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16/03/2005
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16/03/2005

País para poucos

Os 20 anos da redemocratização do país

Nesta terça-feira, o Senado realizou sessão solene em homenagem aos 20 anos da redemocratização do Brasil. Nesta quarta, a homenagem é da Câmara dos Deputados, onde a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada. Há muito que se comemorar nestes 20 anos, mas pouco se pode dizer dos avanços políticos.

Há duas décadas, os brasileiros puseram fim a um regime odioso que massacrou seus próprios cidadãos. Há duas décadas, lutamos para que civis e militares convivam como brasileiros que são, cada um cumprindo sua importante e essencial função. Não tem sido uma tarefa fácil nem simples.

Ainda persiste um ranço de lado-a-lado e a falta de percepção de que o país é quem perde com isso. Há quem afirme que os militares se preparam para o convívio harmônico com os civis, mas o contrário não aconteceu, ainda.

Mais que isso, esses 20 anos de redemocratização deveriam nos fazer refletir sobre o futuro do país, da América Latina e do mundo. No ano passado, uma pesquisa realizada por um importante organismo internacional apontou dados preocupantes.

Quase 45% da população latino-americana estava disposta a trocar o regime democrático pela ditadura, em troca de segurança, saúde, educação e emprego.

Mas, as nossas autoridades pouco ou nada fizeram para mudar essa realidade. O Congresso é um importante instrumento de transformação, mas tem sido corporativista demais para que o povo brasileiro conte com ele novamente.

Vejamos o que a ONG Transparência Brasil apurou em recente pesquisa:

– Nove por cento dos eleitores receberam algum tipo de oferta para vender seus votos. Na Região Sul, onde as pessoas são consideradas ‘politizadas’, esses níveis sobem para 12%;

– Seis por cento afirmaram que foram intimidados por funcionários públicos que condicionaram a solução de determinados problemas ao compromisso do eleitor com determinado candidato;

– Dois por cento dos eleitores relataram o pagamento de propinas a funcionários públicos nos mandatos de quatro anos que foram encerrados no ano passado;

РPara 30% dos eleitores, os prefeitos que deixavam os cargos no ano passado, roubaram, e para 21%, os eleitos faṛo o mesmo;

Há dados positivos na pesquisa, quanto mais de 70% dos eleitores acreditam que os novos prefeitos farão boas gestões e não roubarão. Mas, o retarto da nossa democracia ainda é muito cruel.

O Brasil é um país para poucos, não é e está muito distante de ser um país para todos como apregoa publicidade do governo. Há muita descrença na classe política e neste governo, apesar dos números favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Temos crianças morrendo de fome nos estados que mais produzem alimentos. Aposentados e idosos humilhados, sendo fulminados depois de dezenas de horas de filas no INSS, que acabam morrendo de dor, angústia e desamparo.

Temos gente prometendo de tudo para os deputados e senadores, brigas internas por poder, cargos, ministérios, eleições em 2006. E sobra muito pouco para resolver crises caóticas na saúde, educação, segurança.

O país vive uma guerra civil que as publicidades governamentais, em todos os níveis, tentam esconder. Gente de bem tem de pôr grades nas janelas, esconder-se das ruas e apodrecer dentro de casa para não ser seqüestrado, estuprado, violentado e ainda acusado pela polícia de ser o ‘provocador’ dos males.

Talvez, mais útil fosse lembrarmos das lutas aguerridas nestes 20 anos, daqueles brasileiros que sobrevivem dia após dia, apenas com a esperança a sustentá-lo. E foi a esperança que venceu o medo. Não em 2002, mas há 20 anos!

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