Durante os 12 anos em que articulamos o Gabinete de Crises da Presidência
da República, tivemos o privilégio de ter em nossa equipe o Embaixador José
Antônio de Macedo Soares, e com ele apreendermos a dimensão internacional
de todas as crises que prevenimos ou gerenciamos.

Devemos a ele compreender que os nossos estudos só estariam completos se
entendêssemos os impactos internacionais de nossas crises internas e vice-
versa. Ah! E o alerta para cortarmos os adjetivos em nossos textos.
Dentre seus muitos ensinamentos, Macedo Soares, em alguns anos
acompanhado pelos hoje Embaixadores Manoel Gomes Pereira e José Carlos
Leitão, nos mostrou que, para entendermos o que acontecia na América Latina,
tínhamos que ler o jornal El País, em especial seu colunista Vargas Llosa.
Foi, portanto, com alguma nostalgia, agora afastados do Gabinete de Crises,
mas fiéis àquela recomendação, que lemos o texto publicado no O Estado de
São Paulo, do último 15 de novembro, em que Vargas Llosa fala dos 30 anos
de sua coluna – Pedra de Toque – naquele periódico espanhol.
Eis algumas das visões descritas nesse artigo desse escritor peruano.
Para este Prêmio Nobel de Literatura, o jornalismo significa liberdade para
criticar e para elogiar. “Quando as coisas começam a ser ocultadas, o país
deixará de ser livre”. Acredita na força do jornalismo livre para o combate às
fake news.
Com o que vivenciou em seus quase 85 anos, os maiores inimigos da liberdade
são o populismo e a corrupção.
Em sua opinião, “o comunismo hoje só sobrevive em países falidos, como
Coréia do Norte, Cuba e Venezuela”.
Já os países que escolheram serem prósperos passaram por uma transição
difícil para um capitalismo limpo, como o de alguns países asiáticos, a exemplo
de Coreia do Sul e de Singapura.
Por outro lado, a boa fórmula de prosperidade não é a do capitalismo praticado
na Rússia ou na China, “de empresários que enriquecem engolindo calados o
que o poder lhes ordena”.

Sua grande decepção tem sido com Israel, cujo povo converteu, com ajuda
internacional, o deserto num país moderno e livre, mas que, sob Netanyahu, se
tornou um país dominador, asfixiando os palestinos.
É-nos pois, desde os nossos tempos de gerenciamentos de crises, uma grande
lição a vida de Mario Vargas Llosa, com a lucidez de quem muda em função da
história, mas sempre defendendo a liberdade.