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13/04/2005
Diplomacia
13/04/2005

Mercado de Trabalho

Relações Internacionais: estou formando, e agora?

Sérgio Aguiar Matos e Luiz Paulo Bellini

Você é formando ou recém-formado em Relações Internacionais [RI]. Assim como milhares de colegas do mesmo “barco”, está em casa, angustiado, revirando páginas do jornal em busca de emprego. Procura, incansavelmente, oportunidades em sites na Internet. Cadastro aqui, cadastro lá e… nada.

Sente-se desnorteado. Não sabe bem o que fazer, onde operar. Começa a perceber a grande incompatibilidade entre o “mundo” da sala de aula e o mercado de trabalho. À beira do arrependimento, protesta: por que perdi quatro anos de minha vida estudando matérias teóricas se agora, ao buscar o ingresso no mercado, momento mais crucial da minha vida, sequer sei onde atuar?

Acalme-se. Antes que o desespero bata à sua porta, atente para nossa sugestão. Recupere uma reportagem de autoria da Suzana Naiditch, intitulada “Na Macy’s e na Lafayette”, publicada na revista Exame, edição de 28 de março de 2005. Leia-a pausadamente e procure abordar com maior cuidado os excertos em que a jornalista trata da estratégia montada pela Mundial, empresa gaúcha especializada na produção de talheres, para ganhar os principais mercados estrangeiros.

Vamos lá, nós ajudamos: “No começo, Ceitlin [Michel Ceitlin, presidente da empresa] tentou uma abordagem simples. Como uma espécie de caixeiro-viajante, visitava redes como a Macy’s, em Nova York, e explicava as qualidades de seus produtos. “Levei muita batida de porta na cara”, diz. Para fortalecer a marca, a Mundial resolveu então submeter suas facas a instituições especializadas em certificação de qualidade e contratar os serviços de consultorias de design.

Em 2002, uma empresa de divulgação nova-iorquina especializada em produtos de consumo foi chamada para mostrar os atalhos que poderiam ser percorridos para levar a marca Mundial às grandes publicações e à mente dos varejistas americanos. Em poucos meses, foram publicados artigos na revista Playboy e no New York Times.

Vencida a resistência dos comerciantes, a Mundial espalhou seus produtos por diversas redes, entre elas a Macy’s e a loja virtual Amazon, que tem 58 itens da empresa à venda”.

O parágrafo acima ilustra exatamente a tarefa mais importante e atualizada que um especialista em RI pode ter no novo cenário político-econômico brasileiro. O Brasil, que durante décadas posicionou-se de maneira insular no comércio internacional, hoje, urge por maior participação na globalização.

A “via financeira” deu lugar à “via comercial”. E, a julgar pelos repetidos superávites comerciais, parece que a tendência é irreversível. Ou seja, daqui para frente “só vai dar comércio” . Neste sentido, o País terá de ter, cada vez mais, profissionais capacitados para capitanear essas atividades.

Embora existam outras “plataformas de desenvolvimento” econômico e social e, portanto, áreas de atuação, em nossa convicção particular, definir como prioridade a promoção comercial do Brasil é fundamental para trazer mais oportunidades às empresas brasileiras e, assim, como num ciclo: trazer mais lucro, gerar empregos, aumentar renda, desenvolver o País.

Portanto, congele um pouco das coisas mais teóricas aprendidas durante o curso de graduação. Reserve-as, zelosamente, na importância de seu repertório cultural.

Movimente-se!

Busque coisas mais práticas. Oriente-se sobre as técnicas que levam uma empresa brasileira a ganhar as prateleiras estrangeiras. Aprenda como “defender” os interesses comerciais junto à imprensa no exterior.

Saiba como mobilizar a opinião pública a favor do seu produto. Conheça os trâmites necessários para a formação da personalidade jurídica de uma empresa brasileira no exterior. Fale em espanhol, escreva em inglês.

Vá até um computador e elabore um business-plan sobre a internacionalização de alguma empresa brasileira, baseando-se em consultas e pesquisas sobre o mercado destino. Identifique demanda por produtos brasileiros, prospecte mercados.

Enfim, corresponda à nova ordem desenvolvimentista adotada por governo e sociedade brasileiro – a grande oportunidade de atuação do bacharel em RI.

Saia do marasmo, da incógnita profissional. E se, a partir de então, algum de seus exercícios tangenciar as questões aqui levantadas, saiba que você é mais um “bandeirante” na vanguarda da inserção internacional brasileira.

Ou seja, da “Diplomacia Empresarial” – conceito defendido pelo diplomata, empresário e professor Marcos Troyjo que sintetiza tudo o que aqui foi discutido; e que tão importante é para deixar o Brasil mais forte e competitivo.

Caro formado e formando, no novo horizonte de atuação do especialista em RI, tenha Michel Ceitlin como referência de “diplomata empresarial”. Leve muita batida de porta na cara. Mas não desista, vá ao trabalho.

Sérgio Aguiar Matos é jornalista, assessor da presidência internacional da Gazeta Mercantil e consultor de projetos da Editora JB. [sam@gazetamercantil.com.br]; Luiz Paulo Bellini é bacharel em relações internacionais, assessor direto da presidência internacional da Gazeta Mercantil, consultor de projetos da Editora JB e sócio do Portal MundoRI.com [luizbellini@mundori.com].

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