Opinião

Audiência Pública
29/03/2005
Brasil-Colômbia-Venezuela-Espanha
29/03/2005

Cooperação

Uma Cúpula essencialmente política na Venezuela

Nesta terça-feira, os presidentes do Brasil, Colômbia, Venezuela, e o primeiro-ministro espanhol, José Luiz Rodriguez Zapatero, estarão conversando sobre temas como o terrorismo, combate ao narcotráfico e à fome. Mas, estarão tratando de mostrar força política também.

Resolvida a crise colombo-venezuelana, é hora de apaziguar os ânimos em relação aos Estados Unidos.

O próprio embaixador brasileiro em Caracas, João Carlos de Souza Gomes, ex-assessor parlamentar do Itamaraty na Câmara dos Deputados, reconhece que o encontro tem caráter “essencialmente político”.

Souza Gomes vai além: “É uma sinalização da boa vontade dos presidentes. A reunião é histórica, e não é força de expressão”.
No final da tarde desta terça-feira, os presidentes devem assinar uma Declaração Conjunta, reafirmando os propósitos pela integração sul-americana, com o apoio da Espanha que tem um compromisso ibero-americano considerado fundamental pelos demais países.

Há que considerar ainda que o Brasil mantém uma extensa fronteira comum com a Colômbia e a Venezuela, e que a Espanha é o maior investidor no país, depois dos Estados Unidos. Brasil e Espanha também estão juntos há tempos. Os dois integraram o Grupo de Amigos que devolveu o poder ao presidente Chávez após um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos.

Hoje, com um governo de esquerda, a Espanha se torna ainda mais atraente para a região, sobretudo para Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela. Mais recentemente, Espanha e Brasil trabalharam para contornar a crise diplomática envolvendo Colômbia e Venezuela, por conta do seqüestro de um guerrilheiro colombiano em território venezuelano.

O Brasil aposta na conclusão da principal obra executada por uma empresa brasileira na Venezuela: a segunda ponte sobre o rio Orinoco, a 20 km de Ciudad Guayana, que vai impulsionar a integração física entre os dois países.

A obra está pendente do projeto “Conexão Mercosul”, desenvolvido pelo governo venezuelano. Trata-se de uma ferrovia que vai ligar Manaus e novos portos às penínsulas do Caribe, próximas a Trinidad Tobago. É uma questão de firmar sua liderança regional.

O projeto da segunda ponte recebeu US$ 384 milhões através do Programa de Financiamento às Exportações, Proex, do Banco do Brasil, e inclui ligações rodoviárias de 165 km, cortando três estados venezuelanos.

O vice-ministro venezuelano das Relações Exteriores para a América Latina e Caribe, Eustoquio Contreras, afirmou que há uma preocupação dos países vizinhos com a região fronteiriça, o que implica cooperação em preservação ambiental e equipamentos de defesa.

Na opinião de Contreras, “novos conceitos morais e éticos” estão definindo a liderança de países como o Brasil e a Venezuela no plano internacional, o que implica também uma nova “geopolítica na região”.

Ele destaca a aliança que o seu país está celebrando com o Uruguai, país que acaba de empossar um presidente de esquerda.
O Uruguai já está vendendo à Venezuela, produtos lácteos e transferindo conhecimento e tecnologia na área da pecuária em troca de derivados de petróleo.

A Venezuela também deve colaborar com o país que tem enfrentado problemas de abastecimento de energia. Com o Brasil, a aliança estratégica da Chávez vai do setor de Defesa, as áreas de energia e políticas agroalimentares.

Os dois países estão construindo uma indústria petroquímica binacional, e trabalhando em conjunto para a formação da Petrosul, empresa que vai unir as petroleiras estatais da América do Sul.
O que também deve estar na pauta do encontro desta terça-feira é o destino do petróleo venezuelano.

Quinta maior exportadora do mundo, a Venezuela exporta 60% dos três milhões de barris diários de petróleo para os Estados Unidos. Hugo Chávez já deixou claro que pretende diversificar as vendas, provocando arrepios nos norte-americanos.

Lula e Zapatero esperam que a reunião seja proveitosa e que os dois possam consolidar definitivamente a paz entre Colômbia e Venezuela, além de dissuadir Chávez de qualquer interesse por um confronto com os Estados Unidos.

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