois os presentes faziam questão de destilar ataques contra os adversários e marcar suas posições político-partidárias. Resumindo, nada de concreto e elucidativo ocorreu.

Com direito a ataques, interferências, desandares verborrágicos e outros salamaleques proibidos pelo incansável regimento parlamentar, o encontro teve seu ponto alto na preocupação da maioria oposicionista, sempre focada na hipótese do PT ter recebido dinheiro das Farc.

Como citei anteriormente, o dinheiro, a essa altura, é o que menos importa, sendo obrigação imediata das autoridades o combate à presença em território nacional de organizações criminosas, como é o caso do narco-guerrilheiro grupo colombiano. Querer desqualificar a discussão, lançando sob panos quentes tema tão polêmico, chega a ser uma abissal irresponsabilidade do PT e de seus aliados, que após declararem não serem responsáveis pelos membros do partido, dizem não saber se as Farc são uma organização terrorista.

A dúvida foi levantada pelo senador Aloízio Mercadante, que certamente não deve estar em paz com a própria consciência. Mercadante tem informações não requentadas de caserna, advindas do seio familiar – o pai e o irmão são militares graduados -, e fazer de um discurso ciclotímico uma conversa circular e impenetrável é uma prova da obsolescência petista.

O presidente do PT, José Genoíno, declarou, um dia após a publicação da reportagem, que o “PT tem posição histórica contra o terrorismo de Estado ou de grupos armado”. Se o PT tem sido vítima da mitomania que normalmente infesta os escaninhos do poder, a declaração de Genoíno atingiu o ápice na curva da mentira.

Os narco-terroristas colombianos sempre foram bem recebidos no Brasil, tendo o então governador Olívio Dutra dispensado tratamento de chefe-de-Estado a um representante das Farc que o visitou no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Por outro lado, o ministro Antonio Palocci Filho, quando prefeito de Ribeirão Preto, apoiou a iniciativa de um assessor de criar um escritório de representação das Farc na cidade do interior paulista.

Até onde se tem conhecimento, o PT mantém, como sempre manteve, contatos permanentes com as Farc, mesmo que os companheiros neguem peremptoriamente o fato, até porque o terrorismo guerrilheiro tem sido a única ferramenta que os comunistas encontraram para enfrentar os adversários ideológicos.

A maior preocupação é a presença do grupo no Brasil, cujas ações, ao que tudo indica, crescem de forma escandalosa e com a explícita anuência do governo Lula.

No contraponto, se a audiência serviu para discussões arrastadas, a exemplo da existência ou não dos documentos publicados na reportagem, o que proporcionou munição de grosso calibre para a oposição e não apenas colocou em má situação o diretor-geral da Abin, delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, acabou expondo a rota de colisão em que vivem o araponga-mor e seu superior imediato, o general Jorge Armando Félix, responsável pela Segurança Institucional da Presidência da República.

Como ambos, Jorge Felix e Mauro Marcelo, garantiram que as Farc há muito estão sendo monitoradas, é possível concluir que ou trata-se de um bando de inofensivos comunas, ou a arapongagem brasileira não é de nada. Do contrário, alguém deve estar cumprindo uma ordem do tipo deixa pra lá.

Fechar os olhos para a presença em território brasileiro de espiões e agentes das mais distintas nacionalidades e negar que as fronteiras verde-louras são vulneráveis é um ato de declarada irresponsabilidade.

É público e notório que somos alvos constantes de agentes da CIA, do FBI, do Mossad, do serviço secreto cubano, entre outros, além de por aqui circularem livremente alguns seguidores do grupo terrorista Al Qaeda, sem que as autoridades brasileiras esbocem qualquer reação. Até arapongas de quinta por aqui estiveram, sendo que suas bisbilhotices acabaram devassando a intimidade de integrantes do governo Lula. Neste caso, o deputado Fernando Gabeira foi absolutamente preciso ao declarar que a inteligência brasileira passa por um processo de indigência.

Se a oposição se arvorou em atacar o governo Lula e o PT, é preciso lembrar que seu atual comandante, o senador Arthur Virgílio [PSDB-AM], um dos mais lúcidos e preparados tribunos da política nacional, manteve contato com as Farc durante o governo FHC.

A missão do senador tucano, à época, era contatar os guerrilheiros por conta dos inúmeros seqüestros e mortes que tinham vitimado alguns brasileiros, além das incursões dos membros das Farc pelo mundo da corrupção.

Em um país minimamente menos irresponsável que o nosso, esses senhores que fazem do tráfico a cornucópia para uma ideologia sanguinária já teriam sido expulsos ou, no mínimo, estavam presos e respondendo por crimes dos mais diversos.

É

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