Opinião

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Reforma Ministerial

O tiro pela culatra de Severino

Na segunda-feira, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti [PP-PE], deu uma demonstração do poder que adquiriu graças aos eternos desentendimentos petistas. Postando-se como alguém que está acima do bem e do mau, Cavalcanti colocou o presidente da República na parede.

Ameaçou ir para a oposição se os seus desejos mais íntimos não fossem atendidos e marcou dia e hora para ver suas reivindicações atendidas. Severino tem um jeito muito próprio de ser. O que ele diz em público, a maioria o faz no privado. Ele assume o que fala, mas acabou falando demais e queimou o partido e seu apadrinhado.

Ele impôs a indicação do deputado Ciro Nogueira [PP-PI], seu fiel escudeiro, para o ministério das Comunicações. Mas a indicação teria de ser assinada na terça-feira. “Ou o PP vai para a oposição com o PFL”, afirmou o deputado em Curitiba. Lula chamou Severino à Brasília para saber se era isso mesmo.

Desta vez, o deputado não foi tão voraz. Recuou e jogou a culpa na imprensa que sempre interpreta os políticos de forma equivocada, mesmo que suas declarações tenham sido gravadas. Severino disse que não era bem assim, que foi mal interpretado e que a decisão era do presidente, só dele.

Nesta terça-feira, o presidente mostrou firmeza ao suspender por tempo indeterminado, uma reforma ministerial que se arrasta há tempos. Não encolheu o espaço do PT. Não ampliou o espaço do PMDB. Não deu cargos para o PP. O tiro de Severino saiu pela culatra e Lula mostrou quem é que manda na reforma.

Além disso, o presidente absolutamente irritado com seu próprio partido chamou Aldo Rebelo e avisou para ele continuar seu trabalho e tratar de reagrupar a base governista na Câmara em conjunto com o novo líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia [PT-SP].

No entanto, Rebelo deve continuar enfrentando os mesmos problemas, pois vai continuar coordenando a política do governo sem poder para nomear, liberar recursos e fazer valer as alianças. No mundo dos políticos, tem que ter tinta na caneta como disse o deputado Sandro Mabel [PL-GO].

Apesar de profundamente aborrecido com as sabotagens e críticas petistas, Rebelo aceitou ficar. Até quando, não sabe. Ele pode ser deslocado até abril, para o ministério da Defesa. Rebelo foi informado que a reforma foi suspensa, não cancelada.

Lula também aproveitou a deixa de Severino para mandar um recado ao seu partido, que precisa ser menos ácido nas críticas aos aliados e menos apegado aos cargos, pois 90 deputados não garantem nada ao governo na Câmara, por exemplo.

De qualquer forma, a suspensão vai dar mais tempo e tranqüilidade para Lula montar o governo dos seus sonhos. Ele sabe que se não mexer agora, terá de mexer até abril do próximo ano. Muitos dos ministros como Olívio Dutra, Tarso Genro, Humberto Costa, José Alencar e Ciro Gomes, por exemplo, estudam candidatar-se a cargos executivos em 2006.

Por ora, vale o gesto político de mostrar a firmeza de quem realmente tem a responsabilidade para decidir. Por outro lado, Lula obriga o PP a segurar seus ímpetos. Do contrário, ele mesmo estaria afundando seu governo num fisiologismo sem precedentes.

O partido tem 54 deputados e a presidência da Câmara, mas não vai dar as cartas para quem tem um governo legitimado por mais de 50 milhões de votos, e não 300 como recebeu Severino para se achar um dos cardeais da política nacional.

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