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21/04/2005
Diplomacia
21/04/2005

América do Sul

Região vive momento de tensão e instabilidade

Marcelo Rech

Há uma semana, escrevemos sobre as preocupações do Brasil com um possível fracasso na realização da Cúpula América do Sul – Países Árabes, que até o momento ainda não conseguiu confirmar a presença dos mais importantes líderes políticos do mundo árabe.

Além disso, a presença do presidente argentino, apesar das declarações do chanceler Rafael Bielsa, ainda é uma incógnita. Tanto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse publicamente que Brasil e Argentina precisam dar um basta na ciumeira que só atrapalha a integração.

Um não pode pensar em desenvolvimento sem o outro. Isso é fato! Mas Kirchner é um presidente que está pouco se lixando para o que é estratégico. Aliás, segundo fontes do Itamaraty, ele tem-se esforçado para mostrar esse seu lado indiferente em relação ao processo de integração. O último exemplo concreto?

Depois de confirmar presença na reunião de chanceleres da Comunidade Sul-Americana de Nações, Bielsa mandou seu vice, Jorge Taiana. Surpresa? Para a diplomacia brasileira não.

Pois, bem. Esse é um problema político que a diplomacia tenta contornar pontualmente, na base do diálogo. Fazendo vistas grossas para certas atitudes, vai levando, pois há um espectro estratégico que vai além da administração Kirchner. O que parece não ser mais possível contornar, são os problemas institucionais que ameaçam a região.

A crise no Equador não é nova e esse desfecho vinha se anunciando há tempos. O mesmo pode vir a ocorrer na Bolívia e no Peru, onde os presidentes Carlos Mesa e Alejandro Toledo contam com tanta popularidade quanto Lucio Gutiérrez, que tomou de 62 a zero no Parlamento.

Somadas as possibilidades, apenas Brasil, Uruguai e Chile poderiam ser excluídos dessa situação. Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname, enfrentam alguma oscilação política. O sonho de uma Comunidade Sul-Americana de Nações pode naufragar antes mesmo de nascer institucionalmente.

Não é exagero afirmar que há um processo de ebulição política que pode agravar-se com um efeito dominó, absolutamente prejudicial para a imagem da região. O Brasil sabe que, apesar de estar comemorando 20 anos de um processo tortuoso de redemocratização, as conseqüências desse processo poderão ser sentidas internamente, afinal de contas, temos fronteira seca com dez países.

Na região Norte, um conflito de quatro décadas em plena floresta amazônica pode pôr em xeque todos os esforços empreendidos por integrar fisicamente o Brasil à Colômbia,Venezuela, Peru e Bolívia. Não bastam pontes ou estradas se não for pavimentado urgentemente, um caminho que garanta a democracia plena sem populismos e uma revisão completa das prioridades políticas da região. Enquanto isso não ocorre, os Estados Unidos riem à toa, pois lucram em todos os sentidos quanto maior forem os níveis de desagregação regional.

Trata-se, portanto de um desafio político para a diplomacia brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe que não poderá sustentar um discurso em relação ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, se não conseguir conter os ímpetos na vizinhança. Isso sem ingerência na soberania de cada um, ao mesmo tempo em que não pode se furtar à responsabilidade por uma diplomacia solidária.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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